By Brazil Stock Guide — A Braskem Idesa, subsidiária mexicana da Braskem, entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos com um acordo para cortar mais de US$ 920 milhões de sua dívida e receber uma contribuição total de US$ 476 milhões da controladora brasileira, que também negocia com credores uma solução para seu próprio endividamento.
O acordo reduzirá a dívida sênior da companhia de cerca de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão, uma queda de aproximadamente 36%. A Braskem Idesa espera concluir o processo em 60 a 90 dias e manter suas operações normalmente durante a reestruturação.
O caso acrescenta uma nova camada à crise financeira da Braskem. A petroquímica brasileira, que controla 75% da operação mexicana, está em discussões para uma possível recuperação extrajudicial no Brasil, em um processo que pode envolver mais de US$ 10 bilhões em dívida. A companhia também se aproxima do fim, em 24 de agosto, de uma proteção judicial obtida contra credores.
A Braskem Idesa tenta, portanto, resolver seu balanço antes que a própria controladora encontre uma solução definitiva para o seu.
US$ 2,1 bilhões em bonds
O núcleo da dívida da Braskem Idesa está concentrado em duas emissões: US$ 900 milhões em bonds com vencimento em 2029 e US$ 1,2 bilhão com vencimento em 2032, totalizando US$ 2,1 bilhões em principal. A companhia já vinha negociando uma reestruturação havia meses depois de deixar de cumprir pagamentos relacionados aos títulos.
O pedido apresentado no Texas é um prepackaged Chapter 11, estrutura em que os principais termos da reestruturação são negociados previamente com os credores para acelerar a tramitação judicial.
A Braskem Idesa disse ter chegado a um acordo com seus acionistas, o credor do term loan e uma maioria substancial dos detentores dos bonds. O processo envolve Braskem Idesa S.A.P.I., Braskem Idesa Servicios S.A. de C.V. e Braskem Idesa Ethane LLC.
Os documentos divulgados até agora não detalham quanto do corte superior a US$ 920 milhões será absorvido por cada grupo de credores nem a recuperação final de cada classe de bondholders.
Braskem ainda terá de colocar cerca de US$ 350 milhões
A participação da controladora é um dos principais elementos do acordo. A Braskem se comprometeu com uma contribuição total de US$ 476 milhões e continuará com participação majoritária na subsidiária após a reorganização.
Desse montante, aproximadamente US$ 126 milhões já haviam sido disponibilizados antes do pedido de Chapter 11, segundo Fato Relevante divulgado pela própria Braskem nesta manhã de terça. Isso deixa cerca de US$ 350 milhões ainda a serem aportados no contexto da reestruturação mexicana.
O compromisso ocorre justamente quando a Braskem negocia com seus próprios bancos e bondholders uma reorganização de sua dívida. A companhia classificou a Braskem Idesa como um “ativo estratégico” ao anunciar a contribuição.
A situação coloca dois processos financeiros lado a lado. Os credores da subsidiária mexicana estão aceitando uma redução significativa do endividamento apoiada por recursos da controladora, enquanto os credores da própria Braskem podem ser chamados a aceitar novos prazos e outras condições para reorganizar o balanço da companhia brasileira.
Uma eventual recuperação extrajudicial da Braskem não altera automaticamente o Chapter 11 mexicano, porque se trata de empresas juridicamente distintas. Mas os aproximadamente US$ 350 milhões ainda previstos para a subsidiária tornam a ligação financeira entre os dois processos mais relevante.
Resolver o problema mexicano primeiro também pode reduzir uma fonte de incerteza para a Braskem, ao diminuir a dívida da subsidiária e tentar recuperar sua capacidade de geração de caixa antes da conclusão da própria reestruturação da controladora.
Petrobras e Carlos Slim estão na estrutura societária
A Braskem passou a ser co-controlada pelo Shine I FIP, ligado à IG4, em maio, depois de ingressar no lugar da Novonor (ex-Odebrecht). A Petrobras também faz parte do bloco de controle.
A Braskem Idesa é uma joint venture entre a Braskem (75%) e a Idesa, grupo controlado principalmente por veículos ligados ao Grupo Financiero Inbursa, associado à família do bilionário mexicano Carlos Slim.
Uma petroquímica de US$ 5,2 bilhões no México
A Braskem Idesa foi criada em 2010 para desenvolver o complexo Etileno XXI, em Veracruz, inaugurado em 2016 após investimentos de cerca de US$ 5,2 bilhões. A unidade, com capacidade para produzir aproximadamente 1,05 milhão de toneladas de polietileno por ano, foi concebida principalmente para atender ao mercado mexicano e tinha como um de seus pilares o fornecimento de etano pela estatal Pemex.
A oferta doméstica, porém, ficou muito abaixo do esperado. O volume fornecido pela Pemex à Braskem Idesa caiu de 57 mil barris por dia em 2017 para 17 mil em 2025, enquanto a utilização do complexo recuou de 88% para 64%. O custo logístico médio do etano chegou a cerca de US$ 180 por tonelada em 2025, e o EBITDA gerencial caiu de US$ 623 milhões em 2017 para apenas US$ 2 milhões no ano passado.
A resposta operacional é o Terminal Química Puerto México (TQPM), construído para receber etano importado. O plano apresentado aos credores prevê que, em 2027, 51 mil dos 56 mil barris diários consumidos pela companhia venham pelo terminal, deixando apenas 5 mil barris por dia para a Pemex. Em 2030, mais de 90% do abastecimento deverá vir de etano importado.
Com maior segurança de matéria-prima, a Braskem Idesa projeta elevar a utilização das plantas para 95% em 2030, quando a produção de polietileno superaria 1 milhão de toneladas e o EBITDA gerencial chegaria a US$ 286 milhões. Se cumprir o cronograma de 60 a 90 dias para sair do Chapter 11, a subsidiária poderá concluir sua reestruturação ainda neste ano — antes de a própria Braskem encontrar uma solução definitiva para seu balanço.













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