O rally brasileiro é, até aqui, sobretudo um rally de expectativas. O resultado do primeiro turno levou investidores a precificar um cenário de maior disciplina fiscal, dívida mais controlada e juros estruturalmente menores caso o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ganhe a eleição presidencial. O Ibovespa ganhou 8,8% na semana passada, sendo 7,7% apenas na segunda-feira seguinte à votação. Tudo isso, até agora, significa que o mercado passou a pagar mais pela possibilidade de que o quadro fiscal mude.
É por isso que as ações puderam subir tão rapidamente sem uma revisão equivalente dos lucros. Juros longos menores reduzem o custo de capital e elevam o valor presente dos resultados futuros. O BTG atribui boa parte da recente expansão dos múltiplos justamente à compressão da curva. Mas a operação das empresas ainda não acompanhou essa reprecificação. No varejo, por exemplo, o consumo discricionário segue fraco, categorias dependentes de crédito permanecem pressionadas e as companhias continuam priorizando eficiência, caixa e balanço.
O ponto crítico é que a melhora fiscal parece contaminar o preço dos ativos sem ter ideia do que vai acontecer com o orçamento de 2027. Há propostas de ajuste próximas de R$ 200 bilhões, mas o desenho de execução permanece pouco claro, enquanto a maior parte do gasto federal é obrigatória e o espaço discricionário é reduzido. A expressão “miragem fiscal” resume bem o risco: não porque um ajuste seja impossível, mas porque o mercado já incorporou parte de seus benefícios antes de saber quanto poderá efetivamente ser entregue por Flávio Bolsonaro.
Talvez essa seja a principal mudança depois da primeira explosão do rally. A surpresa política já foi rapidamente transformada em preço. Daqui em diante, a reprecificação precisa de confirmação: primeiro na política fiscal e depois nos resultados corporativos. O mercado já comprou parte de um Brasil com risco menor, mesmo em dúvidas quanto à execução de um plano que hoje não é declarado. Agora precisa descobrir se essa miragem fiscal vai virar realidade e se os lucros chegarão a tempo de sustentar os preços.













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