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Surfando a onda coreana na fila do Komah

Da Barra Funda paulistana aos rankings globais de exportação cultural, a Hallyu, a “onda coreana”, mostra como um país transformou influência em negócio

Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide

Na rua de sobrados pequenos, num bairro paulistano operário que vem se gentrificando, a movimentação chama a atenção na frente do restaurante. Lá dentro do sobradinho, ambiente simples, com cadeiras dobráveis de madeira, jogo americano de papel pardo com indecifráveis escritos coreanos e serviço caprichado, com pratos sem pirotecnia, mas muito atraentes: kimchi bokumbap, arroz, carnes, pancetta, ensopados, fermentados e receitas de memória familiar. Conseguir uma mesa no Komah exige planejamento. Em certas noites, a fila lembra mais a disputa por ingressos de um show do BTS, provavelmente a maior estrela no universo do K-Pop.

O comensal do Komah, assim como o eventual fã de música pop coreana, vivencia um dos fenômenos econômicos e culturais mais interessantes do século XXI. Há 20 anos, a Coreia do Sul exportava apenas produtos industriais: automóveis, eletrônicos e aço. O país construiu riqueza em cima disso, com marcas como Hyundai e Samsung passando a fazer parte do dia a dia de gente pelo mundo afora. Mas hoje a Coreia do Sul também vende desejos: exporta música, séries, cosméticos e tendências de moda. E a palavra para definir esse fenômeno é Hallyu, ou “onda coreana”.

No Brasil, alguns conheceram a Coreia através de grupos pop como BTS e Blackpink. Outros, pelos doramas da Netflix. Houve quem entrasse pela porta do cinema, depois de Parasita vencer o Oscar. Mais recentemente, muitos chegaram pela comida, em bairros como o Bom Retiro, centro da imigração coreana em São Paulo, ou a Barra Funda, onde fica o Komah.

Esse soft power foi transformado em política econômica na Coreia do Sul. O levantamento mais recente da Korean Foundation for International Cultural Exchange (KOFICE), produzido com o Ministério da Cultura sul-coreano, estimou que a Hallyu gerou, em 2025, quase US$ 19 bilhões em exportações, com crescimento de 15,9% em relação ao ano anterior. O impacto total associado à Hallyu atingiu quase US$ 32 bilhões em produção econômica e mais de 242 mil empregos diretos e indiretos.

A imagem popular da onda coreana ainda está associada ao K-Pop, mas vai muito além dele. Os games, por exemplo, respondem por 64,3% das exportações de conteúdo cultural; os filmes e séries registram expansão, ganhando espaço sobretudo no streaming.


O K-pop se tornou uma das faces mais visíveis da Hallyu, ajudando a transformar a cultura sul-coreana em uma poderosa plataforma global de influência, consumo e exportações.

Os formuladores de política coreanos levam em consideração que o jovem que começa pelo K-Pop está mais propenso a olhar com mais carinho para as séries do streaming ou a usar skincare e experimentar comidas da Coreia. Segundo análise divulgada pela Korea Creative Content Agency (KOCCA), cada aumento de US$ 100 milhões nas exportações de conteúdo cultural gera aproximadamente US$ 202 milhões em exportações de setores relacionados.

Hollywood já fez isso pelos Estados Unidos durante décadas; o Japão tem algo semelhante, com seus animes, mangás e videogames; o Reino Unido continua colhendo dividendos culturais de sua música, literatura e moda. Desde o fim dos anos 1990, independentemente do viés ideológico, sucessivos governos em Seul reconheceram a cultura como um ativo estratégico, criando políticas de incentivo, mecanismos de financiamento, programas de exportação cultural e instituições voltadas para a difusão internacional de conteúdo coreano.

Os dados apontam sucesso, mas nenhuma curva estatística sustenta um crescimento infinito. Em levantamento internacional da KOFICE com 27.400 consumidores em 30 países, 70,3% dos entrevistados declararam gostar de conteúdos culturais coreanos. Esse resultado é obviamente positivo, mas esconde um certo cansaço em países como Tailândia, Malásia e Vietnã, fundamentais para a onda coreana. Em 2021, eram 77%.

Enquanto receitas, exportações e monetização avançam, a expansão do público ocorre de forma mais lenta.

Os números sugerem que a onda não está necessariamente alcançando muito mais gente, mas está aprendendo a ganhar mais dinheiro com quem já embarcou nela. Para o investidor, a dúvida que pode ficar é quem nessa cadeia, que vai do palco à pasta de gochujang, vai conseguir extrair mais valor do público que já existe. Nomes como Hybe, o conglomerado de música sul-coreano, e Amorepacific, a gigante de cosméticos, vivem exatamente dessa aposta: monetizar melhor quem já gosta.

O Komah, aliás, ilustra bem essa segunda fase. A fila sugere que ninguém ali descobriu a Coreia naquela noite. Um casal vestido de peças da grife Sabot, da coleção feita em colaboração com a artista e tatuadora Monique Pak, bebe um Khaennip Sour, o drink de soju, gin, khaennip, limão e clara de ovo. A mulher suspira: “A espera é chata mesmo, mas vale esperar para pedir o Samgiopsal [pancetta glaceada com gochujang]”. Esse é um dos desafios da onda coreana: fazer com que os já seduzidos por ela estejam dispostos a enfrentar fila.


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