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Campanhas presidenciais rivais convergem em modernização do SUS e integração com o setor privado

Representantes de Lula, Augusto Cury, Caiado, Renan Santos e Zema defendem dados interoperáveis, melhor gestão das filas, regionalização e pagamento por resultados, apesar de divergências sobre o papel do Estado.

Brazil Stock Guide — Em um raro ponto de convergência na corrida presidencial, representantes de cinco campanhas, de Lula a Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, defenderam nesta segunda-feira uma agenda semelhante para modernizar a saúde brasileira: integrar dados, reorganizar filas, regionalizar o atendimento e usar de forma mais coordenada a capacidade do setor privado.

As diferenças aparecem menos no diagnóstico do que na execução. As campanhas divergem sobre financiamento, regulação, governança e o tamanho do papel do Estado – questões que, na prática, definem quem paga pela modernização, como os recursos serão distribuídos e quanto espaço caberá à iniciativa privada. A campanha de Flávio Bolsonaro não enviou representante ao encontro.

O debate ocorreu na Fiesp durante o lançamento de uma agenda para a saúde no ciclo de 2027 a 2030. Ao longo das apresentações, ficou claro que prontuário interoperável, atenção primária mais resolutiva, regionalização e melhor organização das filas formam uma espécie de terreno comum. A disputa começa quando se discute quais instrumentos usar para chegar lá.

A deputada federal Adriana Ventura (Novo), que apresentou a agenda de saúde da campanha de Romeu Zema, resumiu a premissa do grupo como a necessidade de “integrar e gerir melhor o que já temos”. A proposta combina interoperabilidade entre saúde pública e privada, expansão da telemedicina, reorganização das filas e utilização da capacidade ociosa do setor privado para reduzir gargalos do SUS.

A campanha de Zema também quer alterar gradualmente os incentivos financeiros do sistema. Em vez de remunerar predominantemente a quantidade de procedimentos realizados, a proposta é ampliar o peso dos resultados clínicos, da prevenção de reinternações e da qualidade do atendimento. A redução de obrigações regulatórias consideradas desnecessárias aparece como outro componente da agenda de eficiência.

Adriano Massuda, secretário-executivo do Ministério da Saúde e representante da campanha de Lula, parte de uma premissa diferente. Para o grupo governista, ampliar o financiamento e a capacidade de coordenação federal continua sendo condição para reduzir desigualdades regionais e aumentar a oferta assistencial. Nos mecanismos de gestão, porém, surgem vários pontos de contato com as demais candidaturas.

Massuda defendeu planejamento regional, monitoramento das filas, uso mais organizado da capacidade privada pelo SUS e aprofundamento da transformação digital. Segundo ele, a Secretaria de Informação e Saúde Digital dispõe de cerca de R$ 1,7 bilhão para investimentos em infraestrutura, dados e software. A interoperabilidade, afirmou, precisa ligar não apenas diferentes níveis do SUS, mas também os sistemas público e privado.

Para Massuda, no entanto, digitalização não é um fim em si mesmo. O objetivo é fazer com que as informações clínicas acompanhem o paciente e sejam usadas para coordenar o cuidado, organizar filas e planejar a oferta regional, em vez de simplesmente multiplicar sistemas eletrônicos.

A discussão sobre eficiência levou o debate a outro ponto de convergência inesperado: a forma como os recursos da saúde são distribuídos. Massuda criticou a alocação de emendas parlamentares e afirmou que o Ministério da Saúde gastou cerca de R$ 2 bilhões no ano passado para atender 4.700 pacientes por determinação judicial, com custo médio próximo de R$ 400 mil por tratamento.

Ventura também atacou as distorções provocadas pelas emendas. Segundo ela, parlamentares podem direcionar milhões de reais para equipamentos sem demonstrar que existe demanda regional ou estrutura para operá-los. Disse ter encontrado máquinas compradas com recursos públicos ainda fechadas em caixas por falta de planejamento. Ao falar da judicialização, resumiu: “Uma caneta fura a fila.”

Na campanha de Renan Santos (Missão), o médico Felipe Roth apresentou uma proposta mais específica para enfrentar justamente o problema das filas. Em vez de privilegiar quase exclusivamente a ordem cronológica, ele defende critérios públicos e auditáveis que levem em conta gravidade, risco de piora, perda de capacidade funcional, vulnerabilidade social e tempo de espera, em um modelo inspirado no sistema de transplantes.

Roth também propõe uma atualização gradual da Tabela SUS, acompanhada de contrapartidas, contratos de maior previsibilidade e remuneração por desfechos. Reconhece que a mudança atingiria segmentos hoje favorecidos por modelos baseados em volume, mas sustenta que contratos mais estáveis e regras claras de auditoria e glosa poderiam reduzir a resistência à transição.

A maior aproximação com o setor privado teria, porém, um limite definido. Para Roth, prestadores privados devem atuar como parceiros contratados e complementares ao SUS, não como substitutos do Estado. A proposta procura combinar maior utilização da capacidade privada com a preservação do caráter público e universal do sistema.

Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde e representante de Ronaldo Caiado (PSD), colocou essa preservação no centro de sua apresentação. Rejeitou propostas de privatização do SUS e defendeu a profissionalização da gestão do Ministério da Saúde, com menor interferência político-partidária na administração da pasta.

Mandetta reconheceu, ao mesmo tempo, que existe amplo consenso entre as campanhas em temas como prontuário eletrônico, regionalização, inteligência artificial e telemedicina. Sua avaliação ajudou a sintetizar o tom do encontro: há menos controvérsia sobre o que precisa ser modernizado do que sobre o arranjo institucional e financeiro necessário para fazê-lo.

Foi na política industrial que Mandetta acrescentou uma camada distinta ao debate. Ele defendeu a reconstrução de cadeias brasileiras de medicamentos, insumos e equipamentos e apontou a pandemia como demonstração da vulnerabilidade criada pela dependência externa. Na sua visão, o tamanho do SUS e seu poder de compra podem ser usados para estimular capacidade produtiva nacional e diversificar fornecedores.

No campo regulatório, o ex-ministro também propôs rever a composição da Conitec, responsável por avaliar tecnologias para incorporação ao SUS, além de pedir maior transparência nos processos envolvendo novas tecnologias e preços.

Paula Távora, representante da candidatura de Augusto Cury (Avante), levou o debate para temas que apareceram com menos força nas demais apresentações, entre eles longevidade, saúde mental e neurodivergência. Sua proposta é tornar a atenção primária mais resolutiva, reduzindo encaminhamentos desnecessários e usando tecnologia para identificar as necessidades específicas de cada território.

Sua visão de um SUS digital combina prevenção, personalização, participação, capacidade preditiva e proximidade com o paciente. Ao falar das listas de espera, resumiu a urgência da questão em uma frase: “Fila não é atraso. Fila é dano.” A demora, argumentou, não representa apenas uma ineficiência administrativa: pode agravar doenças, tornar tratamentos mais complexos e elevar o custo futuro para o sistema.

Távora também foi explícita sobre a cooperação entre os dois sistemas. “A saúde suplementar, o setor privado, tem que casar com o SUS. Nós temos que andar juntos”, afirmou, ao defender maior utilização da capacidade diagnóstica, tecnológica e de formação existente fora da rede pública.

A política industrial da saúde produziu outro ponto de aproximação entre candidaturas ideologicamente distantes. Massuda defendeu o uso do poder de compra do SUS para estimular a produção nacional; Mandetta falou na reconstrução de cadeias estratégicas e na diversificação geográfica de fornecedores; Roth propôs zonas econômicas especiais voltadas à saúde, pesquisa, inteligência artificial e produção de insumos.

Os instrumentos diferem, mas há uma mudança comum de perspectiva: saúde aparece não apenas como política social, mas também como atividade econômica, agenda tecnológica e questão de soberania. Medicamentos, equipamentos, dados, inteligência artificial e genômica passam a fazer parte de uma mesma discussão sobre a capacidade brasileira de produzir e controlar tecnologias consideradas essenciais.

Os 5 Inegociáveis e a busca de uma agenda de Estado

Parte dessa convergência refletiu a própria agenda apresentada pelas entidades do setor no encontro. Ao fim do encontro, a FESAÚDE e o SindHosp lançaram “Os 5 Inegociáveis da Saúde — Uma agenda para as lideranças políticas brasileiras 2027–2030”, com apoio institucional da ARCA, think tank da saúde.

Presidente da FESAÚDE e do SindHosp, Francisco Balestrin define o projeto como uma tentativa de criar uma agenda capaz de atravessar governos e calendários eleitorais. “Essa é uma agenda de Estado, suprapartidária e permanente, que exige compromisso, cooperação e visão de longo prazo”, afirma no relatório.

Os cinco eixos são Paciente Único, Dados Estruturados, Acesso Qualificado, Cuidado Padronizado e Desperdício Contido. A premissa é que o principal desafio não está necessariamente em criar novas instituições, mas em fazer as estruturas existentes trabalharem de forma coordenada.

“A próxima transformação da saúde brasileira não será institucional. Será sistêmica”, afirma o documento. Ao comparar o Brasil com experiências internacionais, o relatório argumenta que os sistemas que avançaram em qualidade e eficiência combinaram identidade única do paciente, integração de dados, planejamento do acesso, padrões de qualidade e governança duradoura. “O Brasil tem os ativos. Falta a arquitetura que os articule.”

Essa arquitetura incluiria uma identidade clínica capaz de acompanhar o paciente ao longo da vida, dados que possam circular entre prestadores e sistemas, planejamento de acesso, padrões de qualidade e mecanismos para localizar desperdícios. A ideia é coordenar melhor instrumentos regulatórios e estruturas já existentes, em vez de começar necessariamente por uma ampla reforma institucional.

O relatório tenta também dimensionar economicamente o problema. A estimativa apresentada varia de R$ 240 bilhões a R$ 360 bilhões por ano em desperdício estrutural, calculada a partir de uma referência internacional segundo a qual entre 20% e 30% dos gastos em saúde podem estar associados a práticas de baixo ou nenhum valor.

O próprio documento faz, porém, uma ressalva relevante: o Brasil ainda não possui uma medição nacional sistemática e comparável do desperdício clínico, operacional e administrativo entre SUS e saúde suplementar. Construir essa métrica e identificar onde os recursos efetivamente se perdem fazem parte da agenda proposta.

E desperdício, nesse caso, não significa apenas fraude ou corrupção. A definição inclui repetição desnecessária de exames, práticas clínicas de baixo valor, falhas de coordenação, eventos adversos evitáveis, burocracia e ineficiências administrativas. A lógica é liberar recursos consumidos de maneira pouco eficiente e redirecioná-los para acesso, qualidade e prevenção.


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