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O orçamento da guerra

O mundo parece disposto a financiar ainda mais os conflitos.

O mundo não está pagando a conta da paz. Está pagando a conta de uma ordem internacional que já não consegue preservá-la. Em 2025, os gastos militares globais chegaram a $2,887 trilhões, ou 2,5% do PIB mundial, segundo o relatório divulgado esta semana pelo SIPRI, instituto sueco de referência global em estudos sobre conflitos, armamentos e gastos militares. Foi o maior nível já registrado pela série e o 11º ano consecutivo de crescimento. A guerra voltou a ser prioridade fiscal.

A proporção ajuda a entender o absurdo. O gasto militar mundial de um único ano já é maior do que o PIB anual do Brasil, estimado pelo FMI em cerca de $2,6 trilhões. Em outras palavras, a humanidade destina às Forças Armadas, em 12 meses, mais do que uma das maiores economias emergentes produz em um ano inteiro.

A Europa — onde as duas grandes guerras mundiais explodiram — é o centro dessa virada. Durante décadas, parte do continente viveu sob o dividendo da paz: defesa relativamente baixa, integração econômica, energia russa barata, guarda-chuva americano e a ilusão de que guerra convencional era assunto do século XX. A invasão da Ucrânia destruiu essa aritmética.

Os países da Otan responderam por 55% de todo o gasto militar global em 2025. Em junho, a aliança aprovou uma nova meta: chegar a 5% do PIB até 2035, sendo 3,5% em gasto militar central e 1,5% em despesas relacionadas a defesa e segurança. A Alemanha elevou seu gasto militar para 2,3% do PIB em 2025. A Polônia chegou a 4,5%. O Reino Unido ficou em 2,4%. A França, em 2%. A Ucrânia destinou 40% do PIB à defesa.

5% do PIB é uma escolha de civilização. A comparação é incômoda. A OCDE estima que seus países gastem, em média, 4,7% do PIB com instituições de ensino, do primário ao superior. A nova ambição militar da Otan coloca defesa na escala de uma educação nacional inteira. Tanques, mísseis, submarinos, drones e munição passam a competir, em tamanho fiscal, com escolas, universidades, professores e formação de capital humano.

Os Estados Unidos pressionam a Europa a gastar mais porque já não querem carregar sozinhos o custo da segurança do continente. Mas Washington segue sendo o maior gastador militar do mundo, com $954 bilhões em 2025. O país gasta 3,1% do PIB com defesa e se viu envolvido, direta ou indiretamente, nas principais frentes de tensão do planeta: Ucrânia, Iraque, Síria, Iêmen, Irã e Venezuela.

A Rússia mostra o que acontece quando a guerra deixa de ser evento e vira modelo econômico: Moscou gastou 7,5% do PIB em defesa em 2025, e a despesa militar chegou a 20% do gasto público, o maior nível já registrado pelo SIPRI para o país. A China opera de outro modo: gastou 1,7% do PIB, proporção aparentemente moderada, mas sobre uma base econômica gigantesca e após 31 anos consecutivos de aumento militar — o suficiente para mudar o equilíbrio estratégico da Ásia sem parecer uma economia de guerra.

O Brasil aparece em outra escala. Gastou 1,1% do PIB com defesa em 2025, ou $23,9 bilhões, com alta real de 13%. É pouco diante da nova corrida global. O país não vive a emergência militar da Ucrânia, não tem a fronteira estratégica da Polônia, não disputa Taiwan, não ataca o Irã, não sustenta o aparato global americano. Mas tem Amazônia, Atlântico Sul, fronteiras extensas, crime transnacional, tecnologia sensível e uma indústria de defesa em reconstrução.

O ponto não é defender ingenuidade pacifista. Estados precisam de defesa. O problema é outro: quando o gasto militar vira meta política em si mesmo, ele passa a disputar legitimidade com tudo o que também produz segurança — educação, saúde, moradia, energia, infraestrutura, tecnologia, diplomacia e capacidade estatal. Um país mais armado não é necessariamente um país mais seguro.

Se os EUA seguirem explodindo várias frentes militares, se a Otan caminhar para 5% do PIB, se a Europa continuar se rearmando, se a Rússia permanecer em guerra, se a China seguir expandindo sua capacidade militar e se o Oriente Médio continuar funcionando como uma sucessão de frentes abertas, os 2,5% do PIB global de 2025 poderão parecer apenas o começo da nova era armamentista.

O dividendo da paz acabou. Em seu lugar, surge o novo imposto para financiar conflitos geopolíticos.


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