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JBS fecha JV com fundo soberano da Indonésia, que aportará US$ 2,5 bilhões

Danantara terá 25% dos negócios da Austrália e da Nova Zelândia; aporte ocorrerá em até três anos e a sociedade poderá captar outros US$ 2,5 bi em dívida.

JBS, beef

By Brazil Stock Guide – A JBS (NYSE: JBS; B3: JBSS32) firmou uma parceria com o Danantara Investment Management, braço de investimentos do fundo soberano da Indonésia, para transformar suas operações na Austrália e na Nova Zelândia na base de uma nova plataforma de expansão no mercado asiático de proteínas.

O Danantara se comprometeu a aportar US$ 2,5 bilhões, em etapas, mediante a subscrição de ações que lhe darão 25% da nova joint venture. O acordo poderá mobilizar até US$ 5 bilhões, considerando a expectativa de captação adicional de até US$ 2,5 bilhões em dívida.

O principal benefício é permitir que a companhia financie uma expansão de grande escala na Ásia sem emitir imediatamente ações da JBS e sem bancar sozinha todo o capital necessário. A empresa mantém o controle operacional e societário da plataforma, ao mesmo tempo que divide o risco dos novos investimentos com um parceiro soberano.

“Estamos criando as condições para expandir nossa presença na Ásia”, afirmou Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS. Segundo ele, a parceria pretende utilizar a operação australiana como plataforma para fortalecer as cadeias regionais de proteínas e ampliar o acesso da companhia ao Sudeste Asiático.

Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS: nova base para crescimento no mercado asiático

O segmento reúne produtos bovinos, ovinos, suínos, pescados e alimentos de maior valor agregado. Inclui, entre outros ativos, a produtora de salmão Huon Aquaculture e a operação de suínos Rivalea, além de marcas como Swift, Great Southern, Primo e Beehive.

Brent Eastwood, CEO da JBS Austrália, afirmou que a administração cotidiana continuará com a equipe atual e que “nada muda para nossos 17 mil colaboradores, clientes e produtores parceiros”.

Parceria mistura expansão empresarial e política industrial

O Danantara não é um investidor financeiro convencional. Criado pela Lei nº 1 de 2025, o fundo atua sob a Presidência da Indonésia e tem como mandato administrar e otimizar ativos estatais, estimular a industrialização e apoiar projetos considerados estratégicos para o país.

Isso ajuda a explicar por que, durante os dois primeiros anos, o capital comprometido deverá ser aplicado exclusivamente na Indonésia. O acordo não busca apenas retorno sobre ativos já maduros na Austrália, mas pretende criar capacidade de produção, processamento e distribuição no mercado indonésio.

Para a JBS, o Danantara oferece capital e um parceiro institucional com conhecimento do ambiente regulatório e empresarial local. Para a Indonésia, a associação permite atrair tecnologia, capacidade operacional e experiência em cadeias de proteína de uma das maiores empresas globais do setor.

A JBS estima que o conjunto das regiões contempladas pela parceria reúne aproximadamente 745 milhões de pessoas. A Indonésia também ocupa posição central no mercado halal. O relatório mais recente da DinarStandard estima que os gastos globais com alimentos halal chegaram a US$ 1,53 trilhão em 2024 e poderão alcançar US$ 2,06 trilhões em 2029. A expansão da produção certificada e das cadeias locais de suprimento aparece entre as principais tendências identificadas pela consultoria.

“É uma boa jogada. A Indonésia é um mercado gigantesco e continua praticamente fechado a empresas estrangeiras”, disse um trader internacional ao Brazil Stock Guide.

Desenho societário

No nível societário e estratégico, a entrada do Danantara trará novos direitos de governança, vetos e mecanismos de proteção econômica. O desenho é mais complexo do que uma venda de 25% por US$ 2,5 bilhões. No fechamento, o fundo desembolsará apenas US$ 800 milhões e receberá uma participação efetiva de aproximadamente 9,64%. Os US$ 1,7 bilhão restantes serão aportados ao longo dos três anos seguintes, de acordo com oportunidades previstas em um plano de aquisições.

Antes da conclusão da transação, a JBS transferirá 100% de suas participações nos negócios da Austrália e da Nova Zelândia para uma nova holding constituída na Holanda, mesma jurisdição da controladora global JBS N.V.. O Danantara subscreverá ações novas dessa companhia, diluindo a participação da JBS, que deverá ficar em 75% após o aporte integral.

A distinção é importante: o dinheiro será colocado dentro da joint venture para financiar sua expansão. Não se trata de uma venda secundária na qual os US$ 2,5 bilhões seriam pagos diretamente à JBS para distribuição aos acionistas ou redução da dívida da controladora.

A matemática sugere valuation de US$ 7,5 bilhões antes do aporte

A subscrição de 25% por US$ 2,5 bilhões implica um valor de US$ 10 bilhões para a joint venture depois da entrada integral do dinheiro, o chamado valuation pós-money. Retirando o novo capital, os ativos aportados pela JBS recebem um valor implícito de US$ 7,5 bilhões antes do aporte.

A primeira parcela confirma a mesma conta. Um investimento de US$ 800 milhões por 9,64% indica um valuation pós-money de aproximadamente US$ 8,3 bilhões. Descontado o aporte inicial, o valor atribuído aos negócios existentes volta a cerca de US$ 7,5 bilhões.

Esse cálculo representa valor patrimonial, ou equity value. O fato relevante não informa quanto de caixa, dívida ou outros passivos será transferido para a nova holding. Por isso, os US$ 7,5 bilhões não devem ser tratados como enterprise value.

Uma divisão simples desse valor pelo EBITDA de 2025 produziria uma relação de aproximadamente 8,2 vezes. Mas ela não equivale ao múltiplo convencional de valor da firma sobre EBITDA e não deve ser comparada mecanicamente aos múltiplos da JBS ou de concorrentes sem que se conheça a dívida líquida da joint venture.

A plataforma que será aportada é relevante para o grupo. Em 2025, o segmento Austrália registrou receita líquida de US$ 8,08 bilhões e EBITDA ajustado de US$ 916 milhões, com margem de 11,3%. O negócio respondeu por cerca de 9,4% da receita e 13,5% do EBITDA consolidado da JBS, segundo cálculos do Brazil Stock Guide com base no relatório anual da companhia.

O dinheiro será aportado em três etapas

A primeira etapa ocorrerá no fechamento da transação. A JBS colocará os negócios da Austrália e da Nova Zelândia na holding holandesa e o Danantara aportará US$ 800 milhões. A participação inicial do fundo será de aproximadamente 9,64%.

Na segunda etapa, o Danantara poderá ser chamado a aportar os US$ 1,7 bilhão restantes ao longo dos três anos seguintes. Os desembolsos estarão vinculados a oportunidades aprovadas em um plano de aquisições a ser elaborado pelo conselho da joint venture.

Nos primeiros dois anos após o fechamento, os recursos só poderão ser usados em projetos e empresas do setor de proteínas na Indonésia. O mandato inclui investimentos greenfield, além de aquisições ou aportes em companhias já existentes.

Depois desse período, eventual saldo remanescente poderá ser direcionado a uma área geográfica mais ampla, incluindo Sudeste Asiático, Austrália e Nova Zelândia, além de expansões greenfield ou brownfield.

A terceira etapa dependerá da conclusão do aporte integral do Danantara. Só então a joint venture pretende levantar até US$ 2,5 bilhões em dívida externa. O comunicado não detalha bancos, custo, prazo ou garantias, nem o cronograma dessa captação.

Assim, o número de US$ 5 bilhões deve ser lido como capacidade máxima potencial de financiamento, e não como recursos imediatamente disponíveis. JBS e Danantara aceitaram um período de lock-up de cinco anos

Danantara terá direitos de 25% antes de desembolsar todo o capital

Um dos pontos mais incomuns do acordo está na diferença temporária entre a participação legal do Danantara e os seus direitos dentro da joint venture.

Durante os três primeiros anos após o fechamento, o fundo será tratado como titular de 25% para fins de governança e interesse econômico, desde que sua participação efetiva permaneça acima de 7,5%. Como o investimento inicial lhe dará 9,64%, essa condição estará atendida desde o início.

Na prática, os direitos do Danantara não crescerão gradualmente a cada nova chamada de capital: começarão como se o compromisso integral já tivesse sido cumprido, embora apenas US$ 800 milhões tenham sido desembolsados. Ao final do período de três anos, os direitos de governança passarão a acompanhar as participações efetivamente detidas por cada acionista.

O conselho terá até sete integrantes. A JBS indicará cinco — dois executivos e três não executivos —, enquanto o Danantara nomeará dois conselheiros não executivos. A JBS, portanto, manterá a maioria ordinária do colegiado e o controle da companhia.

O fundo indonésio, porém, terá poder de veto sobre decisões consideradas materiais. A lista inclui novas emissões de ações, reorganizações societárias, contratação de dívida acima de um índice de alavancagem previamente acordado, venda de ativos relevantes, liquidação e dissolução.

Esses vetos não transferem o controle operacional ao Danantara, mas impedem que a JBS decida sozinha sobre mudanças capazes de alterar significativamente o valor ou o risco da participação minoritária.

Queda do EBITDA pode elevar participação do fundo a 30%

O acordo também protege o Danantara contra uma deterioração dos resultados da plataforma logo depois da transação. Após o aporte integral, será comparado o EBITDA de 2025 com a média dos resultados de 2026 e 2027. Se a média dos dois anos ficar abaixo do EBITDA de 2025, o Danantara terá direito a ações compensatórias.

A participação do fundo poderá, por esse mecanismo, subir de 25% para até 30%. No limite, a fatia da JBS cairia de 75% para 70%, sem um aporte adicional proporcional do parceiro indonésio.

A cláusula é relevante porque 2025 foi um ano forte para a operação australiana. O EBITDA do segmento cresceu 37,9%, para US$ 916 milhões, estabelecendo uma base elevada para a comparação. Além disso, os primeiros números de 2026 já mostram pressão sobre as margens. No primeiro trimestre, a receita da Austrália avançou 32,3%, para US$ 2,14 bilhões, mas o EBITDA caiu 17,2%, para US$ 132,8 milhões. A margem recuou de 9,9% para 6,2%, principalmente em razão de um aumento de 29% no preço do gado, segundo o balanço do primeiro trimestre.

Um trimestre isolado não determina o resultado do ajuste, pois o teste considera a média anual de 2026 e 2027. Ainda assim, a queda inicial ajuda a explicar por que a proteção foi negociada e por que o desempenho da Austrália se tornará um dos principais indicadores a acompanhar.

As partes afirmam que pretendem realizar uma oferta pública inicial da joint venture. O IPO poderá dar liquidez ao Danantara, estabelecer um preço público para a plataforma e criar uma moeda própria para futuras aquisições. Se o IPO não ocorrer até o sexto aniversário da joint venture, o Danantara poderá, em até duas oportunidades, trocar toda ou parte de sua participação por ações novas da própria JBS.


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