Meta Pixel

O problema do Sul é chegar ao El Niño

Rios elevados, reservatórios cheios e solos saturados deixam a região com pouca margem antes mesmo de o fenômeno climático atingir seu pico.

A temporada de El Niño ainda nem começou de fato. O Pacífico Equatorial continua aquecendo e os modelos climáticos convergem para um evento possivelmente forte entre a primavera e o verão. O consenso costuma levar a uma conclusão intuitiva: o pior ainda está por vir. Na semana passada, os principais órgãos federais apresentaram, na 1ª reunião extraordinária da Sala de Crise da Agência Nacional de Águas (ANA) na região Sul, uma leitura diferente. O maior risco talvez não seja a intensidade do próximo El Niño, mas o estado em que o Rio Grande do Sul chegará até ele. Essa é uma diferença sutil, mas economicamente relevante.

Nenhum dos órgãos técnicos — INMET, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil (SGB) ou Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) — atribui diretamente as enchentes de julho ao El Niño. O que mostram é uma combinação de fatores: um episódio extremo de chuva, rios ainda elevados, reservatórios praticamente recompostos e encostas fragilizadas. Ao mesmo tempo, os modelos apontam aumento da probabilidade de precipitações acima da média justamente nos meses em que o El Niño tende a ganhar intensidade.

Em outras palavras, a crise atual pode não ser consequência do El Niño. Mas pode reduzir significativamente a capacidade do Estado de enfrentá-lo. Esse conceito aparece repetidamente, ainda que de forma implícita, nas apresentações técnicas. O SGB mostra que a onda de cheia continuava avançando para os trechos mais baixos das bacias mesmo após a redução das chuvas. O Cemaden alerta que enchentes, enxurradas e deslizamentos fazem parte do mesmo processo físico e tendem a se retroalimentar quando o solo permanece saturado. O ONS, por sua vez, registra reservatórios recebendo afluências muito acima da média histórica, obrigando uma operação delicada para conciliar geração de energia e controle de cheias.

Há uma lógica econômica por trás desses dados. Desastres naturais raramente são resultado apenas da intensidade de um evento climático. Eles dependem da capacidade de absorção acumulada pelo sistema. Solos encharcados infiltram menos água. Rios elevados transbordam mais rapidamente. Reservatórios cheios oferecem menor flexibilidade operacional. Encostas marcadas por deslizamentos anteriores tornam-se mais suscetíveis a novos movimentos. Isso desafia a resiliência, que se esgota.

É justamente aí que o debate sobre o El Niño muda de natureza. Tradicionalmente, investidores associam o fenômeno a um benefício para o setor elétrico. Mais chuva significa maior geração hidrelétrica, reservatórios mais confortáveis e menor custo marginal de operação. Os dados do ONS confirmam essa leitura: em julho, as afluências chegaram a 257% da média histórica na bacia do Uruguai e a 224% no Iguaçu, enquanto os principais reservatórios recuperaram rapidamente seus níveis de armazenamento. Mas abundância hídrica e segurança hidrológica não são sinônimos. A mesma água que melhora as condições para geração elétrica também reduz a margem de manobra para administrar novas cheias. Reservatórios podem amortecer parte das vazões, mas não conseguem eliminar eventos extremos, especialmente em sistemas onde diversas usinas operam a fio d’água ou possuem capacidade limitada de armazenamento.

Essa talvez seja a principal mensagem da Sala de Crise. O foco já não deveria ser apenas prever quando o El Niño atingirá seu pico. A pergunta mais relevante é quanta resiliência restará ao Rio Grande do Sul quando isso acontecer.

Os documentos não respondem diretamente. Mas todos caminham na mesma direção: rios ainda elevados, infraestrutura submetida a sucessivos eventos extremos desde 2023, encostas mais vulneráveis e previsão de novas rodadas de chuva acima da média nos próximos meses.

O El Niño ainda está se formando. O sistema hidrológico do Rio Grande do Sul, porém, já opera com pouca margem para novos choques. Essa pode ser a variável mais importante — e também a mais subestimada — deste ciclo climático. As lições da grande enchente que assolou o Rio Grande do Sul parece não ter sido absorvida.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo