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Uma potência mineral ainda inacabada

O crescimento da mineração reforça as contas externas do Brasil, mas expõe uma dependência persistente de commodities, da China e de cadeias produtivas pouco sofisticadas.

O setor mineral brasileiro faturou cerca de R$ 150 bilhões no primeiro semestre de 2026, uma alta de 8% sobre igual período do ano anterior. À primeira vista, é um retrato de expansão. Mas os mesmos números, compilados pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), mostram uma indústria cuja capacidade de gerar divisas cresce muito mais rapidamente do que sua contribuição para o emprego, a diversificação produtiva ou a agregação de valor.

Entre janeiro e maio, a mineração criou apenas 421 vagas diretas, elevando o estoque para 229.614 trabalhadores. Isso equivale a um aumento de menos de 0,2%, muito abaixo do avanço da receita. A distância entre os dois indicadores ajuda a explicar por que a mineração é tão relevante para as contas externas brasileiras, mas produz efeitos mais limitados sobre o mercado de trabalho do que o tamanho de seu faturamento poderia sugerir.

Parte dessa diferença decorre da natureza intensiva em capital da atividade. Mas o crescimento do semestre foi sobretudo uma história de preços: a queda de 3,1% na receita com minério de ferro foi compensada pelo avanço de outros produtos, como ouro e cobre. O setor ganhou mais com a valorização das commodities do que com uma expansão equivalente da produção.

A mesma dinâmica aparece no comércio exterior. As exportações minerais aumentaram 24,1% em dólares, para US$ 25,1 bilhões, mas cresceram apenas 2,4% em volume, para 196,2 milhões de toneladas. O salto de valor, portanto, veio muito mais da valorização das commodities do que de um novo ciclo de expansão física.

Isso não diminui a importância macroeconômica da mineração. Seu superávit comercial chegou a US$ 20,3 bilhões, o equivalente a 48% de todo o saldo positivo da balança brasileira no semestre. Poucos setores têm capacidade semelhante de gerar dólares, financiar importações e contribuir para a estabilidade externa e o desenvolvimento do país.

Mas essa força carrega uma vulnerabilidade. A China recebeu 70% das exportações minerais brasileiras em volume. A mineração ajuda a reduzir a dependência externa do Brasil ao gerar um enorme superávit, mas faz isso aprofundando sua própria dependência de um único mercado. Uma desaceleração mais forte da economia chinesa, especialmente nos setores de construção e infraestrutura, continuaria sendo um risco desproporcional para empresas, estados produtores e para a própria balança comercial.

Os planos de investimento oferecem uma oportunidade de mudar essa composição, mas ainda apontam mais para continuidade do que para ruptura. O Ibram estima US$ 76,9 bilhões em projetos entre 2026 e 2030, dos quais apenas 3,1% seriam destinados a terras raras. O discurso da transição energética já entrou no planejamento do setor, mas ainda não deslocou o centro de gravidade da mineração brasileira.

O Brasil não tem um problema de falta de recursos minerais. Também não lhe falta capacidade de exportá-los. O desafio é transformar essa vantagem geológica em cadeias produtivas mais sofisticadas, maior processamento doméstico, tecnologia, fornecedores locais e empregos qualificados. Enquanto isso não ocorrer, os ciclos favoráveis continuarão produzindo números impressionantes de faturamento e comércio exterior, sem necessariamente mudar, na mesma proporção, a estrutura econômica do país.


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