By Brazil Stock Guide – O advogado Marcelo Gasparino admitiu ter enviado por WhatsApp a um analista sell-side uma minuta de manifestação e voto de sua autoria, mas negou que o episódio tenha representado o vazamento de informações confidenciais da Vale (NYSE: VALE; B3: VALE3).
A declaração consta de uma carta aberta divulgada após Gasparino renunciar aos cargos de membro e vice-presidente do Conselho de Administração. A saída terá efeito a partir de 1º de agosto.
O documento apresenta pela primeira vez a versão detalhada de Gasparino sobre o episódio que levou o conselho da Vale a aprovar uma sanção de destituição contra ele. A retirada definitiva ainda teria de ser submetida aos acionistas, mas a renúncia esvazia essa votação.
Segundo Gasparino, o documento foi encaminhado de forma reservada a um analista de uma instituição financeira brasileira com quem ele havia mantido uma conversa profissional naquela semana.
O material, de acordo com o conselheiro, era de sua exclusiva autoria, já havia sido formalmente enviado à Vale e continha suas opiniões sobre assuntos que, em seus aspectos centrais, já eram públicos e debatidos pelo mercado.
Gasparino citou avaliações envolvendo a Bahia Mineração, as negociações para a renovação das concessões ferroviárias e o Programa Mini-Minas. Ele argumentou que a própria Vale havia afirmado, em comunicado de 24 de junho, que esses temas já tinham sido esclarecidos ao mercado.
“Não houve divulgação de informação relevante não pública”, afirmou. Gasparino também negou ter buscado vantagem financeira, interferido na negociação de valores mobiliários ou exposto manifestações confidenciais de outros administradores.
O conselheiro reconheceu que o documento pode ter circulado além do destinatário original, mas disse que qualquer divulgação posterior não foi realizada nem autorizada por ele.
A versão diverge da conclusão apresentada pela Vale. A companhia afirmou que uma investigação conduzida por escritório externo independente confirmou que Gasparino foi responsável pelo vazamento de informações confidenciais relacionadas à reunião do conselho de 19 de junho.
Gasparino também questionou a condução da investigação. Segundo ele, o escritório responsável pela apuração entrou em contato em 14 de julho, mas sua entrevista foi solicitada para depois da assembleia de 22 de julho por causa de viagens e reuniões com acionistas organizadas pela própria companhia.
A decisão de recomendar sua destituição foi tomada no dia da assembleia, antes que ele prestasse depoimento ou tivesse acesso integral às conclusões da investigação, afirmou. Gasparino disse que estava em um voo previamente agendado e não participou da reunião na qual o conselho deliberou sobre sua saída.
Ele voltou a solicitar acesso ao relatório final da apuração e afirmou que apresentará sua defesa jurídica nas instâncias competentes. “Ninguém deve ser julgado antes de ser ouvido”, escreveu, ao mencionar uma visita recente ao Tribunal de Nuremberg.
A carta também transforma o episódio em uma acusação mais ampla contra o funcionamento da governança da Vale. Gasparino afirmou ter observado decisões relevantes conduzidas fora dos fóruns formais, “articulações e eventos secretos” e uma crescente assimetria na avaliação das condutas dos administradores.
A referência aos eventos mantidos em sigilo ocorre após a divulgação de um jantar e de uma visita de integrantes da Vale ao complexo de minério de ferro da J&F em Corumbá. O grupo incluía o novo presidente do conselho, Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, além do então chairman Daniel Stieler e outros representantes da mineradora.
Gasparino não relacionou diretamente esse episódio ao documento enviado ao analista. O conteúdo descrito em sua carta indica que o material compartilhado tratava de outros temas. A controvérsia envolvendo a J&F, contudo, compõe o ambiente mais amplo de desconfiança e disputa interna descrito pelo conselheiro.
Gasparino afirmou que a decisão de renunciar vinha sendo amadurecida havia meses e não decorreu apenas de sua derrota para Ollie na disputa pela presidência do conselho. Segundo ele, sua candidatura foi uma última tentativa de reverter o que considera um progressivo afastamento da Vale dos princípios de transparência e independência.
O conselheiro disse ter recebido mais de 1 bilhão de votos e argumentou que obteve apoio da maioria dos acionistas quando excluídos os investidores de referência que apoiaram Ollie. Ele negou que sua renúncia envolva acordo com acionistas, vantagem financeira ou compromisso com terceiros.

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