O Mercado Livre está vencendo a disputa pelo comércio eletrônico na América Latina. O desafio agora é transformar essa liderança em rentabilidade.
A gigante, conhecida como Mercado Libre fora do Brasil e listada na Nasdaq sob o código MELI, deve apresentar mais um trimestre de forte expansão. O valor total das mercadorias vendidas por suas plataformas deve crescer cerca de 42% em dólares, com avanço próximo de 38% no Brasil, em reais, segundo estimativas do BTG Pactual.
A rentabilidade, porém, deve caminhar na direção oposta. A margem operacional é projetada em 7,5% no segundo trimestre, uma queda de 4,6 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano passado. Em outras palavras, o Mercado Livre continua movimentando mais negócios, mas obtendo menos lucro operacional proporcionalmente.
Essa pressão é, em boa medida, resultado de uma escolha estratégica. O Mercado Livre planeja investir R$ 57 bilhões no Brasil em 2026, 50% mais do que no ano passado. A empresa pretende abrir 14 centros de distribuição, elevando sua estrutura no país para 42 unidades, e contratar 10 mil funcionários para as áreas de logística, tecnologia e serviços financeiros.
O aumento dos gastos pode ser necessário. A Amazon está ampliando sua capacidade de distribuição e os serviços de entrega rápida no país. Ao mesmo tempo, a Shopee, controlada pelo grupo de tecnologia Sea, de Singapura, continua investindo em logística e serviços financeiros. O Mercado Livre já não aplica recursos apenas para entrar em novos mercados ou conquistar clientes. Também precisa gastar para defender uma posição que já alcançou.
Empresas líderes, em tese, deveriam aproveitar a escala para tornar o crescimento mais barato. O Mercado Livre, no entanto, cresce no ritmo de um desafiante e investe como se sua liderança estivesse sob ameaça. Isso não significa que a estratégia esteja errada. Uma rede logística mais densa, o avanço da publicidade digital e a expansão do Mercado Pago podem, no futuro, permitir que o lucro cresça mais rapidamente do que a receita.
Os investidores, porém, continuam esperando por essa alavancagem operacional enquanto as projeções de lucro são revisadas para baixo. As ações do Mercado Livre são negociadas a cerca de 43 vezes o lucro estimado para 2026 e 32 vezes o projetado para 2027. São múltiplos que podem ser sustentados por um crescimento excepcional desde que os investimentos de hoje produzam margens maiores amanhã, e não apenas preservem participação de mercado.
A divulgação dos resultados do segundo trimestre está prevista para 5 de agosto. Mais importante do que outro número expressivo de vendas será a explicação dos executivos sobre quando os investimentos começarão a gerar retornos maiores. O Mercado Livre já demonstrou que consegue crescer mais do que seus concorrentes. O próximo teste será provar que a liderança pode gerar ganhos de escala e não uma conta que aumenta a cada ano.

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