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China pode tirar do Brasil o posto de maior fornecedor da Argentina

A vantagem industrial criada pelo Mercosul há três décadas começa a ser corroída pela escala, preço e agressividade exportadora chinesa.

Tudo indica que o Brasil corre o risco de ser destronado, pela primeira vez em três décadas, do posto que mais importava na relação com a Argentina: o de principal fornecedor da economia vizinha.

Quando surgiu, no início dos anos 1990, o Mercosul redesenhou o mapa das rotas comerciais na bacia do Prata e deu ao Brasil uma vantagem que parecia natural. A Argentina comprava do Brasil não apenas porque os dois países eram vizinhos, mas porque a integração regional transformou a indústria brasileira numa extensão do mercado argentino. Carros, autopeças, máquinas, químicos e bens intermediários atravessavam a fronteira como parte de uma promessa maior: substituir a velha rivalidade Brasil-Argentina por uma cadeia produtiva regional.

Essa vantagem começa a ser testada. A China já havia passado o Brasil como fornecedora da Argentina durante a pandemia, quando choques logísticos, demanda regional deprimida e cadeias industriais interrompidas embaralharam o comércio global. Também voltou a fazê-lo em um mês isolado, em setembro de 2025. O que torna 2026 diferente é a sensação de continuidade. O avanço chinês já não parece apenas uma anomalia de crise, mas o início de uma disputa mais permanente pelo mercado que o Mercosul havia reservado à indústria brasileira.

No primeiro quadrimestre, a China respondeu por 23,7% das importações argentinas, à frente do Brasil, com 21,6%. O Brasil ainda liderou como destino das exportações argentinas, com 12,6%, contra 7,9% da China. No comércio total, o Brasil ainda resiste. Mas a parte mais sensível da relação — quem abastece a economia argentina — já mudou de mãos.

Isso é mais relevante do que parece. A relação Brasil-Argentina nunca foi apenas sobre soja, trigo ou carne. Para o Brasil, a Argentina sempre foi o mercado externo mais parecido com um mercado doméstico: próximo, protegido, regulado por regras comuns e dependente de uma cadeia industrial regional. Quando a China passa a liderar as importações argentinas, ela não está apenas vendendo mais mercadorias. Está ocupando um espaço que tradicionalmente pertencia à indústria brasileira.

A explicação não cabe numa leitura romântica sobre o distanciamento político entre Brasília e Buenos Aires, nem nos laços pouco afetivos entre Lula e Milei. A Argentina não está simplesmente se afastando do Brasil. Está comprando com base em preço, escala e eficiência. A abertura econômica da Argentina reduziu barreiras e expôs fabricantes locais — e fornecedores brasileiros — à competição global. A China é o país mais bem preparado para ocupar esse espaço: tem a escala, o portfólio e a disciplina exportadora da máquina industrial do mundo.

O caso das autopeças mostra o mecanismo. O setor argentino, historicamente integrado ao Brasil, passou a enfrentar uma onda de importações mais baratas. As compras argentinas de autopeças chinesas subiram mais de 80%, enquanto a produção local caiu no início de 2026. O Brasil ainda é grande nesse mercado, mas já não compete apenas com empresas argentinas ou americanas. Compete com a capacidade chinesa de produzir em escala continental e exportar com agressividade quase infinita.

O mesmo vale para eletrônicos, veículos eletrificados, smartphones, máquinas, equipamentos e bens de capital. São justamente os segmentos que aparecem com mais força na nova pauta de importações argentinas. A China oferece uma prateleira global de produtos enquanto o Brasil oferece uma cadeia regional. Em tempos de ajuste fiscal, consumo pressionado e busca por desinflação, a prateleira mais barata ganha apelo político e econômico.

Há também uma mudança no lado exportador da Argentina. A melhora externa recente vem menos da velha indústria do Mercosul e mais de agro, energia, mineração, petróleo e lítio. Com menos fábricas, a Argentina exige menos fornecedores industriais regionais. Em contrapartida, exporta aquilo que a China compra: alimentos, recursos naturais e minerais críticos.

O lítio é o símbolo mais claro desta nova era. A China não está interessada apenas em vender celulares ou carros para a Argentina. Ela também quer garantir insumos para baterias, veículos elétricos e armazenamento de energia. A Argentina, com suas reservas minerais e ambição de se tornar uma potência de lítio, conversa mais facilmente com a lógica chinesa de cadeia global do que com a lógica brasileira de integração regional.

É por isso que a ameaça ao Brasil é maior do que uma oscilação estatística. A China não precisa substituir o Brasil em tudo. Basta capturar a margem de crescimento. O Brasil pode continuar sendo grande nas exportações argentinas e ainda assim perder centralidade estratégica se a Argentina passar a comprar da China os bens industriais que antes sustentavam a lógica do Mercosul.

Sim — eu deixaria mais seco e forte assim:

Esse é o ponto incômodo. O Mercosul transformou a proximidade geográfica em vantagem industrial para o Brasil. Mas proximidade já não basta quando a China entrega o que a Argentina quer.

Durante décadas, Brasília tratou a Argentina como mercado natural. A China a trata como mercado disputável. A diferença é decisiva: mercados naturais se apoiam em memória, instituições e acordos; mercados disputáveis são vencidos por preço, escala e execução.

O Brasil ainda não perdeu a Argentina. Mas a China já mostrou que o Mercosul não basta para mantê-la.


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