By Brazil Stock Guide — As ações da Oncoclínicas (B3: ONCO3) quase dobraram de valor em uma semana, acompanhadas por uma explosão no volume de negócios e pela volta ao radar de uma disputa societária cujo valor potencial já foi estimado em cerca de R$ 6 bilhões – várias vezes o atual valor de mercado da companhia.
ONCO3 fechou em R$ 0,56 em 11 de agosto e terminou esta terça-feira, 18, em R$ 1,10, uma valorização de 96,4% em sete dias. Apenas nos dois últimos pregões, o papel avançou cerca de 43%.
A magnitude dos percentuais, porém, precisa ser vista também à luz do ponto de partida. A Oncoclínicas havia se transformado em uma ação cotada a centavos depois de uma longa queda, o que amplifica fortemente as variações percentuais. A R$ 0,56, por exemplo, uma oscilação de apenas R$ 0,01 equivalia a quase 1,8% do preço da ação.
Mesmo depois de praticamente dobrar em uma semana e fechar a R$ 1,10, ONCO3 permanecia cerca de 77% abaixo da máxima de R$ 4,89 registrada nas últimas 52 semanas. Parte da disparada do papel, portanto, decorre de uma base extremamente deprimida.
A quantidade de ações negociadas aumentou fortemente junto com a valorização. Nesta semana, 44,8 milhões de ações foram negociadas na segunda-feira e 46,6 milhões na terça-feira, contra cerca de 10 milhões por sessão entre 20 de julho e 11 de agosto. O volume médio recente, portanto, ficou perto de quatro vezes o observado no período imediatamente anterior.
A cronologia, porém, recomenda cautela antes de atribuir toda a disparada à disputa pela oferta pública de aquisição de ações. Há expectativa de que o colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) julgue a OPA da Oncoclinicas na semana que vem.
O Globo informou que a autarquia deverá analisar no dia 25 de agosto o recurso que discute se a Centaurus Capital deve ser obrigada a realizar uma OPA aos demais acionistas da Oncoclínicas. A data, contudo, ainda não aparece na prévia oficial das reuniões do Colegiado da CVM, o que costuma ser feito poucos dias antes de cada encontro.
Um balanço que dificilmente explica sozinho a alta
O tamanho da valorização chama ainda mais atenção porque os fundamentos divulgados na sexta-feira pela Oncoclínicas não mostram uma recuperação equivalente. O BTG Pactual classificou o segundo trimestre como mais um período “muito fraco” para a empresa. Mas o relatório não menciona a disputa pela OPA.
A receita líquida da Oncoclínicas caiu 29% em relação ao ano anterior, para R$ 1,05 bilhão. O Ebitda contábil ficou negativo em R$ 246 milhões, ante R$ 116 milhões positivos no mesmo período de 2025, enquanto o prejuízo líquido chegou a R$ 476 milhões.
A dívida líquida, incluindo compromissos relacionados a aquisições, terminou o trimestre em R$ 3,40 bilhões. A alavancagem chegou a aproximadamente 7,9 vezes a dívida líquida sobre o Ebitda ajustado dos últimos 12 meses, contra 5,2 vezes no primeiro trimestre. O principal ponto positivo do resultado foi a geração de R$ 158 milhões de fluxo de caixa operacional, depois de um consumo de R$ 153 milhões no primeiro trimestre.
Mas o próprio BTG relativiza essa melhora.
Segundo o banco, a geração de caixa foi ajudada pela renegociação dos prazos de pagamento com o maior fornecedor da Oncoclínicas, pela normalização dos recebíveis e pelo standstill negociado com credores, que suspendeu pagamentos de juros durante o período.
O componente OPA
É nesse contexto que a disputa societária ganha importância para explicar pelo menos parte da nova dinâmica de ONCO3. A discussão envolve uma cláusula de poison pill do estatuto da Oncoclínicas que prevê uma OPA caso um investidor ultrapasse o limite de 15% do capital da companhia.
Acionistas liderados pela Latache e que contestam a reorganização societária argumentam que a Centaurus Capital surgiu como um novo acionista direto da Oncoclínicas com uma participação suficiente para disparar a obrigação de realizar a oferta.
A Centaurus e o Goldman Sachs sustentam que a gestora já possuía exposição indireta à companhia desde antes do IPO e que a reorganização apenas transformou em participação direta uma posição econômica que já existia.
A área técnica da CVM aceitou essa interpretação e manteve na última sexta-feira o entendimento de que a OPA não deveria ser exigida. O recurso agora será analisado pelo Colegiado da autarquia.
É justamente aí que surge a assimetria. O valor potencial da disputa pela OPA já foi estimado em cerca de R$ 6 bilhões. Esse dinheiro, importante ressaltar, não entraria no caixa da Oncoclínicas nem resolveria diretamente sua reestruturação financeira. Caso a obrigação de OPA seja reconhecida e uma oferta venha efetivamente a ser realizada, os recursos seriam destinados aos acionistas que aderissem à operação.
Para ONCO3, o efeito é outro. Com cerca de 651,8 milhões de ações emitidas, o fechamento de R$ 1,10 implica um valor de mercado de aproximadamente R$ 717 milhões. A estimativa de R$ 6 bilhões associada à disputa equivale, portanto, a mais de oito vezes o atual valor de mercado da companhia.
A possibilidade de uma oferta a um preço muito superior à cotação transforma ONCO3, em alguma medida, em uma aposta sobre um evento regulatório. A publicação da pauta oficial do Colegiado – e a confirmação de que o recurso será de fato analisado no dia 25 – será agora o próximo teste dessa tese.













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