By Brazil Stock Guide – Marcelo Gasparino da Silva renunciou aos cargos de membro e vice-presidente do Conselho de Administração da Vale (NYSE: VALE; B3: VALE3), cinco dias depois de a mineradora decidir levar aos acionistas uma proposta para destituí-lo por vazamento de informações confidenciais.
A renúncia terá efeito a partir de 1º de agosto, segundo comunicado divulgado nesta segunda-feira. A Vale não informou os motivos apresentados por Gasparino nem se manterá a convocação da assembleia que deliberaria sobre sua retirada.
Na prática, a saída voluntária esvazia o processo de destituição e encerra uma das disputas de governança mais incomuns da história recente da companhia.
Gasparino começou o dia 22 de julho como candidato à presidência do conselho e terminou enfrentando uma tentativa de afastamento do próprio colegiado. Ele recebeu 30,4% dos votos na eleição, ante 56,4% de Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie.
Horas depois da assembleia, a Vale informou que uma investigação externa havia concluído que Gasparino foi responsável pelo vazamento de informações relacionadas a uma reunião do conselho realizada em 19 de junho.
A mineradora também afastou Gasparino do Comitê de Indicação e Governança e do Comitê de Pessoas e Remuneração enquanto os acionistas não decidissem sobre sua permanência no conselho.
A Vale não revelou oficialmente o conteúdo vazado. Reportagens publicadas durante a disputa, porém, expuseram um jantar e uma visita de Ollie, do então chairman Daniel Stieler e de outros representantes da companhia ao Sistema Centro-Oeste, complexo de minério de ferro controlado pela J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Após conhecer as instalações, Ollie teria enviado uma mensagem interna elogiando a capacidade de execução e o apetite por risco dos irmãos Batista. O conselheiro também teria sugerido que a Vale avaliasse uma parceria ou joint venture envolvendo o ativo.
A divulgação das informações alimentou questionamentos sobre a proximidade de Ollie com a J&F justamente quando ele disputava a presidência do conselho com Gasparino. Não há indicação, contudo, de que os irmãos Batista buscassem uma participação na Vale. A operação considerada seria uma eventual participação da Vale na LHG Mining ou em seus ativos de Corumbá.
A Vale confirmou que analisou uma possível operação envolvendo o Sistema Centro-Oeste, mas afirmou que o investimento foi descartado após avaliações técnicas, econômicas e financeiras. A J&F declarou que a LHG não estava à venda, embora tivesse contratado o Citi para buscar um investidor minoritário.
Segundo a Vale, a investigação confirmou que o vazamento representou uma violação de suas regras internas de conduta e confidencialidade. O conselho acompanhou recomendações do Comitê de Auditoria e Riscos e da Diretoria de Auditoria e Conformidade ao decidir pela tentativa de destituição.
A acusação ganhou peso adicional pelo histórico de Gasparino. Advogado e um dos conselheiros profissionais mais conhecidos do mercado brasileiro, ele construiu sua carreira em torno da independência dos conselhos, da governança corporativa e da defesa de acionistas minoritários.
Gasparino era conselheiro titular da Vale desde 2020 e vice-presidente desde 2023. Também integra os conselhos da Petrobras e da Metalfrio e participa de comitês de auditoria e remuneração do Banco do Brasil.
A Vale informou que o conselho avaliará, com apoio do Comitê de Indicação e Governança, as providências necessárias após a renúncia. A companhia ainda não disse quem assumirá a vice-presidência nem como pretende preencher a vaga aberta no colegiado.
Pouco depois da divulgação da renúncia, Gasparino publicou no LinkedIn uma mensagem sobre ética e compliance, sem mencionar diretamente a Vale ou responder à acusação de vazamento: “As garças têm a habilidade de caminhar sobre águas pantanosas sem jamais comprometer a alvura de suas penas.” A frase foi atribuída ao ex-presidente do STF Carlos Ayres Britto.

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