Meta Pixel

Saneamento: a universalização de duas velocidades

Ainda há interesse de investidores, mas estados periféricos podem ficar fora da festa – e longe das metas do marco do saneamento.

O Marco do Saneamento, instituído em 2020, tirou o setor da paralisia, criou metas, movimentou o mercado e transformou água e esgoto em uma das maiores agendas de infraestrutura e investimento do país. Mas a promessa de uma solução quase automática pelo capital privado começa a encontrar seus limites.

O mercado parece sinalizar que não há capital suficiente – nem barato o bastante – para comprar qualquer projeto apenas porque ele carrega a promessa da universalização.

O risco agora é o surgimento de um saneamento em duas velocidades. De um lado, ativos com escala, base urbana mais robusta, capacidade fiscal maior e uma história de retorno mais fácil de comprovar. Do outro, concessões e PPPs em estados mais periféricos, com baixa cobertura inicial, geografia dispersa, renda menor, maior risco de inadimplência e menor capacidade de atrair investidores.

A privatização recente da Copasa mostrou que o capital continua disponível quando o ativo parece grande, conhecido e operacionalmente tratável. A Equatorial pagou R$ 5,5 bilhoões para assumir 30% da companhia mineira. Não foi uma disputa exuberante – houve apenas um interessado – mas houve cheque.

O Universaliza-SP segue lógica parecida. São Paulo tenta estruturar a concessão dos serviços de água e esgoto em municípios não atendidos pela Sabesp, em um projeto que pode envolver cerca de R$ 100 bilhões em investimentos até 2060. Quando há densidade econômica, capacidade fiscal e algum grau de suporte público, o projeto ainda conversa com o intersse do investidor.

Fora desse eixo, a conversa ficou mais dura. A PPP de esgoto da Saneago, em Goiás, foi cancelada depois que dois blocos não receberam interessados e a única proposta apresentada foi inabilitada. O Ceará reforçou o alerta. O estado esperava atrair R$ 7 bilhões em investimentos para serviços de esgoto em 128 municípios, divididos em cinco lotes. No fim, recebeu proposta por apenas um lote, contemplando 23 cidades, com deságio de apenas 1,15%. Quatro blocos ficaram sem oferta.

Esse é o ponto central. O marco do saneamento criou uma meta nacional: 99% da população atendida com água e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Mas o capital privado não opera por meta legal. Opera por risco, retorno, financiamento, tarifa, inadimplência, capacidade regulatória e execução. A lei pode ordenar a universalização; não pode obrigar o investidor a aceitar um contrato mal calibrado.

Rondônia será o próximo teste dessa tese. O estado colocou na rua uma concessão regionalizada de água e esgoto em 40 municípios, com valor estimado de R$ 8,48 bilhões e leilão previsto para 29 de setembro na B3. O projeto tem escala, inclui Porto Velho e nasce com o selo de modelagem do BNDES. Mas também carrega um desafio típico da nova fronteira do saneamento: baixa cobertura inicial, dispersão territorial e necessidade alta de execução.

O próprio plano referencial de Rondônia mostra o tamanho da montanha. A área da concessão parte de uma cobertura projetada de 51% em água e apenas 15% em esgoto, com avanço linear até as metas de 99% e 90% em 2033. O salto é enorme. A pergunta é se o mercado comprará o risco.

O problema não é que os investidores tenham abandonado o saneamento. É que ficaram mais seletivos. E essa seletividade tem uma consequência política incômoda: os lugares que mais precisam de investimento são justamente os que oferecem o retorno mais difícil. A universalização pode avançar mais rápido onde a renda é maior, a regulação é mais madura e o contrato é mais financiável. Onde a necessidade é maior, o capital pode simplesmente não aparecer.

Isso não invalida o marco do saneamento. Pelo contrário. O marco foi o avanço institucional mais importante do setor em décadas. Mas a primeira fase, marcada por grandes leilões e entusiasmo privado, deu lugar a uma etapa mais difícil: a da execução, da revisão de modelos e da escolha de quem fica para trás quando o contrato não fecha.

Sem subsídios bem desenhados, blocos mais equilibrados, garantias públicas críveis e retorno compatível com o risco, a universalização corre o risco de se tornar uma promessa desigual: rápida para os grandes centros urbanos, lenta para o resto.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo