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Amazônia tem metade dos processos de minerais estratégicos, mas produção segue ligada ao ouro e ferro

Estudo da ANM revela potencial da Amazônia para minerais críticos, mas investimentos ainda se concentram em commodities tradicionais.

Por Brazil Stock Guide – A Amazônia Legal reúne quase metade dos processos minerários brasileiros relacionados a minerais críticos e estratégicos, consolidando sua posição como o principal polo mineral do país em um momento de crescente disputa global por insumos essenciais à transição energética, à indústria de alta tecnologia e ao setor de defesa.

O diagnóstico, elaborado pela Agência Nacional de Mineração (ANM), também revela, porém, um contraste importante: apesar do enorme potencial geológico, a produção e os investimentos continuam concentrados em commodities tradicionais, como minério de ferro, cobre, ouro e bauxita, enquanto minerais considerados estratégicos para a nova economia ainda recebem pouca atenção.

Segundo o levantamento, a Amazônia Legal concentrava, até outubro de 2025, 38.732 dos 80.427 processos minerários brasileiros envolvendo minerais classificados como críticos ou estratégicos, o equivalente a 48,2% do total nacional. Mais da metade desses processos está localizada no Pará, seguido por Mato Grosso e Rondônia.

Os números colocam a região no centro da estratégia mineral brasileira justamente quando Estados Unidos, União Europeia, China, Japão e Coreia do Sul disputam o acesso a matérias-primas consideradas essenciais para baterias, veículos elétricos, redes elétricas, semicondutores, fertilizantes, equipamentos militares e tecnologias de baixo carbono.

Mas o próprio estudo faz uma ressalva importante. O elevado número de processos não significa que todos estejam próximos da produção comercial. Aproximadamente 80% ainda se encontram em fases iniciais, como pedidos de pesquisa mineral, autorizações exploratórias ou requerimentos de lavra garimpeira. As concessões efetivas representam apenas uma pequena parcela do total, indicando que boa parte desse potencial ainda depende de licenciamento, investimentos, infraestrutura e viabilidade econômica antes de se transformar em minas em operação.

Outro dado chama atenção. O ouro responde sozinho por 67% dos processos minerários da Amazônia Legal. Estanho aparece com 10% e cobre com 7,3%. Já minerais frequentemente associados à nova economia – como terras raras, lítio, cobalto, níquel e potássio – ocupam espaço reduzido no conjunto dos requerimentos minerários.

Potência mineral, mas concentrada

Embora o debate internacional esteja voltado para minerais críticos utilizados em baterias e tecnologias limpas, a economia mineral amazônica continua fortemente sustentada pelos grandes projetos de minério de ferro, cobre, ouro e bauxita.

Em 2024, essas quatro substâncias responderam por mais de 90% do valor da produção mineral da região. O minério de ferro liderou com R$ 72,5 bilhões, seguido por cobre (R$ 17,4 bilhões), ouro (R$ 7,7 bilhões) e bauxita (R$ 5,3 bilhões).

A Amazônia Legal respondeu por 94% da produção brasileira de bauxita, 93,9% da de estanho e 76,2% da de cobre. O Pará, sozinho, produziu cerca de 70% do concentrado de cobre do país, 92,6% da bauxita e abriga a província mineral de Carajás, considerada uma das mais importantes do mundo.

Os números confirmam que a região já ocupa posição estratégica na mineração mundial. Ao mesmo tempo, evidenciam que o Brasil ainda não conseguiu transformar esse patrimônio geológico em uma cadeia diversificada de minerais críticos voltada às novas demandas da economia global.

Investimentos ainda olham para o passado

A maior contradição do estudo aparece na distribuição dos investimentos em pesquisa mineral.

Entre 2003 e 2024, as empresas aplicaram R$ 4,9 bilhões na pesquisa de minerais críticos e estratégicos na Amazônia Legal. Entretanto, apenas em 2024, o ouro absorveu 65,8% desses recursos e o cobre outros 19,1%. Somados, responderam por 85% dos investimentos em pesquisa mineral.

Enquanto isso, minerais considerados estratégicos para a transição energética receberam recursos modestos. As pesquisas em terras raras somaram apenas R$ 1,2 milhão. O lítio recebeu R$ 811 mil, o níquel R$ 801 mil, o cobalto R$ 48 mil e a grafita apenas R$ 25 mil.

Na prática, isso mostra que o capital privado continua priorizando depósitos conhecidos, infraestrutura existente e cadeias produtivas já consolidadas, em vez de apostar em minerais cujo mercado cresce rapidamente, mas ainda exige maior conhecimento geológico e segurança regulatória.

A ANM observa que houve alguma diversificação a partir de 2021, com aumento das pesquisas envolvendo estanho, tântalo, terras raras e lítio. Ainda assim, os valores permanecem reduzidos quando comparados aos destinados ao ouro e ao cobre.

R$ 40 bilhões em minas e usinas

Na etapa de produção, o volume de investimentos é significativamente maior.

Entre 2006 e 2024, foram investidos R$ 40,4 bilhões em minas e usinas de beneficiamento de minerais estratégicos na Amazônia Legal, excluindo o minério de ferro.

Somente em 2024, os investimentos alcançaram R$ 6,75 bilhões. O cobre recebeu 31,3% dos recursos, seguido por níquel (19,8%), bauxita (18,7%), ouro (17,2%) e manganês (11,3%). Juntos, esses cinco minerais concentraram praticamente todos os investimentos produtivos realizados no período.

O contraste ajuda a explicar por que a Amazônia permanece como uma grande produtora mineral, mas ainda distante de se tornar uma plataforma diversificada para minerais críticos.

Projetos podem mudar esse cenário

O estudo identifica uma carteira de projetos capazes de alterar o perfil mineral da região nos próximos anos.

Entre eles, o Projeto Potássio Autazes, no Amazonas, aparece como um dos mais estratégicos para o Brasil. A expectativa é produzir entre 2,2 milhões e 2,4 milhões de toneladas anuais de cloreto de potássio durante até três décadas.

O empreendimento ganhou relevância porque o Brasil importa aproximadamente 97% do potássio utilizado na fabricação de fertilizantes, tornando-se vulnerável a choques internacionais de oferta.

Também figuram no levantamento os projetos Tucumã, voltado ao cobre; Araguaia e Vermelho, no níquel; o programa Novo Carajás; empreendimentos de bauxita no Pará; o depósito de Luanga, rico em metais do grupo da platina; e o projeto aurífero Volta Grande.

A ANM ressalta, porém, que a existência de recursos minerais não garante sua exploração. Licenciamento ambiental, infraestrutura, financiamento, consulta às comunidades afetadas, segurança jurídica e condições de mercado continuarão determinando quais projetos efetivamente sairão do papel.

Royalties continuam concentrados

A concentração também aparece na arrecadação de royalties.

Em 2024, a Amazônia Legal recolheu R$ 3,17 bilhões em Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), equivalente a 47,3% de toda a arrecadação nacional relacionada a minerais críticos e estratégicos.

O minério de ferro respondeu sozinho por 79,5% desse total. O Pará concentrou 96% de toda a arrecadação regional, evidenciando a forte dependência fiscal de um número relativamente pequeno de grandes operações minerárias.

Para a ANM, uma futura política nacional deveria discutir mecanismos que permitam utilizar parte desses recursos para diversificar as economias locais e preparar municípios mineradores para o período posterior ao encerramento das atividades extrativas.

Superávit comercial expressivo

A mineração também desempenha papel central no comércio exterior brasileiro.

Em 2024, a Amazônia Legal exportou US$ 22,36 bilhões em minerais estratégicos e produtos relacionados, enquanto as importações totalizaram US$ 4,75 bilhões. O saldo comercial alcançou US$ 17,61 bilhões.

Apesar do desempenho robusto, o perfil das exportações continua concentrado em produtos minerais com baixo grau de processamento. O Brasil ainda participa de forma limitada das etapas mais sofisticadas das cadeias globais de valor, como refino, fabricação de materiais avançados, componentes para baterias, ímãs permanentes e outros produtos industriais de maior valor agregado.

O desafio vai além da geologia

O relatório dedica espaço significativo às questões ambientais e sociais que cercam a expansão da mineração na Amazônia.

Parte importante do potencial mineral está localizada em áreas próximas a terras indígenas ou unidades de conservação. Por isso, a ANM defende que qualquer política para minerais críticos seja acompanhada por planejamento territorial integrado, consulta prévia às comunidades afetadas, regras claras para o licenciamento ambiental e mecanismos de transparência na gestão dos royalties.

Também recomenda o fortalecimento da infraestrutura regional, investimentos em pesquisa e desenvolvimento, criação de polos industriais, recuperação ambiental das áreas mineradas e estímulos para agregar valor aos minerais dentro do próprio país.


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