By Brazil Stock Guide – A Raízen (B3: RAIZ4) espera que as margens de distribuição de combustíveis recuem em relação ao nível excepcional registrado no primeiro trimestre da safra 2026/27, à medida que desaparece o benefício proporcionado pela volatilidade geopolítica. A companhia, contudo, acredita que avanços regulatórios e ganhos internos de eficiência permitirão sustentar uma rentabilidade superior à do ano anterior.
O desempenho da distribuição de combustíveis no Brasil mais do que compensou a deterioração do negócio de açúcar, etanol e bioenergia, levando o EBITDA consolidado a crescer na comparação anual. A Raízen ainda registrou prejuízo, pressionada pelo aumento das despesas financeiras e por efeitos contábeis sem impacto em caixa relacionados à venda da operação argentina.
Segundo o CEO Nelson Gomes, a melhora das margens de combustíveis teve três componentes. O primeiro foi a volatilidade causada pelas tensões geopolíticas e pelas dificuldades de suprimento, considerada temporária. O segundo foi o avanço do combate às fraudes e à sonegação no mercado brasileiro. O terceiro veio da redução de custos, da diminuição dos estoques e de uma estratégia comercial mais concentrada em produtos e clientes de maior valor.
“Não vejo que para frente a gente vai ter a repetição das margens que tivemos nesse trimestre”, afirmou Gomes durante a teleconferência de resultados. “Elas serão melhores que as margens do ano passado, mas não vamos ver a recorrência desses efeitos do cenário geopolítico.”
A mudança já começou a ser percebida em julho, segundo o executivo. Em contrapartida, medidas adotadas pelo governo federal, por governos estaduais e pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) para combater o mercado irregular vêm ajudando as distribuidoras formais a recuperar volumes e margens perdidos nos últimos anos.
A Raízen aumentou as vendas tanto no ciclo Otto quanto no diesel e voltou a expandir sua rede de postos após um período de estabilidade. A companhia também acelerou algumas renovações de contratos e registrou recuperação nas vendas dos combustíveis premium Shell V-Power.
O CAPEX da distribuição caiu 22% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas a administração negou que esteja adiando renovações ou comprometendo o crescimento da rede. Segundo Gomes, a redução reflete uma nova divisão dos incentivos concedidos aos revendedores, com menor concentração de desembolsos na assinatura dos contratos e maior distribuição dos investimentos ao longo de sua duração.
Etanol acelera conversão em caixa
No negócio de açúcar, etanol e bioenergia, a Raízen adotou um mix mais voltado ao etanol no início da safra. Além das condições climáticas e operacionais, a decisão refletiu a necessidade de acelerar a conversão da produção em caixa.
“O açúcar demora um pouco mais para se transformar em caixa do que o etanol”, disse Gomes. A companhia avalia semanalmente o mix de produção e começou a direcionar uma parcela maior da cana para o açúcar, mas ainda não tomou uma decisão de carregar estoques esperando preços mais elevados.
A unidade começou a safra com 24 usinas, ante 29 no ano anterior, após os desinvestimentos realizados pela companhia. Chuvas acima do normal provocaram interrupções na colheita, enquanto a moagem se concentrou inicialmente em áreas com canaviais menos maduros.
A produtividade agrícola e o teor de açúcar da cana ficaram abaixo do esperado. A administração acredita que parte da perda possa ser recuperada conforme a colheita avance para áreas mais produtivas, mas reconheceu que o menor volume processado reduz a diluição dos custos fixos.
O custo caixa unitário caiu 9% no trimestre, beneficiado pela redução do preço da cana adquirida de fornecedores e por iniciativas de eficiência agrícola e industrial. A própria Raízen, porém, advertiu que o primeiro trimestre não é uma base adequada para projetar o custo de toda a safra.
Caixa melhora, mas juros continuam pressionando
O fluxo de caixa operacional alcançou R$ 3,6 bilhões no trimestre, impulsionado principalmente pela redução dos estoques e por uma gestão mais eficiente das contas a receber. A linha de fornecedores, contudo, permaneceu pressionada pelo ambiente de crédito mais restritivo e pela estrutura de capital da companhia.
O CAPEX consolidado recuou 11%, refletindo uma alocação mais seletiva de recursos. A Raízen afirmou que continuará priorizando a manutenção dos canaviais, a eficiência industrial e a expansão do negócio de combustíveis.
A melhora do caixa ainda não eliminou o principal risco financeiro. Os juros continuam sendo reconhecidos nos resultados, enquanto a redução do endividamento e da alavancagem no trimestre foi parcialmente explicada pela reclassificação da dívida da operação argentina como atividade descontinuada.
A Raízen obteve em 30 de julho a homologação de seu plano de recuperação extrajudicial. A companhia agora trabalha no cumprimento das condições precedentes, com expectativa de concluir essa etapa até março de 2027 e realizar a segregação dos negócios de combustíveis e de açúcar e etanol até dezembro de 2027.
A administração ainda não definiu publicamente como a dívida será dividida entre as duas futuras empresas. Segundo a companhia, o objetivo é concluir o processo com a menor alavancagem e o menor custo financeiro possível para ambos os negócios.
Outro ponto de atenção são os créditos de PIS/Cofins. A Raízen informou ter utilizado uma parcela desses créditos na transação envolvendo a Argentina, mas não quantificou quanto está protegido por decisões judiciais definitivas nem esclareceu o tamanho de um eventual risco residual.
O trimestre mostra uma operação de combustíveis mais eficiente e uma companhia mais disciplinada na gestão de caixa. A recuperação financeira, porém, continuará dependendo da normalização das margens, da produtividade agrícola, do custo dos juros e, principalmente, da capacidade da Raízen de separar os dois negócios com estruturas de capital sustentáveis.













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