Por Brazil Stock Guide — A Globe Investimentos, family office dos empresários Joesley e Wesley Batista, que também controlam a J&F, acertou a compra de 100% da Nova AVB S.A., holding que controla a fabricante de sistemas de defesa e aeroespaciais Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial.
A operação marca a entrada formal dos irmãos nos setores de defesa e aeroespacial no Brasil e dará o controle de um portfólio que vai de mísseis táticos e sistemas de foguetes de artilharia a tecnologias de defesa antiaérea, lançadores espaciais civis, motores-foguete e sistemas de propulsão sólida.
Em documento apresentado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a Globe afirmou que a aquisição representa uma oportunidade de ingressar no setor, contribuindo para a reestruturação e o fortalecimento dessas atividades no Brasil.
A Avibras Aeroco confirmou a operação em comunicado ao mercado divulgado nesta sexta-feira, 21 de agosto. Segundo a empresa, o acionista vendedor, Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, informou que a transação já havia sido submetida ao Cade. A conclusão do negócio depende da aprovação do órgão antitruste e do cumprimento das demais condições de fechamento.
O valor da aquisição e as condições de pagamento foram apresentados de forma confidencial ao Cade e aparecem sob acesso restrito na versão pública do processo.
As partes pediram que a operação seja analisada pelo procedimento sumário do Cade, sob o argumento de que não há sobreposição horizontal nem integração vertical entre as atividades da família Batista e as da Nova AVB ou da Avibras Aeroco. Segundo o documento, a transação representa essencialmente a substituição de um agente econômico por outro, e não a combinação de empresas concorrentes.
O processo também informa que a operação não depende da aprovação de nenhuma outra autoridade regulatória ou antitruste no Brasil ou no exterior.

O que a J&F está comprando
A Avibras Aeroco, subsidiária operacional da Nova AVB, desenvolve e fabrica sistemas de defesa e tecnologias voltadas ao setor espacial civil. Seu principal sistema de defesa é o ASTROS, plataforma móvel de artilharia capaz de lançar, a partir de uma mesma base, foguetes, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro táticos, com alcances que variam de aproximadamente 9 quilômetros a até 300 quilômetros, dependendo da munição.
O portfólio inclui também o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), equipado com propulsão por turbina e alcance de até 300 quilômetros, integrado à plataforma ASTROS. O sistema está em processo de certificação.
Outro programa é o Míssil Tático Balístico (MTB), AV-SS-100, com alcance superior a 100 quilômetros e desenvolvido para ataques de precisão contra alvos táticos, operacionais e estratégicos. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento.
A Avibras Aeroco também produz o Skyfire, sistema de foguetes de 70 milímetros disponível tanto em configuração ar-terra, para aeronaves de asa fixa e helicópteros, quanto em versões lançadas do solo voltadas principalmente a forças especiais e unidades de artilharia leve.
A empresa atua ainda em sistemas de defesa antiaérea de baixa e média altitude. Entre os projetos está o sistema FILA, que integra sensores, radares e tecnologia de controle de tiro, além de soluções desenvolvidas com parceiros internacionais que combinam mísseis e radares para proteção de infraestruturas críticas e áreas operacionais.
Além dos mísseis: o programa espacial brasileiro
O negócio que os irmãos estão comprando vai muito além de mísseis e foguetes militares. A Avibras Aeroco desenvolve veículos suborbitais, lançadores espaciais civis, motores-foguete, sistemas de propulsão, eletrônica embarcada e software, inclusive tecnologias vinculadas ao Programa Espacial Brasileiro.
A companhia também fabrica os foguetes de treinamento monoestágio AV-FTI e AV-FTB, utilizados em operações de centros de lançamento e em experimentos científicos e tecnológicos. Outra área importante é a propulsão sólida. A Avibras desenvolve e fabrica motores-foguete de combustível sólido, utilizando estruturas metálicas e de materiais compósitos, com diferentes cargas de propelente de acordo com a aplicação.
A empresa também produz insumos essenciais para propelentes sólidos, como perclorato de amônio e polibutadieno com hidroxilas terminais (PBHT), utilizado como aglutinante na formulação de propelentes sólidos compósitos.
Em síntese, a atuação da Avibras Aeroco se divide em dois grandes blocos: sistemas integrados de defesa – incluindo plataformas de artilharia, mísseis, foguetes e defesa antiaérea – e soluções para o setor espacial civil, como veículos lançadores, sistemas de propulsão e seus insumos.
Um negócio reconstruído praticamente do zero
A operação acontece depois de uma profunda reorganização das atividades industriais da Avibras. A companhia hoje denominada Nova AVB foi constituída em 2025 e tornou-se a holding controladora da Avibras Aeroco, empresa que passou a concentrar as operações industriais separadas da antiga Avibras Indústria Aeroespacial S.A.
O processo no Cade mostra que Nova AVB e Avibras Aeroco não tiveram faturamento em 2025, o que evidencia o caráter recente da nova estrutura operacional antes da retomada da produção neste ano.
A Nova AVB tem capital social de R$ 100 milhões e pertence integralmente ao Brasil Crédito. Praticamente todo esse capital — R$ 99.999.960 — foi integralizado por meio de um crédito reconhecido judicialmente e originalmente relacionado à antiga estrutura da Avibras. O crédito teve origem em serviços de marketing internacional contratados junto à Poris Duta Sarana Co. em 2022 e foi cedido ao Brasil Crédito em 2024.
Processos judiciais relacionados à dívida levaram à penhora de 59,1 milhões de ações da antiga Avibras. Esses papéis foram posteriormente adjudicados à Vita Gestão e Investimentos, em julho de 2025, pelo valor atualizado de R$ 227,17 milhões, segundo laudo da V4 Auditores Independentes.
Na prática, um credor que adquiriu um crédito contra a antiga Avibras acabou se tornando o único acionista da holding que controla a nova operação industrial – justamente a participação que agora será vendida à Globe Investimentos, o family office dos irmãos.
Duas estruturas diferentes da Avibras
A transação não representa a compra direta da Avibras Indústria Aeroespacial S.A., a companhia original que permanece em recuperação judicial. Essa empresa é controlada pela Martinelli Gestora de Ativos e Participações, que sucedeu a Vita Gestão e Investimentos.
A Martinelli, porém, não controla a operação industrial que retomou a fabricação de mísseis e foguetes. Essas atividades foram transferidas para a Avibras Aeroco, controlada pela Nova AVB – exatamente a estrutura que a Globe está adquirindo.
A distinção é importante: os irmãos estão comprando o controle do negócio operacional de defesa e aeroespacial, e não assumindo diretamente a companhia que permanece em recuperação judicial.
Family office já financiava a retomada
A aquisição aprofunda uma relação que começou antes da proposta de mudança de controle. O Brasil Crédito coordenou uma captação de R$ 300 milhões que ajudou a Avibras Aeroco a retomar a produção em maio, com participação de Joesley Batista, um dos controladores da J&F, como investidor.
A aquisição, portanto, transforma uma exposição financeira anterior à retomada da operação em controle direto do negócio. A Globe Investimentos também já foi utilizada pela família Batista em outras transações. Em 2025, o veículo adquiriu da Companhia Siderúrgica Nacional (B3: CSNA3) uma participação de 4,99% na Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais, a Usiminas (B3: USIM5).
A Globe é presidida por Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sobrinho de Joesley e Wesley Batista. O portfólio mais amplo da J&F inclui alimentos e proteínas, energia, celulose, serviços financeiros, mineração e outros negócios, além da JBS N.V. (NYSE: JBS; B3: JBSS32). A atividade de defesa e aeroespacial, por sua vez, passa a integrar a lista dos negócios pessoais dos irmãos.
Poucos obstáculos concorrenciais
Do ponto de vista concorrencial, as partes apresentam a aquisição como uma operação relativamente simples. Globe e Nova AVB disseram ao Cade que não existe sobreposição horizontal nem integração vertical entre os negócios do grupo comprador e as atividades da Avibras Aeroco, classificando a transação como mera substituição de um agente econômico por outro.
As empresas pediram, por isso, aprovação sem restrições pelo procedimento sumário do Cade. O processo identifica como setor econômico envolvido a fabricação de equipamento bélico pesado, exceto veículos militares de combate.
No processo, citaram empresas como Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, BAE Systems, General Dynamics, Leonardo, MBDA e Roketsan entre os principais competidores do mercado internacional.













Deixe uma resposta