By Brazil Stock Guide – A Alliança Saúde e Participações (B3: AALR3) protocolou nesta quarta-feira, 5, o pedido de homologação de seu plano de recuperação extrajudicial, que abrange aproximadamente R$ 1,1 bilhão em créditos contra a companhia e suas principais subsidiárias.
O plano chegou à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo com a adesão de mais de 83 credores, entre instituições financeiras, fornecedores, prestadores de serviços e locadores de imóveis e equipamentos.
Os signatários representam aproximadamente 54% dos créditos abrangidos. Segundo a Alliança, o percentual atende ao quórum legal necessário para que o plano seja submetido à homologação judicial.
O elemento central da reestruturação é a conversão de dívida em capital. Mais de 92% do valor pertencente aos credores que já aderiram optou por receber ações da Alliança em troca da quitação dos créditos.
Aplicados à base divulgada pela companhia, os percentuais indicam que algo próximo de R$ 550 milhões pode estar atualmente direcionado à capitalização. O montante é uma aproximação e poderá mudar à medida que outros credores aderirem ou formalizarem suas escolhas.
A operação deve reduzir a alavancagem, fortalecer o patrimônio líquido e preservar caixa. Em contrapartida, poderá provocar uma diluição relevante dos atuais acionistas.
O fato relevante não informa o preço de conversão, a quantidade de novas ações nem a participação que os credores poderão deter depois do aumento de capital. Sem esses dados, ainda não é possível medir o tamanho da diluição.
Entre os aderentes estão médicos fundadores da companhia, com destaque para a AFIP – Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa, que escolheu converter seus créditos e retornar à base acionária da Alliança.
A companhia atribuiu significado estratégico à decisão. Os médicos estão entre os principais grupos envolvidos na operação e sua reaproximação é considerada importante para a qualidade dos serviços e a estabilização do negócio.
Como funcionará o plano
A primeira alternativa oferece a conversão integral dos créditos em ações da Alliança, com a consequente quitação da dívida.
Na segunda, o credor receberá apenas 30% do valor devido, em 11 parcelas anuais, depois de uma carência de 12 meses. Os pagamentos serão corrigidos pela TR acrescida de 2% ao ano, enquanto os 70% restantes serão perdoados.
Uma terceira opção prevê pagamento único de até R$ 15 mil por credor, no prazo de 180 dias após a homologação, em troca da quitação integral do crédito, inclusive de eventual saldo superior ao limite.
Fornecedores de bens, equipamentos, serviços ou tecnologia considerados estratégicos poderão receber em 60 parcelas mensais, corrigidas pelo IPCA, após seis meses de carência, desde que concordem em preservar a relação comercial com a Alliança.
Os locadores de imóveis terão seus créditos pagos em cinco parcelas mensais, com a primeira vencendo em até 30 dias depois da adesão.
A estrutura deixa clara a lógica financeira do plano: converter a maior parcela possível da dívida em patrimônio, impor um desconto elevado aos credores que preferirem dinheiro e conceder condições mais favoráveis aos parceiros necessários para a continuidade das operações.
Crise de caixa precedeu o pedido
A recuperação extrajudicial transforma em um plano formal a negociação iniciada em março, quando a Alliança obteve proteção cautelar contra execuções e medidas capazes de interromper contratos e serviços considerados essenciais.
Na ocasião, a companhia informou ter aproximadamente R$ 1,3 bilhão em obrigações distribuídas entre 449 credores. O plano agora apresentado abrange R$ 1,1 bilhão em créditos sujeitos à recuperação, o que indica que nem todo o passivo identificado anteriormente será renegociado sob as mesmas condições.
A crise de liquidez se tornou mais aguda depois que empresas do ecossistema Siemens declararam o vencimento antecipado de um financiamento de aproximadamente US$ 10 milhões e retiveram recebíveis depositados em uma conta vinculada.
A Siemens alegou mudança de controle e descumprimento de obrigações não financeiras. A Alliança afirmou que não havia parcelas em atraso e contestou a validade das medidas. Segundo a companhia, a retenção de recursos afetou os pagamentos a fornecedores e ao corpo clínico.
A disputa, porém, atingiu uma empresa que já enfrentava dívida cara, vencimentos concentrados e dificuldades para converter receita em caixa.
O balanço de 2025, divulgado com quase sete meses de atraso, mostrou prejuízo líquido de R$ 1,37 bilhão e R$ 1,28 bilhão em perdas, provisões e baixas contábeis. O capital de giro líquido passou de R$ 28 milhões positivos para R$ 1,29 bilhão negativos em um ano.
Grande parte das perdas não representou saída imediata de caixa, mas a revisão expôs a fragilidade financeira herdada pela nova administração.
Mudança de controle
O controle da Alliança passou em março para o Tessai, fundo gerido pela Geribá Investimentos, após a execução de garantias sobre ações anteriormente vinculadas ao empresário Nelson Tanure.
A nova administração iniciou uma revisão de ativos, recebíveis, controles internos e processos de cobrança, além de adotar uma estratégia mais concentrada em rentabilidade e geração de caixa.
A Alliança é uma das maiores empresas brasileiras de medicina diagnóstica, com 91 unidades em 42 cidades. Atua em exames de imagem, análises clínicas e serviços para hospitais.
O pedido de homologação foi aprovado por unanimidade pelo conselho de administração e ainda será submetido à ratificação de uma assembleia de acionistas. As negociações com outros credores continuarão antes e depois da decisão judicial.
O plano também autoriza a captação de novos recursos para reforçar o caixa, cumprir os pagamentos previstos e reorganizar a estrutura de capital.
A Alliança afirmou que a recuperação possui escopo exclusivamente financeiro e não abrange obrigações com pacientes, funcionários, operadoras de planos de saúde, seguradoras ou cooperativas médicas.













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