By Brazil Stock Guide – O Bradesco (B3: BBDC4; NYSE: BBD) afirmou que o aumento de capital de até R$ 10 bilhões proposto aos acionistas dará ao banco flexibilidade para ampliar seu plano de transformação, acelerar negócios e proteger o balanço diante de um cenário de crédito mais desafiador.
A iniciativa partiu das acionistas controladoras, que assumiram compromisso firme de subscrever pelo menos R$ 8 bilhões. O valor equivale aproximadamente ao dobro dos cerca de R$ 4 bilhões que corresponderiam à participação proporcional de aproximadamente 40% detida pelo bloco de controle.
As explicações foram apresentadas em duas rodadas nesta quinta-feira: primeiro em coletiva de imprensa e, posteriormente, em teleconferência com analistas.
O CEO Marcelo Noronha afirmou que as famílias controladoras – herdeiras do fundador Amador Aguiar – identificaram uma oportunidade de reforçar a franquia, e não apenas de comprar ações do banco. O compromisso, segundo ele, representa um voto de confiança na organização, na administração e nas iniciativas adotadas desde o início da transformação.
“A gente está em um momento de transformação forte, com possibilidades de dar passos maiores nesse processo de transformação e de entregas”, disse Noronha.
O plano de transformação do Bradesco começou com dez grandes frentes, posteriormente desdobradas em mais de 800 iniciativas. Os recursos não estão vinculados a um projeto específico, mas ampliam a capacidade do banco de investir em tecnologia, inteligência artificial, canais, segmentação de clientes e novas plataformas de crédito.
“Com isso, a gente ganha flexibilidade para crescer mais”, afirmou o CEO. Segundo ele, o reforço também permitirá ao Bradesco realizar movimentos estratégicos caso surjam oportunidades compatíveis com seus critérios de retorno.
R$ 10 bilhões entram no capital tangível
Noronha defendeu a manutenção de um índice elevado de capital principal. “Capital forte nunca é demais para uma organização bancária”, disse ao responder ao ceticismo de analistas sobre a necessidade de captar recursos mesmo após a reorganização da Bradsaúde.
O CFO Cassiano Scarpelli afirmou que os R$ 10 bilhões entrarão “diretamente na veia do capital tangível” – a parcela dos recursos próprios efetivamente disponível para sustentar ativos, conceder crédito e gerar receitas.
Segundo Scarpelli, o reforço permitirá ao banco trabalhar melhor com capital próprio, ampliar sua capacidade de alavancagem em ciclos macroeconômicos mais favoráveis e reduzir proporcionalmente o peso dos créditos tributários, ou DTA, na estrutura patrimonial.
O CFO disse que o Bradesco não possui uma meta específica para o capital tangível. O objetivo é manter uma estrutura robusta, com mais recursos disponíveis para gerar resultados e sustentar o próximo ciclo de crescimento.
O aumento deve acrescentar aproximadamente 0,9 ponto percentual ao índice de capital principal, que encerrou junho em 11,3%. Considerando também um efeito adicional de 1,4 ponto da reorganização da Bradsaúde, ainda sujeito à aprovação dos reguladores, o indicador alcançaria 13,6% em termos pro forma.
Noronha afirmou que a demora no reconhecimento integral do capital liberado pela Bradsaúde é processual. Os documentos foram entregues recentemente, e o banco aguarda a manifestação dos órgãos reguladores.
O reforço também prepara o Bradesco para o aumento gradual das exigências de capital previsto até 2028. À medida que a carteira cresce e os ativos são reponderados pelo risco, o banco precisa reservar mais recursos próprios para sustentar suas operações.
Bradesco manterá pagamento máximo de JCP
O Bradesco pretende continuar pagando o valor máximo permitido em juros sobre capital próprio, mesmo após a capitalização, disse Noronha. O banco não prevê, neste momento, outra operação de reforço de capital além da proposta já apresentada.
Para facilitar a participação dos acionistas minoritários, o banco antecipou para setembro dois pagamentos de JCP anteriormente previstos para outubro e janeiro. A medida permite que investidores de longo prazo utilizem os recursos recebidos para acompanhar a subscrição.
A administração também antecipou a divulgação do aumento de capital porque havia um pagamento de JCP programado para 31 de julho. Segundo Noronha, se a proposta fosse anunciada apenas com o balanço, alguns acionistas poderiam ter aplicado o dinheiro recebido em outros ativos antes de conhecer a possibilidade de subscrição.
Os acionistas que não acompanharem o aumento de capital serão diluídos. Segundo o CEO, a operação corresponde a pouco mais de 5% do patrimônio líquido do banco.
Mais capital aumenta o desafio para o ROE
O reforço patrimonial traz um contraponto: quanto maior o capital, maior o lucro necessário para preservar ou elevar o retorno sobre o patrimônio. Noronha reconheceu que a operação aumenta o desafio de rentabilidade. “Quando a gente capitaliza, a gente se desafia mais em relação ao ROE, porque aumenta o capital e tem que dar mais retorno”, afirmou.
O Bradesco encerrou o segundo trimestre com ROE anualizado de 16,2%, ante 15,8% nos três primeiros meses do ano e 14,6% um ano antes. Noronha estimou que o custo de capital do banco esteja próximo de 14,5%, indicando que a rentabilidade já voltou a superar o retorno exigido pelos acionistas.
Apesar do aumento da base de capital, o CEO espera que o ROE continue crescendo. A administração também reafirmou o compromisso de elevar o lucro trimestre a trimestre, apoiada na transformação, nos ganhos de produtividade e na expansão das receitas.
O lucro recorrente alcançou R$ 7,05 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,2% em um ano e de 3,5% na comparação trimestral. Foi o décimo trimestre consecutivo de crescimento.
Para o conjunto de 2026, o banco espera que o lucro implícito nas cinco linhas de seu guidance fique entre o centro e a parte superior das projeções. As receitas de serviços devem terminar próximas do teto, enquanto as despesas operacionais são esperadas perto do piso das respectivas faixas.
Cenário de crédito fica mais desafiador

Noronha reconheceu que o mercado brasileiro de crédito enfrenta um ambiente mais difícil, que pode se prolongar até 2027. O comprometimento da renda das famílias aumentou, enquanto juros elevados por um período mais longo pressionam empresas com margens menores.
O banco, porém, argumenta que seu perfil de risco mudou. A participação do crédito pessoal na carteira de pessoas físicas caiu de pouco mais de 15% em 2023 para aproximadamente 12%, enquanto o crescimento passou a se concentrar em linhas com garantias e clientes de melhor classificação.
Dos R$ 37 bilhões de expansão da carteira de pequenas e médias empresas em 12 meses, R$ 31 bilhões vieram de operações garantidas pelos fundos FGI e FGO. O saldo dessas linhas se aproxima de R$ 80 bilhões.
Esses empréstimos possuem garantia pública, mas podem pressionar temporariamente a inadimplência e as provisões. Durante o intervalo entre o atraso do cliente e o pagamento da garantia pelo fundo, a operação pode migrar para os estágios 2 ou 3 e exigir provisão adicional.
Noronha disse que o custo de crédito poderá subir um pouco devido ao crescimento da carteira, às linhas FGI e FGO e a exposições rurais específicas. Ainda assim, o banco não espera novos estresses relevantes em 2026 além dos já incorporados às projeções.
A carteira de crédito ampliada encerrou junho em R$ 1,14 trilhão, crescimento de 11,6% em 12 meses, acima da faixa de 8,5% a 10,5% projetada para o ano. O Bradesco manteve o guidance e espera que a expansão convirja para o intervalo, inclusive com a distribuição de parte das operações de atacado no mercado secundário.
O aumento de capital, portanto, combina dois objetivos. De um lado, dá ao Bradesco recursos para avançar mais rapidamente na transformação e buscar crescimento. De outro, cria uma margem adicional de segurança para enfrentar um ciclo de crédito mais difícil sem comprometer a execução da estratégia ou a capacidade de remunerar os acionistas.













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