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A indústria de fundos muda, mas segue concentrada

Gestoras independentes avançam sobre os bancos, mas os dez maiores grupos ainda controlam mais de dois terços dos recursos.

A indústria brasileira de gestão de recursos passou por uma transformação significativa nesta década sem que isso tenha resultado em uma desconcentração relevante do mercado. As gestoras independentes e plataformas de investimento ampliaram sua participação no patrimônio sob gestão de 32,2%, em 2019, para 41% em agosto de 2026, enquanto as gestoras ligadas a bancos recuaram de 65,5% para 57,8%, segundo levantamento da XP com dados da Anbima. Apesar disso, as dez maiores gestoras continuam controlando 68% dos recursos da amostra analisada, praticamente o mesmo percentual de sete anos atrás. O mercado diversificou seus participantes e produtos, mas o poder econômico permanece concentrado.

Os juros elevados aceleraram essa transformação. Com a Selic chegando a 15% em 2025, os investidores passaram a encontrar na renda fixa retornos atraentes, reduzindo o incentivo para assumir a volatilidade de fundos de ações e multimercados. As gestoras independentes responderam ampliando sua atuação em crédito privado e fundos estruturados. A participação desses veículos – incluindo fundos de recebíveis, participações, imobiliários e do agronegócio- passou de 22% para 34% do patrimônio administrado por independentes e plataformas entre 2019 e agosto de 2026, alcançando R$ 1,43 trilhão, quase quatro vezes o volume inicial. No mesmo período, a participação dos multimercados nesse segmento caiu de 35% para 21%.

Mas os juros não explicam tudo. A expansão das plataformas de investimento enfraqueceu o controle tradicional dos bancos sobre a distribuição de fundos, permitindo que gestoras independentes alcançassem investidores antes atendidos predominantemente pelas redes bancárias. Ao mesmo tempo, o crescimento do crédito privado abriu oportunidades para empresas especializadas na originação de operações, avaliação de garantias e estruturação de financiamentos fora dos balanços dos bancos. Os fundos de índice, ou ETFs, representam outra força estrutural: seu patrimônio cresceu 228% entre dezembro de 2022 e agosto de 2026. Essas mudanças estão alterando a economia do setor, valorizando escala, capacidade de distribuição e especialização, em vez da dependência exclusiva da gestão ativa tradicional.

A questão é quanto dessa transformação sobreviverá à queda dos juros. Uma Selic mais baixa poderá devolver atratividade aos fundos de ações e multimercados, revertendo parte da atual distribuição dos investimentos. Mas dificilmente provocará um retorno à configuração anterior da indústria. Redes de distribuição, novos produtos e estruturas de originação de crédito desenvolvidos ao longo dos últimos anos não desaparecerão com uma mudança na política monetária. Isso não significa, porém, que o novo modelo esteja livre de riscos. Fundos estruturados podem expor investidores a problemas de liquidez, inadimplência e dificuldades de avaliação dos ativos, especialmente em períodos de deterioração econômica. O verdadeiro teste para parte dessa indústria poderá ocorrer não durante a fase de juros elevados, mas quando as condições de crédito se tornarem menos favoráveis.

O patrimônio da indústria brasileira de fundos alcançou R$ 11,53 trilhões em setembro de 2026, crescimento nominal de aproximadamente 67% desde o fim de 2021, mas o tamanho do mercado diz pouco, isoladamente, sobre sua competitividade ou resistência a crises. A próxima etapa mostrará se os novos modelos de negócios conseguem entregar retornos sustentáveis, depois dos custos, e resistir a um ciclo de crédito menos favorável. Com a escala e inovação, resta saber se mudou, de fato, a distribuição do poder.


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