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As últimas grandes lojas de departamento

Enquanto centenas de redes desaparecem, um pequeno grupo de lojas centenárias transforma consumo em experiência, turismo e espetáculo para continuar relevante na era da Amazon.

Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide

Quem passa hoje pelo primeiro andar da Harrods, em Knightsbridge, dá de cara com um canteiro de obras disfarçado de boutique. São painéis daquele mármore preto com veios dourados dividindo espaço com andaimes cobertos de veludo, e vendedoras circulando entre araras de Dior e placas de “em breve” escritas em fonte serifada.

A loja está no meio da reforma mais ambiciosa da sua história de quase 180 anos: um “Womenswear Masterplan” que já reformulou o andar de lingerie, expandiu salas para marcas como Schiaparelli, Fendi, Celine e Loro Piana, e agora inaugura as chamadas International Designer Rooms, assinadas pelo escritório David Collins Studio, com um desenho que promete conduzir o cliente da escada rolante direto até a vitrine da Dior sem que ele perceba que está sendo conduzido. Os materiais contam a história por si: mármore, granito negro, bronze, latão, um lustre com 900 peças de vidro soprado desenvolvido em parceria com o estúdio de Dale Chihuly.

Para a Harrods, todo esse esforço parece estar funcionando. Seu último balanço fechou com lucro de £84,9 milhões e faturamento de £1,08 bilhão, marcando uma reviravolta e tanto depois do prejuízo do ano anterior, ainda contaminado pelos custos ligados aos escândalos do antigo dono Mohamed Al-Fayed.

Quem circula por ali, num retrato rápido e sem crueldade, é uma mistura de turista asiático que chegou a Londres de mala vazia e pretende voltar já sabendo que pagará excesso de bagagem, de executiva de algum país do Golfo Pérsico comprando presente de aniversário que custa mais que um carro popular, e de um casal britânico de meia-idade, ali só para tomar chá na Georgian Restaurant e sentir que ainda vive no finado Império Britânico.

Escada de mármore da Harrods: ascensão da classe média industrial

Eventualmente, talvez haja algum jornalista brasileiro em viagem de trabalho, prestando mais atenção no entorno do que nos produtos, mas fingindo interesse por um cachecol de caxemira. Ninguém ali está exatamente “fazendo compras”. E mesmo aqueles que estão comprando desvairadamente parecem tratar os produtos como meros coadjuvantes.

A Harrods não está sozinha nesse exercício de sobrevivência em tempos de entrega da Amazon em 24 horas. Ela é a ponta mais vistosa de um pequeno clube de lojas de departamento centenárias que insistem em continuar de pé enquanto a categoria como um todo desaba ao redor. Selfridges, El Corte Inglés, Isetan, Galeries Lafayette, Le Bon Marché, Liberty London, cada uma delas escolheu uma estratégia diferente para não virar peça de museu.

A Galeries Lafayette investe pesado em cultura e sustentabilidade. Lançou o “Le Nouveau Cool”, evento de moda circular, e reformou lojas fora de Paris, como a de Lyon, com uma extensão de 9.200 m². O El Corte Inglés simplesmente decidiu deixar de ser só loja: hoje vende seguro, viagem, telecomunicações, e abriu supermercado gourmet onde antes havia hipermercado popular.

A estratégia da Lafayette e do El Corte Inglés passa pela expansão e diversificação. Mas há quem sustente uma tese oposta: as lojas mais resilientes do mundo, como Harrods, Liberty London e Le Bon Marché, nunca saíram de seu endereço original. Já a Barneys, por exemplo, chegou a ter 22 lojas e faliu em 2019. A tese é provocativa: segredo da sobrevivência seria reinvestir sem parar num único endereço, até ele quase virar sinônimo da cidade em que está.

Para entender por que essas lojas ainda mexem com o imaginário coletivo, vale voltar ao momento em que foram inventadas. “Loja de departamento” não é um formato que sempre existiu, é uma tecnologia social do século 19, tão disruptiva quanto o e-commerce foi para nós.

Em 1852, o casal Aristide e Marguerite Boucicaut transformou uma modesta loja de tecidos na esquina da Rue de Sèvres, em Paris, no Bon Marché. Foi ali que nasceu praticamente tudo que hoje achamos óbvio numa loja: preço fixo, direito de troca, entrega em domicílio, entrada livre sem obrigação de compra, liquidações sazonais. Antes disso, comprar era sinônimo de regatear, de discutir o preço, de se engajar com o vendedor.

Bon Marché, em Paris: modelo de loja em franca expansão do consumo em plena revolução industrial no século 19

O Bon Marché tinha 12 funcionários em 1852; em 1877, empregava quase 1.800 e faturava mais de 73 milhões de francos. A Harrods nasceu em 1849 como mercearia; a Selfridges, em 1909, trazida por um empresário americano que queria ensinar Londres a comprar “por prazer, não por necessidade”. Isetan surgiu no Japão em 1886, Galeries Lafayette, em 1894. Todas nasceram no fundo vendendo a mesma coisa: acesso. A classe média emergente da era industrial finalmente podia entrar num templo que antes era reservado à aristocracia, tocar a seda, se sentar na sala de leitura, tomar chá, e sair sem comprar nada, se quisesse.

O problema é que esse modelo grande, generalista, cheio de departamentos e dependente de fluxo de gente passando pelo prédio foi suplantado pela internet, que apresentou ao mundo um modelo de varejo melhor e mais barato. Nos Estados Unidos, o número de lojas de departamento caiu de 7.885 em 2015 para uma projeção de 4.678 em 2025 — contração de mais de 40% em uma década.

A IBISWorld estima o mercado americano do setor encolhendo a um ritmo composto de -0,3% ao ano, com receita batendo US$ 223 bilhões em 2026, mas em queda. Só neste ano, a consultoria Coresight projeta cerca de 7.900 fechamentos de lojas nos EUA (não lojas de departamento, para fica bem claro, e sim lojas físicas comuns). O UBS calcula que o país pode perder mais de 40 mil lojas físicas comuns na próxima década.

Saks, na Quinta Avenida, em Nova York: competição com o comércio eletrônico

A Hudson’s Bay, ícone canadense fundado em 1670 (sim, antes dos Estados Unidos existirem como país), liquidou tudo em 2025. A Saks Global, dona de Saks Fifth Avenue, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman, pediu recuperação judicial no início de 2026. A Macy’s fechará mais 150 lojas até o fim do plano de reestruturação, batizado de “Bold New Chapter”.

E no Brasil? Quem tem mais de 40 anos e é de São Paulo ou Rio, provavelmente se lembra do Mappin ou da Mesbla como sinônimo de Natal, de vitrine iluminada, de subir de elevador ouvindo o ascensorista anunciar cada andar. O Mappin nasceu em 1913, inspirado nas lojas britânicas. Tinha até chá das cinco servido em porcelana chinesa.

Mesbla e Mappin, com um ano de diferença, não chegaram ao século 21

A Mesbla, fundada em 1912, chegou a ter 180 lojas e 28 mil funcionários no auge dos anos 1980, sendo ponto de referência em dezenas de cidades. As duas quebraram juntas em 1999, depois de uma novela digna de minissérie: dívidas bilionárias, um empresário, Ricardo Mansur, que comprou ambas prometendo salvá-las e acabou naufragando com as duas junto. Curiosamente, a marca Mesbla ressuscitou em 2022 como marketplace de e-commerce.

Hoje, compramos online porque é rápido, barato e sem julgamento. E viajamos até Londres para pagar pelo direito de sermos julgados por um vendedor de terno bem cortado, nos avaliando de cima abaixo, do alto de uma escadaria de mármore. Pagamos fortunas para experimentar a ineficiência elegante de subir seis andares para comprar um perfume que dava para pedir pelo celular. Eu, que acabei comprando aquele cachecol de caxemira na Harrods, voltei para casa feliz, mas sabedor de que terei poucas chances de usá-lo nos trópicos.

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Uma resposta para “As últimas grandes lojas de departamento”

  1. […] o passeio pela Harrods (brazilstockguide.com/br/insights-br/harrods-lojas-de-departamento-futuro-varejo/ ), em Londres, um pote pequeno e discreto chama a atenção entre os expositores de La Mer e […]

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