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Em Atenas, Marco Rubio discursa sobre o futuro do Ocidente — Parte 2

O nacionalismo defendido pelo secretário de Estado americano expõe os dilemas do Brasil diante da China, da soberania nacional e de um eventual alinhamento com Washington.

Marco Rubio defendeu em Atenas o direito de cada nação colocar seus interesses em primeiro lugar. Mas o discurso do secretário de Estado americano deixa uma pergunta sem resposta: os Estados Unidos aceitariam que o Brasil fizesse o mesmo, inclusive quando seus interesses contrariassem os de Washington?

No primeiro artigo desta série, examinamos como Rubio recorreu à história do Ocidente para dar sustentação intelectual ao America First de Donald Trump. Agora, a questão é saber como essa visão se aplica a países como o Brasil, que dependem economicamente da China e mantêm relações estratégicas com os Estados Unidos.

De janeiro a setembro de 2026, a China absorveu 29,7% das exportações brasileiras, ou US$ 84,7 bilhões. Os Estados Unidos responderam por 9,6%, equivalentes a US$ 27,5 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Não se muda essa realidade com afinidade política. A China é o principal comprador de soja, minério de ferro e petróleo brasileiros. Os Estados Unidos continuam relevantes para segmentos industriais, investimentos e tecnologia. O Brasil precisa negociar com ambos.

A nova Doutrina Monroe

A contradição do discurso de Rubio fica mais evidente quando confrontada com a Estratégia de Segurança Nacional americana, publicada em dezembro de 2025.

O documento estabelece que Washington pretende recuperar sua preeminência no Hemisfério Ocidental e impedir que potências externas à região controlem ativos considerados estratégicos. A orientação foi batizada de Trump Corollary to the Monroe Doctrine, numa referência à doutrina de 1823 que se tornou um dos fundamentos históricos da influência americana nas Américas.

Na prática, investimentos chineses em portos, energia, telecomunicações e mineração na América Latina podem ser tratados pelos Estados Unidos como questões de segurança nacional. O ponto é que Rubio defende a soberania como uma virtude, enquanto o governo que representa reivindica uma posição privilegiada nas decisões estratégicas de seu hemisfério. O exercício da soberania brasileira ficou mais caro.

O teste de Flávio Bolsonaro

É nesse contexto que um eventual governo Flávio Bolsonaro enfrentaria seu primeiro dilema externo. O candidato tem proximidade política com Trump e defende maior cooperação com Washington. Ao mesmo tempo, afirma que manterá relações pragmáticas com a China e que o Brasil não precisa escolher entre as duas potências.

As duas posições podem conviver. Mas não necessariamente sem conflitos. Um governo brasileiro alinhado politicamente aos Estados Unidos continuaria dependendo da demanda chinesa por commodities, dos investimentos asiáticos e de cadeias industriais cada vez mais integradas à economia chinesa.

Também teria de negociar com Washington questões comerciais que não desaparecem com a afinidade entre presidentes. Em julho, os americanos impuseram novas sobretaxas que alcançaram 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos EUA, tomando como base os embarques de 2024.

A questão vale também para Lula. Uma eventual reeleição não eliminaria os interesses americanos em manter relações econômicas e estratégicas com o Brasil. O desafio, portanto, não é apenas político. Qualquer governo precisará conciliar relações com EUA e China sem comprometer interesses econômicos nacionais.

Os minerais mostram o que está em jogo

A disputa por minerais críticos já oferece um exemplo concreto. Em abril, a americana USA Rare Earth anunciou um acordo de US$ 2,8 bilhões para adquirir a Serra Verde, produtora de terras raras em Goiás. O negócio inclui um contrato de fornecimento de 15 anos com uma estrutura financiada por capital público e privado americano.

Para Washington, assegurar o acesso a esses minerais faz parte da estratégia de reduzir a dependência da China em tecnologias militares, veículos elétricos e equipamentos industriais.

Quanto dessa riqueza será transformada no Brasil em indústria, tecnologia e empregos dentro do país? Atrair capital estrangeiro não é o mesmo que construir uma cadeia produtiva nacional. O interesse brasileiro está nas condições dos investimentos, no processamento local e na capacidade de agregar valor aos recursos minerais.

Esse conflito de interesses não se limita aos americanos. A União Europeia investiga a proposta de aquisição das operações brasileiras de níquel da Anglo American pela MMG, controlada por um grupo chinês, diante da preocupação de que o fornecimento seja redirecionado para a China. A mineração brasileira tornou-se, assim, parte de uma disputa estratégica que pode influenciar decisões de investimento tomadas muito além de suas fronteiras.

O preço da soberania

A nova política externa americana coloca o Brasil diante de uma realidade: a competição entre Estados Unidos e China pode atrair investimentos, mas também aumentar pressões sobre escolhas comerciais e diplomáticas brasileiras. Nesse ambiente, soberania não significa apenas declarar independência. Significa ter mercados alternativos, capacidade industrial, acesso à tecnologia e poder de negociação.

A proximidade de Flávio Bolsonaro com Trump poderia mudar o ambiente político das negociações. Não mudaria, por si só, a estrutura econômica que liga o Brasil à China. Rubio defendeu em Atenas que os Estados Unidos podem colocar seus interesses em primeiro lugar. O America First admite um Brazil First?


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