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O engenheiro e o artista

Como dois homens, sem nunca terem se cruzado, mudaram o que esperamos de um relógio


Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide

Há várias histórias de rivalidade no mundo do design, mas há também histórias de convicção. Esta é uma do segundo tipo. Gérald Genta e Kikuo Ibe nunca se conheceram, não competiram pelo mesmo cliente e, no fundo, nunca quiseram a mesma coisa. Um acreditava que um pedaço de aço podia carregar tanto significado quanto uma joia; outro acreditava que um relógio deveria ser tão confiável e durável a ponto de poder deixar um carro passar por cima dele sem medo de perder os ponteiros. Olhando em perspectiva, os dois estavam certos, cada um a seu modo, e fizeram história, mudaram o modo como vemos os relógios. E é exatamente por isso que colocá-los lado a lado é mais interessante do que parece à primeira vista.

O pano de fundo dos anos 1970 ajuda a explicar por que dois caminhos tão distintos puderam nascer quase ao mesmo tempo. Foi a década da Crise do Quartzo: os relógios movidos a bateria, precisos e baratos de produzir, tomaram uma fatia enorme do mercado que antes pertencia à relojoaria mecânica tradicional. Marcas centenárias fecharam as portas, ateliês inteiros de relojoaria artesanal desapareceram e, por um bom tempo, pareceu razoável apostar que o relógio de pulso, como objeto de desejo, tinha os dias contados.

Em 1970, a Audemars Piguet encomendou a um designer freelancer suíço algo até então impensável: um relógio esportivo de luxo, em aço, não em ouro, vendido a preço de uma peça de alta joalheria. Gérald Genta, inspirado pelo capacete de um mergulhador com seus parafusos expostos, entregou o Royal Oak. Uns anos depois, num restaurante, esboçaria num guardanapo o desenho do que viria a ser o Nautilus, que ele desenhou para a Patek Philippe.

O que essa década deixou em aberto não foi “quem vai vencer”, mas uma pergunta mais interessante: o que, afinal, faz um relógio valer a pena? Precisão, tradição e materiais nobres já não eram respostas que se sustentavam sozinhas. Foi nesse vácuo que duas pessoas, em lados opostos do mapa, responderam de formas completamente diferentes.

Hoje, esses dois relógios estão entre os mais cobiçados do mundo e mudaram profundamente o nicho dos relógios de luxo. O relógio de aço era associado a uma ferramenta de trabalho ou a um acessório de aventura. Era impensável pagar as fortunas que se pagam hoje por esses “tool watches”. O Royal Oak tem um preço médio de mercado de US$ 50 mil, podendo chegar a US$ 700 mil, em modelos com peças raras e maior complicação; o Nautilus começa nos US$ 120 mil, podendo bater também nos US$ 600 mil em certos modelos.

Genta nunca hierarquizou luxo por material e dizia se orgulhar tanto de peças que desenhou para a Timex quanto das que fez para a Patek Philippe. Para ele, o valor estava na ideia. Foi essa convicção, mais do que qualquer cálculo de mercado, que permitiu ao aço comum carregar o peso simbólico do ouro.

Do outro lado do mapa, um jovem engenheiro da Casio vivia sua própria obsessão. Uma obsessão nascida, segundo a lenda que a marca adora recontar, do dia em que deixou cair no chão um relógio que seu pai lhe dera e o viu se espatifar. A frase que Kikuo Ibe escreveu numa reunião interna era de uma simplicidade quase ingênua: “um relógio resistente que não quebre nem se cair”. Levou dois anos e mais de 200 protótipos destruídos, muitos deles jogados da janela do terceiro andar do prédio de pesquisa da Casio. Até que, em 1983, nasceu o DW-5000C, o primeiro G-Shock.

Ibe não estava tentando salvar nada nem provar que a Casio merecia um lugar de prestígio. Ele simplesmente não aceitava a ideia corrente e natural à época de que um relógio era por definição um objeto delicado. Sua convicção era estrutural, quase filosófica: um objeto que você usa todos os dias deveria proteger você, não o contrário. A resposta técnica foi suspender o mecanismo dentro do case, flutuando, amparado por amortecedores. Isso não nasceu de um esboço estético, e sim como resposta pura a uma pergunta de engenharia: como proteger o relógio de uma queda de dez metros? A forma veio depois, como consequência.

E é aqui que mora a coincidência mais deliciosa desta história. O Royal Oak, de 1972, e o DW-5000C, de 1983, compartilham a mesma geometria essencial: o octógono. Genta chegou até ali por puro instinto visual, olhando para um capacete de mergulho, daqueles de escafandrista, e enxergando ali uma forma que ainda ninguém tinha ousado usar num relógio de luxo. Ibe chegou ao mesmo lugar calculando estruturas de amortecimento de impacto, sem pensar em estética nenhuma. Um deles via design puro; o outro via necessidade de engenharia. Nenhum deles tinha familiaridade com o outro, viviam em mundos radicalmente diferentes, apesar de a paixão pelos relógios os aproximar. E ainda assim, separados por mais de 10 mil quilômetros e por uma década, os dois pousaram na mesma forma. É a prova de que, às vezes, o instinto estético e a lógica funcional simplesmente convergem, sem que ninguém tenha combinado nada.

O motivo pelo qual essa história ainda interessa não é só histórico. Ela descreve, com uma precisão quase perfeita, os dois eixos ao redor dos quais boa parte do consumo de objetos de desejo ainda gira hoje: a compra pela narrativa de status, raridade e herança, por um lado, e, por outro, a compra pela confiança quase afetiva de que um objeto nunca vai te decepcionar.

Um Nautilus de aço custa tanto hoje não porque o aço tenha ficado mais caro, mas porque Genta convenceu o mercado de que valor mora na ideia e na raridade, não no metal. É a lógica que sustenta toda a economia atual de listas de espera e faz com que colecionadores paguem ágios astronômicos por peças de metal comum.

O G-Shock vendeu mais de 100 milhões de unidades pelo argumento oposto: o de que confiabilidade tem valor próprio, sem precisar de status nenhum. Hoje, ele custa em média de US$ 40 a US$ 400, a depender do modelo. Não que ele não desperte também desejos baseados na narrativa, na história e na raridade. Os colecionadores podem pagar até US$ 10 mil por um DW-5000C original. E a própria Casio flerta abertamente com o terreno que Genta abriu décadas antes, com linhas em titânio e acabamento polido, como as séries Full Metal e MR-G.

Talvez a lição maior não seja sobre relógios, mas sobre criatividade: um objeto pode conquistar o mundo por caminhos opostos e igualmente legítimos no mercado, como a promessa de pertencimento ou a promessa de invulnerabilidade. Gérald Genta e Kikuo Ibe não se conheceram. Mas, entre um guardanapo de restaurante genebrino e a janela de um banheiro em Tóquio, cada um a seu modo, desenharam razões para continuarmos comprando relógios até hoje.

www.instagram.com/theskepticalhedonist

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