Amador Aguiar morreu há 35 anos, mas seu legado ainda vota com dinheiro no Bradesco. As holdings Cidade de Deus e NCF e a Fundação Bradesco, pilares da estrutura de controle ligada ao fundador, comprometeram-se a investir até R$ 8 bilhões no aumento de capital. O valor garante 80% da oferta de até R$ 10 bilhões, embora o grupo controlador detenha 37% do capital total. Não é um gesto simbólico, mas uma aposta bilionária na recuperação do banco.
A transformação respaldada pelos controladores começou no fim de 2023 e deve durar cerca de cinco anos. O Bradesco reduziu níveis hierárquicos e sua estrutura física, reorganizou o crédito, refez a segmentação comercial e ampliou os investimentos em tecnologia, dados e inteligência artificial. O objetivo é crescer dentro da própria base de clientes, com menor custo e sem repetir a expansão que elevou a inadimplência. No primeiro trimestre de 2026, o lucro recorrente avançou 16,1%, para R$ 6,8 bilhões, no nono trimestre consecutivo de melhora gradual.
Parte dessa recuperação já foi reconhecida pelo mercado. As ações acumulam alta de aproximadamente 17% em 12 meses e 48% em dois anos. Mais recentemente, porém, o movimento perdeu força: o papel recua 13,7% em seis meses e está praticamente estável em 2026, com ganho de 0,9%. Nem mesmo a separação da BradSaúde, que transformou operações contabilizadas por cerca de R$ 14 bilhões em uma empresa avaliada em quase R$ 45 bilhões, sustentou o impulso. Os controladores não apostam contra um mercado inteiramente pessimista, mas consideram que a transformação ainda não está plenamente refletida no preço.
Todo voto de confiança, porém, contém uma pergunta. Se o Bradesco vinha afirmando que seu capital era confortável, por que levantar até R$ 10 bilhões agora? A resposta está menos no tamanho do patrimônio do que em sua qualidade. Pelas contas do BTG Pactual, apenas R$ 28 bilhões, ou 16% dos R$ 173,5 bilhões de patrimônio líquido, seriam efetivamente tangíveis. O banco não enfrenta uma crise de solvência, mas a oferta deverá elevar seu índice de capital principal, o CET1, de aproximadamente 12,7% para 13,6%, criando proteção contra juros elevados, inadimplência crescente e um ambiente eleitoral potencialmente volátil.
A engenharia da operação reduz o desembolso adicional dos acionistas. O Bradesco antecipará R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio e permitirá que esses recursos sejam utilizados na subscrição. Na prática, parte dos proventos poderá retornar ao banco como capital permanente. O acionista minoritário terá de escolher entre acompanhar a aposta do grupo controlador ou aceitar uma diluição que pode chegar a aproximadamente 3,4%.
O Safra estima que o novo capital poderá adicionar cerca de R$ 900 milhões à capacidade futura de pagamento de juros sobre capital próprio e gerar benefício tributário próximo de R$ 400 milhões. Isso poderá tornar praticamente neutro o impacto sobre o lucro por ação em 2027. Neutro, entretanto, não significa criador de valor. A oferta reduz o risco do banco, mas amplia o patrimônio que precisa ser remunerado. Se os lucros não crescerem na mesma proporção, o retorno sobre o capital será pressionado.
O grupo controlador colocou dinheiro real por trás de sua confiança na transformação. Agora, a responsabilidade passa para o comando executivo. O reforço patrimonial oferece segurança e capacidade para modernizar o Bradesco, mas eleva a cobrança por crescimento, eficiência e disciplina no crédito. O voto foi dado pelo legado de Amador Aguiar; falta provar que os R$ 10 bilhões adicionais produzirão retorno acima de seu custo.













Deixe um comentário