By Brazil Stock Guide — Depois de fechar 298 lojas e entrar com o pedido de recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas, o Grupo Casas Bahia (B3: BHIA3) prepara uma segunda etapa de sua transformação. A mensagem do CEO Renato Franklin é direta: a companhia que emerge da crise deverá ser menor na busca de gerar maior retorno.
“A estratégia daqui em diante é operar uma Companhia menor, mais seletiva e concentrada nas atividades capazes de gerar retorno e caixa”, afirmou Franklin em comunicado. Segundo ele, isso significa preservar as operações com maior capacidade econômica, ajustar custos e investimentos ao novo nível de atividade, melhorar o giro de estoques e reduzir a necessidade de capital empregado.
A chamada Fase 2 do Plano de Transformação começa depois de um corte sem precedentes recentes na estrutura física da varejista. As 298 unidades encerradas representam cerca de 29% da rede do Grupo Casas Bahia, que reunia pouco mais de mil lojas antes da redução. O número engloba as diferentes bandeiras do grupo, incluindo Casas Bahia e Ponto Frio – e não apenas lojas Casas Bahia.
No pedido de recuperação judicial, o grupo informa que, após o ajuste, a bandeira Casas Bahia ainda possui mais de 700 lojas físicas, enquanto o Ponto Frio mantém mais de 65 unidades.
Mas Franklin deixa claro que o objetivo da Fase 2 não é reconstruir rapidamente a escala perdida. A prioridade deixa de ser volume. Lojas, canais e categorias deverão justificar sua permanência pela capacidade de produzir margem, caixa e retorno sobre o capital empregado.
A lógica vale também para o comércio eletrônico. A companhia pretende rever os canais digitais e afirma que margem, geração de caixa e retorno passarão a prevalecer sobre o crescimento de volumes que não ofereçam retorno econômico adequado. A empresa possui acordos com a Amazon e o Mercado Livre.
É uma mudança relevante para uma varejista cuja recuperação vinha sendo associada ao crescimento das vendas digitais e à tentativa de recuperar participação de mercado. Na nova fase, vender mais deixa de ser suficiente. A pergunta passa a ser quanto capital precisa ser colocado em cada venda e quanto essa operação devolve para a companhia.
Na prática, a estratégia deixa aberta a possibilidade de novos fechamentos. A Casas Bahia não anunciou uma nova meta de redução da rede além das 298 unidades já encerradas, mas o critério estabelecido pela administração permite que outras lojas sejam revistas caso não entreguem os níveis esperados de rentabilidade e geração de caixa.
O mercado já vinha olhando para a Casas Bahia principalmente pela capacidade de geração de caixa, controle do endividamento e sustentabilidade da operação, mais do que pelo crescimento da receita. Relatórios de XP e BTG Pactual antes da divulgação do balanço do segundo trimestre colocavam essas variáveis no centro da avaliação da companhia.
A recuperação judicial aumenta a pressão para que esse processo avance. O grupo entrou na Justiça com R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de não conseguir concluir a captação de recursos prevista em seu plano financeiro. Segundo Franklin, a estratégia contemplava um aporte de capital via equity ou novas linhas de crédito, mas a deterioração do ambiente global e a maior aversão ao risco inviabilizaram as negociações.
O processo envolve dez empresas do grupo, incluindo as operações ligadas às marcas Casas Bahia e Ponto Frio, Extra.com e Bartira. Dos R$ 17,3 bilhões declarados, cerca de R$ 16,4 bilhões correspondem a créditos quirografários, além de aproximadamente R$ 754 milhões em créditos trabalhistas e R$ 154 milhões devidos a micro e pequenas empresas.
O contraste com alguns indicadores operacionais ajuda a explicar a natureza da crise. No segundo trimestre, a companhia afirma ter reduzido a alavancagem financeira para 0,5 vez o EBITDA ajustado, ante 2,2 vezes um ano antes, enquanto o fluxo de caixa livre chegou a cerca de R$ 800 milhões.
Ainda assim, a melhora desses indicadores não foi suficiente para resolver o problema de financiamento. Sem acesso ao capital novo previsto no plano, a companhia decidiu recorrer à recuperação judicial para reorganizar seu passivo e ganhar espaço para continuar reduzindo a estrutura. O problema, portanto, deixou de ser apenas quanto a Casas Bahia deve. Passou a ser também quanto dinheiro a empresa precisa para continuar funcionando.
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