Há algo de estranho em um dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo quando decide garantir fornecimento de gás natural dos EUA até a década de 2040. A Petrobras acertou a compra de 800 mil toneladas anuais de gás natural liquefeito (GNL) da Sempra Infrastructure, produzido no projeto Port Arthur, no Texas. O contrato dura 20 anos.
O problema brasileiro nunca foi simplesmente encontrar gás. É conseguir tirá-lo do mar, levá-lo à costa, processá-lo, transportá-lo e vendê-lo a um preço capaz de criar demanda. Boa parte da produção do gás do pré-sal está associada ao petróleo e uma parcela relevante acaba reinjetada. Em outras palavras, a produção recorde não significa necessariamente oferta recorde no mercado.
É isso que torna o contrato americano revelador. Em vez de apostar que duas décadas de novos gasodutos, unidades de processamento e abertura do mercado resolverão completamente o problema, a Petrobras está comprando uma alternativa a milhares de quilômetros de distância. O GNL cruza o Golfo do México e desce o Atlântico para resolver uma deficiência que começa a poucos quilômetros da costa brasileira.
Há uma racionalidade econômica nisso. O sistema elétrico brasileiro precisa de gás de maneira irregular. Hidrelétricas, eólicas e solares produzem a maior parte da energia mas as térmicas são acionadas quando o sistema precisa de segurança. Construir infraestrutura doméstica para uma demanda que pode desaparecer durante meses é caro. GNL funciona como seguro: paga-se pela possibilidade de ter gás quando ele for necessário.
Mas seguro por 20 anos também é uma aposta. A Petrobras está assumindo hoje que o Brasil ainda precisará dessa flexibilidade na década de 2040, apesar do crescimento esperado da produção doméstica, de novas rotas de escoamento e da expansão das renováveis. É uma indicação pouco confortável sobre quanto a companhia acredita que o mercado brasileiro de gás conseguirá mudar.
Os detalhes comerciais podem tornar a operação mais interessante. Se o contrato for ligado ao Henry Hub e permitir flexibilidade de destino, Petrobras não estará simplesmente importando gás para o Brasil. Poderá redirecionar cargas quando o mercado doméstico não precisar delas e transformar Port Arthur numa fonte de GNL para sua própria carteira internacional. Nesse cenário, o que parece um contrato de abastecimento vira também uma opção de trading.
É justamente aí que estão as informações que Petrobras ainda não revelou: preço, fórmula de indexação, take-or-pay, responsabilidade pelo transporte e liberdade para revender as cargas. Sem esses números, não é possível saber se a companhia comprou um seguro barato ou assumiu uma obrigação cara por duas décadas.
O contrato também expõe uma ironia da abertura do mercado brasileiro de gás. O país segue tentando aumentar a competição, conectar novos produtores e reduzir o peso da Petrobras. Agora é a própria Petrobras que encontra nos Estados Unidos uma solução para a falta de flexibilidade que o mercado doméstico ainda não conseguiu entregar. Não há contradição geológica mas falta logística.
Depois de anos comemorando recordes de produção, o melhor retrato do mercado brasileiro talvez seja este: o gás americano pode chegar ao consumidor brasileiro com mais previsibilidade do que parte do gás que o próprio Brasil produz.












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