By Brazil Stock Guide — O ciclo pecuário brasileiro começa a apresentar sinais de inversão após mais de quatro anos de expansão do abate de bovinos, movimento que poderá elevar os custos de aquisição de gado e pressionar as margens dos frigoríficos nos próximos trimestres. A avaliação é do BTG Pactual, em relatório setorial.
Segundo o banco, a atual fase de liquidação do rebanho já dura aproximadamente 53 meses, superando os três ciclos anteriores. O período prolongado de elevada oferta de animais foi sustentado principalmente pelos juros altos e pela demanda internacional aquecida, especialmente diante da redução da produção de carne bovina nos Estados Unidos.
Os primeiros sinais de mudança aparecem nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No segundo trimestre de 2026, o Brasil abateu 10,7 milhões de bovinos, crescimento de 1,3% em relação ao mesmo período do ano anterior e recorde para um segundo trimestre.
Entretanto, o abate de fêmeas caiu 1,9% na comparação anual, a primeira retração desde o quarto trimestre de 2021. A participação das fêmeas no total de animais abatidos recuou de 51% para 49% em um ano.
Para os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, responsáveis pelo relatório, esse movimento pode indicar que os pecuaristas estão começando a reter matrizes para recompor seus rebanhos, uma mudança decisiva na dinâmica de oferta de gado.
Juros e exportações prolongaram o ciclo
O BTG observa que os juros elevados contribuíram para prolongar a fase de liquidação. Com taxas mais altas, a receita imediata obtida com o abate se torna relativamente mais atraente do que os ganhos futuros associados à criação de bezerros.
Essa relação econômica ajuda a explicar por que os produtores continuaram enviando fêmeas ao abate, mesmo diante dos primeiros sinais de recuperação dos preços dos animais jovens.
O banco ressalta, porém, que a política monetária não explica sozinha a duração excepcional do ciclo. A atual fase de liquidação superou até mesmo a registrada no início dos anos 2000, embora a taxa média de juros tenha sido inferior à daquele período.
A forte demanda externa também teve papel importante. Com a produção americana de carne bovina em queda, as exportações brasileiras encontraram condições favoráveis, sustentando o ritmo dos frigoríficos e a procura por animais para abate.
A China pode ter contribuído adicionalmente para prolongar essa dinâmica. Segundo o BTG, a introdução de cotas de importação para 2026 criou incentivos para a antecipação dos embarques, mantendo a demanda por bovinos elevada mesmo quando a valorização dos bezerros já favorecia a retenção de fêmeas.
Margens dos frigoríficos sob pressão
A eventual mudança no ciclo representa um desafio para a indústria brasileira de carne bovina, que inclui grandes exportadores como JBS, Minerva e MBRF. Durante a fase de liquidação, a elevada disponibilidade de animais favorece o abastecimento dos frigoríficos. Quando os pecuaristas começam a reter fêmeas para reprodução, a oferta destinada ao abate tende a diminuir gradualmente.
Com menos animais disponíveis, os frigoríficos passam a enfrentar maior competição pela matéria-prima, pressionando os preços de aquisição de gado e, potencialmente, suas margens operacionais.
O impacto dependerá da velocidade de redução da oferta e da capacidade das empresas de repassar os custos mais elevados aos preços da carne nos mercados doméstico e internacional.
Embora o abate total ainda esteja em níveis recordes, o BTG considera que a composição dos animais abatidos oferece um sinal importante de mudança. A avaliação do banco é que, depois de um ciclo de liquidação excepcionalmente longo, a retenção de fêmeas pode finalmente estar ganhando força. Se confirmada nos próximos trimestres, essa tendência deverá restringir a disponibilidade de bovinos e tornar o ambiente operacional dos frigoríficos mais desafiador.













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