Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide
Em setembro, as folhas caíram e as flores vermelho-alaranjadas da árvore se destacam na paisagem. Quem passa por ela na caatinga nordestina nessa época pode até não saber, mas essa árvore carrega, além da beleza, uma riqueza cultural que foi sendo esquecida nos centros urbanos do Brasil. E talvez seja hora de abrir os olhos para ela.
O mulungu (Erythrina mulungu) é uma das plantas medicinais mais bem documentadas da flora brasileira. Conhecida popularmente no Nordeste do país como corticeira, por conta de sua casca que lembra a cortiça, ele consta da Farmacopeia Brasileira desde sua quinta edição. A Anvisa o reconhece como fitoterápico regulamentado e o Ministério da Saúde o incluiu na Renisus, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS. Estudos farmacológicos confirmam o que gerações e gerações já sabiam: a casca do caule tem ação sedativa, ansiolítica e anticonvulsivante, com alcaloides do grupo eritrínico que atuam sobre receptores do sistema nervoso central. Num país que consome benzodiazepínicos como quem bebe água, há uma certa ironia em ter uma ansiolítica nativa crescendo às margens da estrada e não saber o nome dela.
Mas o mulungu não é apenas farmacologia. É um arquivo. Nele se depositaram, camada sobre camada, séculos de conhecimentos de povos que se encontraram em circunstâncias trágicas e extremas no que é hoje o Brasil.
Antes de entrar nisso, é preciso entender o que é o gênero Erythrina. Ele é vasto: são cerca de 130 espécies distribuídas pelas regiões tropicais e subtropicais do planeta, da África subsaariana ao sudeste asiático, das Américas Central e do Sul ao Pacífico. Em praticamente todas as culturas que vivem nessa área de ocorrência, alguma espécie do gênero foi incorporada à medicina local como um sedativo, um analgésico, um veneno de pesca ou um marcador ritual. O nome genérico vem do grego erythros, vermelho, referência à cor das flores de que já falamos.

No Brasil, a espécie de referência medicinal é a E. mulungu, também registrada como E. verna, encontrada ao longo de um arco que vai do Nordeste, onde se integra à Caatinga e às matas serranas, até o Sul do país, passando pelas áreas de Mata Atlântica e pelas zonas de transição doCerrado. É uma árvore de médio porte que pode superar 15 metros e que floresce entre agosto e outubro, justamente quando perde as folhas. Ocorre em bordas de mata e margens de rios. Não é rara, mas parece serinvisível para quem não foi ensinado a vê-la.
A origem do nome é uma história dentro da história. Os tupis chamavam a árvore de mussungú ou muzungú antes da chegada de europeus e da transmigração forçada de africanos. Há relatos de uso para tratar de insônia e de dores de dente, além do uso dos alcaloides da planta para entorpecer peixes em igarapés, facilitando a pesca. No continente africano, povos bantu conheciam suas próprias espécies de Erythrina — a E. abyssinica, a E. caffra, a E. senegalensis — pelo nome mulungo. Quando africanos escravizados chegaram ao Brasil e encontraram na floradaqui uma árvore que reconheciam pelos efeitos e pela forma, os dois sons se sobrepuseram quase naturalmente: o muzungú tupi e o mulungo africano eram próximos demais para não se acasalar. O que emergiu foi mulungu, um nome que mostra como dois mundos distintos chegaram à mesma planta e a fundiram culturalmente.
A história mais citada sobre o mulungu envolve um terceiro nome, que carrega o peso do holocausto impingido aos escravizados: amansa-senhor. A narrativa é a seguinte: escravizados teriam preparado infusões da planta para sedar senhores de engenho e feitores, abrindo espaço para movimentos noturnos e encontros proibidos, dando algum respiro dentro do insuportável. A história circula em registros folclóricos, memórias orais e ensaios etnobotânicos. Sua comprovação documental direta é escassa; historiadores tratam-na com cautela, não como invenção, mas como o tipo de prática que, por razões óbvias, não deixaria rastro em arquivo. O que não é contestado é o nome, o que, muitas vezes, é o melhor documento que sobra.
A incorporação do mulungu nas práticas afro-brasileiras foi além da farmacologia de resistência. No candomblé e na umbanda, a planta entrou como elemento ritual e está associada a Oxalá, o orixá da criação e da paz, e a entidades ligadas ao sono tranquilo e à serenidade. O mulungu aparece em banhos de ervas e oferendas.

Quem quiser preparar hoje a infusão em casa encontrará, nessa experiência, algo que as bulas não descrevem. A casca seca, quando imersa em água quente, libera um líquido de cor âmbar escuro, entre o caramelo e o tabaco. O aroma é terroso, madeiroso e com uma nota adocicada,que alguns descrevem como próxima à baunilha — o que é bioquimicamente plausível, dada a composição de fenilpropanoides na casca. O sabor confirma parcialmente essa promessa e ao mesmo tempo a contradiz: há o amargor característico dos taninos, mas ele não é agressivo. Cede rápido. Fica um rastro mineral, quase como o de um vinho tânico que foi longe demais na extração. Trinta, quarenta minutos depois de beber a xícara, já dá para sentir que algo muda na sua musculatura dos ombros. Não é uma sonolência imediata, é um afrouxamento progressivo da tensão que existia latente no corpo e você nem percebia. Há então um peso agradável. Quem bebe de noite dorme; quem bebe de dia precisa sentar.
A mesma eficácia que torna o mulungu notável é a razão de impor cuidados. A planta não é recomendada para grávidas, lactantes e crianças, nem para quem faz uso de antidepressivos ou anti-hipertensivos, pois a sobreposição de efeitos sedativos e hipotensores pode ser problemática. Pessoas com arritmia ou insuficiência cardíaca também devem evitá-la. São restrições que qualquer fitoterapeutaconhece e que o comprador de um pacote na Amazondificilmente encontrará impressas no rótulo com a clareza devida.
O estatuto regulatório do mulungu no Brasil éconcomitantemente seu reconhecimento e seu labirinto. Por ser classificado como fitoterápico, e não como alimento, a planta não pode ser vendida como chá de supermercado ou produto de prateleira em lojas de alimentação natural. A Anvisa, com base na RDC 267/2005, exclui da categoria de alimentos as espécies vegetais com finalidade medicamentosa ou terapêutica. Em 2025, a agência suspendeu marcas de café que haviam acrescentado mulungu à fórmula sem autorização, num episódio que ilumina a lógica regulatória em jogo: a planta funciona, e justamente por isso não pode circular como se fosse erva-doce. O resultado prático é que redes como o Mundo Verde têm encontrado dificuldades crescentes para mantê-lo nas gôndolas sem incorrer em irregularidade.
Encontrá-lo, porém, não é difícil. Uma busca rápida na Amazon brasileira revela dezenas de ofertas de casca seca rasurada: a Granoi comercializa embalagens de 500 gramas com instrução de infusão; a Toplife Naturais e Veganos vende o quilo por menos de R$ 50; marcas como Dietsz, Iamaní, Rocha Saúde e Nutrichás completam uma oferta que mostra existir um mercado ativo. Nenhuma dessas embalagens pode dizer, nos termos legais da categoria de alimentos, para que serve o produto. Elas trazem apenas indicações como “uso tradicional” ou “relaxamento.
Chegamos ao século XXI com a planta ainda sendo mais comumente vista nas feiras livres, em maços de casca seca que são vendidos por poucos reais. Nesse contexto, o reconhecimento pela Farmacopeia Brasileira e pela Anvisa já é importante para abrir uma porta regulatória para que seu uso deixe de depender exclusivamente da cadeia de transmissão oral. Por outro lado, o caminho ainda parece longo até que o mulungu se torne um produto nacional de orgulho e reconhecimento, como o óleo de copaíba, a castanha de caju ou o açaí. Ainda é preciso florescer.








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