A Companhia Siderúrgica Nacional foi criada em 1941, durante o governo Getúlio Vargas, como um dos maiores símbolos da industrialização brasileira. Em 1993, foi privatizada, dentro de um projeto econômico que defendia a transferência de estatais para a iniciativa privada como caminho para aumentar a eficiência, modernizar a produção e fortalecer a competitividade nacional. Benjamin Steinbruch, por meio do grupo Vicunha, tornou-se um dos protagonistas daquele movimento. Trinta e três anos depois, a CSN anuncia a venda de sua divisão de cimento para a chinesa Huaxin, em uma transação que avalia a empresa em R$ 12,7 bilhões (US$ 2,31 bilhões). É verdade que a CSN Cimentos começou a operar em 2009, muitos anos depois da privatização, mas o simbolismo permanece. Um grupo empresarial que cresceu a partir daquela transformação econômica agora vende uma de suas principais operações industriais para reduzir dívidas. E quem está comprando é uma companhia chinesa em busca de expansão internacional.
A CSN acumula dívida líquida de aproximadamente R$ 42,1 bilhões, e a venda da divisão de cimento poderá reduzir esse montante em cerca de 30%, segundo estimativas da XP Investimentos. A Huaxin pagará aproximadamente R$ 9 bilhões pelas ações de uma empresa com capacidade instalada de 17 milhões de toneladas anuais e participação estimada de 21% no mercado brasileiro. O detalhe mais revelador está no próprio comunicado da compradora: uma de suas prioridades será substituir empréstimos bancários caros da CSN Cimentos por financiamentos mais baratos, aumentando a rentabilidade da operação.
O mesmo ativo que o empresário brasileiro vende para reduzir dívidas é comprado pelo investidor chinês como oportunidade de expansão. A diferença está, também, nas condições de financiamento de cada um. Naturalmente, o endividamento da CSN é consequência de decisões empresariais, aquisições e estratégias de expansão. Mas não seria razoável perguntar até que ponto os juros elevados ajudam a transformar ativos produtivos em negócios financeiramente difíceis de sustentar?
É impossível separar essa transformação do debate atual sobre os juros brasileiros. Após a interrupção do ciclo de cortes na semana passada, a discussão econômica continua dividida entre os que consideram indispensável cortar gastos e eliminar o déficit primário e aqueles que, como o economista André Lara Resende, questionam o peso dos próprios juros na expansão da dívida pública e no desequilíbrio fiscal. São diagnósticos distintos, com consequências importantes para a política econômica. Mas, enquanto as elites financeiras, empresariais e intelectuais não chegam sequer a um consenso sobre as causas do problema, uma questão igualmente decisiva fica em segundo plano: como financiar a reindustrialização brasileira? Sem crédito competitivo e investimento de longo prazo, dificilmente teremos uma indústria capaz de elevar a produtividade, gerar empregos qualificados e bem remunerados e superar a chamada armadilha da renda média. O risco é permanecermos presos a um debate fiscal interminável enquanto perdemos capacidade industrial, empresas nacionais e oportunidades de desenvolvimento.
A escolha também levanta questões sobre o compromisso atual das elites empresariais com o futuro da indústria brasileira e sua capacidade de ainda influenciar o debate público. O empresário Benjamin Steinbruch sempre foi um ardoroso defensor público da industrialização brasileira e queixoso dos juros altos no país. Mas a decisão nos últimos anos de escolher Punta del Este, no Uruguai, como domicílio fiscal, é reveladora. A residência no exterior, por si só, não representa qualquer irregularidade, tampouco explica as dificuldades financeiras da companhia. Mas o contraste merece reflexão. Por que alguém que construiu sua trajetória apostando na indústria nacional por anos e anos decide agora estabelecer residência fora do país?
Não há nada de errado em receber investimentos chineses, americanos ou de qualquer outra nacionalidade. O Brasil precisa de capital estrangeiro, tecnologia, produtividade e integração internacional. Tampouco seria correto atribuir exclusivamente aos juros as dificuldades de empresas que tomaram decisões equivocadas ou assumiram dívidas excessivas. Mas existe uma diferença fundamental entre vender um ativo por estratégia e ser obrigado a vendê-lo porque o custo financeiro tornou sua manutenção insustentável.
A questão central é como conciliar estabilidade monetária, responsabilidade fiscal e financiamento competitivo para a indústria. De que adianta privatizar empresas, estimular o empreendedorismo e defender a reindustrialização se o custo do dinheiro limita a capacidade dos próprios empresários brasileiros de financiar e preservar seus negócios? O problema não é o capital chinês comprar ativos nacionais. É o Brasil correr o risco de preservar suas fábricas, minas e empresas, mas perder progressivamente a capacidade de decidir sobre o futuro de sua própria indústria.











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