By Brazil Stock Guide – O Ministério da Defesa deu mais um passo na preparação de um novo programa de helicópteros para uso conjunto da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ao criar um grupo encarregado de avaliar a capacidade da indústria brasileira de participar da fabricação, integração e manutenção do futuro Helicóptero Multimissão.
Portaria publicada nesta segunda-feira, 28, no Diário Oficial da União determina a elaboração de uma Análise da Base Industrial de Defesa (ABID) para o programa. O estudo deverá identificar capacidades industriais e tecnológicas existentes no país, avaliar o grau de maturidade das empresas, apontar lacunas e recomendar medidas para reduzir os riscos associados à participação da indústria nacional durante o ciclo de vida da aeronave.
O movimento dá sequência a uma decisão tomada em agosto, quando o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas criou outro grupo, reunindo representantes das três Forças, para formular o Conceito de Operações Conjunto, ou CONOPS, do mesmo helicóptero. A portaria de agosto menciona expressamente o “processo de obtenção conjunta do Helicóptero Multimissão”.
Na prática, a Defesa trabalha agora em duas frentes complementares: definir o que as Forças querem que a aeronave faça e estabelecer quanto dessa solução poderá ser desenvolvido, produzido ou sustentado pela indústria brasileira.
A documentação publicada até agora não define fabricante, modelo, quantidade de helicópteros nem orçamento. Também não significa que uma concorrência esteja prestes a ser aberta. Mas a elaboração do CONOPS e da análise industrial coloca o projeto dentro de um processo formal de preparação de uma futura aquisição conjunta.
A iniciativa ocorre justamente quando a Helibras, subsidiária brasileira da Airbus, busca um novo programa de produção militar para sua fábrica de Itajubá, em Minas Gerais, após o encerramento da linha do H225M. O programa H-XBR, firmado em 2008, previa originalmente 50 helicópteros médios para Marinha, Exército e FAB e tornou-se um dos maiores projetos de transferência de tecnologia da indústria de defesa brasileira.
Em agosto, a Airbus revelou planos para produzir em Itajubá o H145, começando pela versão militar H145M. Segundo a empresa, seria necessário um contrato inicial de aproximadamente 40 aeronaves para dar escala econômica à nova linha. As discussões sobre a produção brasileira do modelo vêm ocorrendo desde 2024 e ganharam impulso após uma carta de intenções assinada entre Brasil e França em 2025, associada a investimentos de cerca de R$ 1 bilhão.
Não há, até agora, indicação oficial de que o H145M tenha sido escolhido para o projeto do Ministério da Defesa. A coincidência entre os dois movimentos, entretanto, coloca a plataforma da Airbus entre as aeronaves que naturalmente poderão disputar uma eventual encomenda, especialmente porque a Helibras já possui infraestrutura industrial e uma cadeia de fornecedores instalada no país.
O H145M pertence à categoria de helicópteros biturbina leves. Pode transportar até dez militares, tem peso máximo de decolagem de 3,8 toneladas e alcance de até 650 quilômetros. A aeronave pode ser configurada para transporte de tropas, busca e salvamento, evacuação médica, reconhecimento ou ataque leve, inclusive com sistemas de armas modulares.
A dimensão potencial do programa pode ser relevante. Somente a Aviação do Exército opera atualmente quase 100 aeronaves, entre helicópteros Fennec, Pantera, Cougar, Jaguar e Black Hawk, segundo dados divulgados neste mês pelo próprio Exército. Parte importante dessa frota pertence a famílias incorporadas há décadas e que deverão exigir substituição progressiva nos próximos anos.
O Exército opera o HA-1A Fennec em missões de reconhecimento e ataque leve e o HM-1A Pantera em transporte e aeromobilidade. Uma plataforma multimissão mais moderna poderia, dependendo dos requisitos que vierem a ser estabelecidos, assumir parte das funções hoje distribuídas entre essas aeronaves.
Na Marinha, outra necessidade de longo prazo está nos UH-12 Esquilo. O modelo entrou em serviço em 1979 e continua sendo empregado em missões que vão de reconhecimento e apoio a operações especiais a busca e salvamento, evacuação aeromédica, transporte de pessoal e operações a partir de navios.
A Marinha já iniciou a renovação de outras partes de sua aviação. O projeto TH-X, por exemplo, prevê a incorporação de H125 para treinamento, mas os UH-12 continuam desempenhando numerosas missões operacionais.
Na FAB, um helicóptero biturbina leve poderia ocupar uma faixa abaixo do H-60 Black Hawk e do H-36 Caracal em missões como transporte, busca e salvamento e apoio a operações especiais. Os requisitos, contudo, ainda estão sendo elaborados e não permitem afirmar quais modelos atuais serão efetivamente substituídos.
O precedente do H-XBR ajuda a explicar a lógica de uma aquisição conjunta. O programa do H225M procurou padronizar uma plataforma de helicóptero médio entre as três Forças, ao mesmo tempo em que estruturou uma linha industrial no Brasil. A Defesa agora parece estudar uma solução semelhante para uma categoria menor e mais versátil.
A nova ABID será elaborada por representantes da Secretaria de Produtos de Defesa, do Estado-Maior Conjunto e das três Forças. O grupo terá de consultar empresas e associações, avaliar níveis de maturidade tecnológica e produtiva e identificar lacunas da indústria nacional. O relatório deverá ser concluído em até 80 dias após a designação dos integrantes.
A participação do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação, do Departamento de Promoção Comercial e do Departamento de Financiamentos e Economia de Defesa indica que a análise deverá ir além da escolha da aeronave e incluir temas como conteúdo local, transferência de tecnologia, financiamento, suporte logístico e capacidade de manutenção no país.
O tamanho final do programa permanece em aberto. Mas a frota atualmente operada pelas três Forças e a necessidade de renovação de aeronaves mais antigas indicam que uma aquisição conjunta poderia envolver dezenas de helicópteros ao longo de vários anos, dependendo da amplitude estabelecida nos requisitos.
Para a indústria, essa escala será decisiva. Para a Helibras, em particular, um programa dessa dimensão poderia funcionar como sucessor industrial do H-XBR, preservando capacidade instalada em Itajubá depois do fim da produção do H225M.
A questão que começa a se desenhar, portanto, vai além de qual helicóptero o Brasil irá comprar. O Ministério da Defesa está começando a definir que parcela de uma nova geração de helicópteros militares poderá ser produzida e sustentada no próprio país — e por quem.













Deixe uma resposta