Brazil Stock Guide — O Bradesco não vê, até o momento, atratividade suficiente para participar de forma relevante do Desenrola Brasil 3.0, programa do governo federal que prevê a compra de carteiras de dívidas inadimplentes com descontos de pelo menos 90%. A avaliação foi feita nesta sexta-feira (23) pelo presidente do banco, Marcelo Noronha, durante teleconferência sobre os resultados do terceiro trimestre de 2026, marcada também pela cautela do executivo diante de perguntas sobre a eleição presidencial, cujo segundo turno será realizado no domingo (25).
“A gente sempre olha para todos os programas, o pessoal está analisando aqui, mas até agora a equipe não viu mérito para ter um engajamento alto nisso aqui”, afirmou Noronha, ao responder a uma pergunta sobre o leilão de dívidas preparado pelo Ministério da Fazenda.
Segundo o executivo, o programa não está entre as prioridades do Bradesco. Ele observou que existem alternativas de mercado para lidar com carteiras inadimplentes e acrescentou que o banco sequer tem realizado vendas relevantes desse tipo de ativo recentemente. A declaração não representa uma decisão definitiva de ficar fora do Desenrola, mas sinaliza pouco entusiasmo com as condições oferecidas pelo governo.
A manifestação ocorre um dia depois de o Ministério da Fazenda publicar o edital de chamamento de instituições financeiras interessadas em vender dívidas à União. Os credores têm até 30 de outubro para apresentar suas carteiras. O governo estima receber ofertas de até R$ 90 bilhões em créditos inadimplentes, que poderão ser adquiridos com descontos mínimos de 90%.
O Desenrola 3.0 foi criado em setembro por medida provisória do governo Lula e busca permitir que consumidores renegociem dívidas antigas após sua aquisição pela União. O leilão está previsto para novembro, com possibilidade de adiamento para dezembro. O volume efetivamente adquirido dependerá da adesão dos credores e das condições apresentadas.
Cautela diante das eleições
A dois dias da votação que decidirá a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), Noronha evitou manifestar preferência política ou avaliar propostas dos candidatos.
Questionado especificamente sobre a promessa de Flávio Bolsonaro de congelar dívidas de pessoas físicas por seis meses e de empresas por um ano, o presidente do Bradesco preferiu não entrar no mérito da proposta. “Eu prefiro não comentar aspectos de campanha eleitoral, até para a gente estar aqui, depois de alguém dizendo que estou fazendo campanha para A ou para B”, afirmou.
Em outra pergunta, sobre a possibilidade de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro provocar uma redução das taxas de juros e melhorar as perspectivas econômicas, Noronha voltou a evitar considerações eleitorais.
Segundo ele, a estratégia do Bradesco está definida e será mantida independentemente do cenário político. O banco poderá ajustar suas decisões operacionais às condições macroeconômicas, mas não pretende alterar sua orientação estratégica em função do resultado da eleição.
Inadimplência deve continuar pressionada
Apesar da cautela nas questões políticas, Noronha foi mais explícito sobre as dificuldades econômicas que o banco espera enfrentar em 2027. Segundo o executivo, o elevado comprometimento da renda das famílias e a desaceleração da economia devem manter pressão sobre a inadimplência e o custo do crédito no próximo ano.
O presidente do Bradesco citou projeções de crescimento do PIB próximas de 1% para 2027 e afirmou que ainda não identifica sinais claros de uma recuperação capaz de aliviar rapidamente a situação financeira das famílias. Para enfrentar esse ambiente, o banco continuará privilegiando linhas com garantias, como crédito consignado, financiamento imobiliário e operações respaldadas por fundos garantidores.
A estratégia também envolve reduzir a exposição a modalidades consideradas mais arriscadas, especialmente crédito pessoal sem garantia e crédito rotativo do cartão. O Bradesco informou que sua carteira de crédito cresceu 11,1% em 12 meses, com expansão mais concentrada em empresas do que em pessoas físicas.
Noronha ressaltou que o banco não pretende abandonar sua trajetória de crescimento, mas reconheceu que as condições macroeconômicas exigem cautela. O Bradesco encerrou o terceiro trimestre com lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões, alta de 14,6% em relação ao mesmo período de 2025, e retorno sobre o patrimônio líquido de 16,1%.
Ao longo da teleconferência, Noronha repetiu que o Bradesco não está imune às dificuldades da economia brasileira, independentemente do resultado das eleições. “Bradesco é Brasil, a gente está aqui trabalhando. Se a economia desacelera, a gente tem que lidar com isso e continuar ganhando dinheiro”, afirmou.
Segundo o executivo, o banco seguirá sua estratégia de crescimento e controle de riscos, adaptando-se às condições macroeconômicas. “A gente obviamente não está fora do mercado brasileiro, a gente está aqui dentro”, reforçou.













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