By Brazil Stock Guide – A Azzas 2154 (B3: AZZA3) registrou lucro líquido recorrente de R$ 106,5 milhões no segundo trimestre de 2026, queda de 62,5% em relação ao mesmo período do ano passado, pressionada pela retração das vendas para franqueados e lojistas multimarcas e pela perda de alavancagem operacional.
O lucro líquido contábil caiu ainda mais, 94,5%, para R$ 29,8 milhões, ante R$ 537,7 milhões no segundo trimestre de 2025. A comparação reportada, porém, é distorcida por efeitos tributários e itens não recorrentes nos dois períodos. No critério ajustado da companhia, que procura refletir melhor o desempenho operacional, o lucro recuou de R$ 283,7 milhões para R$ 106,5 milhões.
O trimestre mostrou duas tendências distintas. A demanda do consumidor final permaneceu relativamente resiliente nas principais marcas, mas a redução dos pedidos de franqueados e multimarcas derrubou a receita e as margens. Ao mesmo tempo, a normalização dos estoques e do capital de giro permitiu à companhia mais que triplicar a geração de caixa operacional.
A receita bruta das marcas continuadas somou R$ 3,35 bilhões, queda de 7,1%. Incluindo as marcas descontinuadas, a receita bruta recuou 7,4%, enquanto a receita líquida caiu 8,2%, para R$ 2,66 bilhões.
Sell-in concentra a pressão
As vendas nos canais de sell-out — lojas próprias e comércio eletrônico, que refletem mais diretamente o consumo final — diminuíram 1,9%, para R$ 1,75 bilhão. Excluindo a unidade Basic, que reúne principalmente a Hering, o sell-out teria crescido 0,3%.
A receita das lojas próprias avançou 0,9%, enquanto o comércio eletrônico recuou 6,7%, refletindo, segundo a companhia, uma estratégia de menor dependência de promoções e maior foco em rentabilidade.
A principal pressão veio do sell-in, formado pelas vendas para franquias e lojas multimarcas. Esse canal caiu 13,6%, para R$ 1,12 bilhão. A receita de franquias recuou 16,4%, enquanto as vendas para multimarcas diminuíram 12%.
A Azzas atribuiu o desempenho à redução dos estoques dos franqueados, a diferenças no calendário de faturamento das coleções de verão em Shoes & Bags e a uma postura mais conservadora dos lojistas multimarcas diante das taxas de juros elevadas.
O problema é que os canais de sell-in possuem margens de contribuição mais altas. Assim, a retração mais forte nesses canais teve um efeito desproporcional sobre a rentabilidade consolidada.
Margem bruta sobe, mas despesas impedem avanço
O lucro bruto caiu 5,9%, para R$ 1,52 bilhão, mas a margem bruta aumentou 1,3 ponto percentual, para 57,2%. A melhora refletiu menor volume de produtos vendidos com desconto, uma combinação mais favorável de canais e maior disciplina promocional.
A recuperação da margem bruta, contudo, não foi suficiente para compensar a queda da receita e o aumento das despesas. Os gastos recorrentes, excluindo depreciação e amortização, cresceram 5,3%, para R$ 1,15 bilhão, e passaram a representar 43,3% da receita líquida, ante 37,7% um ano antes.
As despesas fixas avançaram 9,5%, influenciadas pela correção dos contratos de aluguel, pela abertura líquida de 21 lojas próprias nos últimos 12 meses e pela expansão da estrutura internacional da FARM Rio. As despesas variáveis aumentaram 3%, incluindo maiores provisões para devedores duvidosos no canal multimarcas.
Como resultado, o Ebitda recorrente caiu 29,1%, para R$ 379,6 milhões. A margem Ebitda recuou 4,3 pontos percentuais, de 18,5% para 14,2%. Antes dos efeitos do IFRS 16, o Ebitda recorrente diminuiu 32,6%, para R$ 311,1 milhões.
O Ebitda contábil foi ainda menor, de R$ 279,2 milhões, após R$ 100,4 milhões em ajustes. O principal deles foi uma provisão adicional de R$ 67,3 milhões para perdas com estoques antigos, após a companhia revisar suas regras de provisionamento. Também houve uma perda de R$ 11 milhões com recebíveis antigos de um cliente internacional de Shoes & Bags, além de despesas com desligamentos de executivos e com o plano de incentivo de longo prazo.
A despesa financeira líquida diminuiu 7%, para R$ 187,6 milhões, beneficiada pelo menor impacto da variação cambial. Os juros sobre financiamentos, isoladamente, cresceram 10,7%, para R$ 106,4 milhões.
Caixa é o principal destaque
A geração de caixa operacional atingiu R$ 356,5 milhões, ante R$ 106 milhões no segundo trimestre de 2025. O valor correspondeu a 115% do Ebitda recorrente antes do IFRS 16.
Depois dos investimentos, a companhia gerou R$ 280,1 milhões em caixa, comparados a apenas R$ 11,8 milhões um ano antes. O capex caiu 18,9%, para R$ 76,4 milhões.
A melhora veio principalmente do capital de giro. O ciclo financeiro caiu de 132 para 93 dias. Parte dessa redução decorreu das novas provisões para estoques e recebíveis. Excluindo esses efeitos, a melhora teria sido de 31 dias, ainda relevante.
A dívida líquida terminou junho em R$ 2,13 bilhões, redução de R$ 39,9 milhões frente ao primeiro trimestre. Mesmo assim, a alavancagem subiu de 1,40 para 1,52 vez o Ebitda recorrente dos últimos 12 meses, antes do IFRS 16, porque a queda do resultado operacional foi maior que a redução da dívida.
Hering avança no caixa, mas receita continua em queda
A unidade Basic, concentrada na Hering, permaneceu como o principal ponto de fragilidade comercial. A receita bruta caiu 12,1%, para R$ 559,5 milhões, enquanto o sell-out recuou 14,7%.
Apesar da queda das vendas, alguns indicadores do plano de recuperação melhoraram. A margem bruta da unidade subiu 1,2 ponto percentual, para 40,4%, e o estoque caiu de 214 para 149 dias.
A Hering gerou R$ 97 milhões em caixa depois dos investimentos no trimestre, revertendo um consumo de R$ 76 milhões um ano antes. No primeiro semestre, a geração alcançou R$ 166 milhões, comparada a um consumo de R$ 163 milhões no mesmo período de 2025.
A carteira de pedidos das coleções de verão cresceu 34% em relação ao ano anterior, sinal que poderá favorecer a recuperação do sell-in no segundo semestre. A companhia, entretanto, ainda precisa transformar os avanços no capital de giro em crescimento de receita e melhora consistente de rentabilidade.
Marcas principais mostram maior resiliência
Em Shoes & Bags, a receita caiu 12,4%, para R$ 966,5 milhões, afetada por uma retração de 21% no sell-in. Nas lojas próprias, porém, Arezzo e Schutz cresceram 12,3% e 7,7%, respectivamente. A operação internacional da unidade avançou 11,4% em dólares, embora tenha recuado 0,8% quando convertida para reais.
Fashion Women registrou receita de R$ 1,40 bilhão, queda de 2,8% sobre uma base de comparação elevada. O sell-out cresceu 1,5%, e a operação internacional da FARM Rio avançou 4,3% em dólares.
Fashion Men apresentou o desempenho mais estável, com queda de apenas 0,3% na receita. As vendas ao consumidor final cresceram 0,4%, apesar da redução de promoções e dos investimentos em mídia digital.
A leitura do trimestre, portanto, é menos negativa no consumo final do que os números consolidados de receita e lucro sugerem. Ainda assim, a contração do sell-in e o crescimento das despesas deixaram evidente a dificuldade da Azzas em converter a força de suas marcas em expansão de resultados.
A administração reconheceu a necessidade de avançar “na retomada do crescimento e, principalmente, na recuperação da rentabilidade”. Para o segundo semestre, o principal teste será saber se a normalização dos estoques permitirá a recuperação dos pedidos de franqueados e multimarcas sem que a companhia volte a depender de descontos ou sacrifique a melhora recente na geração de caixa.













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