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A cadeira vazia do empresário estadista

A morte do ex-presidente da Fiesp da época da abertura expõe a falta de lideranças empresariais capazes de pensar o Brasil para além dos interesses imediatos.

O Brasil já produziu empresários que também eram formuladores de projetos nacionais. Hoje produz bilionários, financistas, empreendedores de sucesso e executivos globais. O que produz cada vez menos são lideranças empresariais capazes de influenciar o debate público para além dos interesses imediatos de seus setores. A morte de Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, aos 87 anos, ajuda a entender essa transformação.

Presidente da Fiesp, a mais poderosa entidade industrial do país, entre 1980 e 1986, Vidigal pertenceu a uma geração que incluía Mário Amato, Antônio Ermírio de Moraes e Cláudio Bardella. Eram industriais que conversavam com ministros da Fazenda, participavam da formulação de políticas públicas, pressionavam governos, opinavam sobre desenvolvimento econômico e entendiam que a indústria precisava ter uma voz institucional na construção do país.

Sua eleição para a presidência da Fiesp, aos 41 anos, teve significado especial. Em 1980, o Brasil iniciava a abertura política, o regime militar dava sinais de esgotamento e a economia mergulhava na combinação tóxica de inflação elevada, baixo crescimento e crise da dívida externa. Naquele momento, Vidigal defendia que o empresariado deixasse de ser apenas um interlocutor ocasional do governo para assumir um papel permanente na formulação de um novo projeto nacional.

Muito antes de Lula chegar à Presidência, ele e Luís Eulálio representavam lados opostos de uma das transformações mais importantes da economia brasileira: a substituição da repressão estatal pela negociação institucional entre capital e trabalho. Um falava pela indústria paulista; o outro, pelos metalúrgicos do ABC. De campos distintos, ajudaram a construir as regras do jogo democrático que ainda hoje estruturam as relações industriais no país. Essa talvez tenha sido sua maior contribuição.

Mas sua trajetória também revela as profundas contradições do capitalismo brasileiro. Vidigal nunca foi um liberal no sentido clássico da palavra. Era fruto do modelo de substituição de importações, dos mercados protegidos, do crédito subsidiado e dos grandes investimentos estatais. A Cobrasma, empresa que comandou e que se tornou uma das maiores fabricantes brasileiras de equipamentos ferroviários e bens de capital, era uma das maiores beneficiárias daquele modelo.

Ao mesmo tempo, defendia a economia de mercado, a abertura política e uma participação mais ativa do empresariado no debate público. A contradição, porém, não era exclusivamente sua. Era a contradição de toda uma geração. Os mesmos industriais que defendiam a livre iniciativa dependiam de tarifas de importação, financiamentos públicos e encomendas do Estado. Os mesmos empresários que criticavam a intervenção governamental prosperaram durante décadas sob um modelo altamente protegido. E muitos dos que defendiam maior influência sobre a política econômica resistiam às reformas que aumentariam a concorrência e a produtividade da própria indústria.

A própria história da Cobrasma simboliza esse paradoxo. A empresa cresceu durante o ciclo da industrialização pesada patrocinada pelo Estado, mas entrou em declínio quando a crise fiscal, a hiperinflação, os sucessivos planos econômicos e a redução dos investimentos públicos desmontaram aquele modelo de desenvolvimento. O próprio Vidigal reconheceria mais tarde que, como tantos empresários de sua geração, apostou excessivamente nos incentivos criados pelo chamado “Brasil Grande”.

Talvez seja justamente essa ambiguidade que torne sua trajetória tão relevante. Luís Eulálio representava, ao mesmo tempo, as virtudes e as limitações da elite industrial brasileira. Era um empresário que pensava o país, mas também um empresário moldado por um sistema econômico cuja sustentabilidade acabou se mostrando limitada. Quatro décadas depois, o contraste é evidente.

O Brasil possui um setor privado mais sofisticado, um mercado de capitais mais desenvolvido e alguns casos industriais capazes de competir globalmente, como a Embraer. Mas eles ainda são exceções. O país continua produzindo poucas Embraers e muitas Cobrasmas: empresas dependentes de proteção, crédito público, encomendas estatais e ciclos políticos que desaparecem quando o modelo que as sustenta se esgota.

Hoje há excelentes executivos, investidores influentes e lobistas eficientes. Há quem fale sobre tributação, juros, regulação ou segurança jurídica. Poucos, porém, conseguem construir uma agenda mais ampla para produtividade, educação, infraestrutura, inovação e competitividade nacional.

A cadeira que Luís Eulálio ocupava não era apenas a da presidência da Fiesp. Era a do empresário que acreditava que liderar uma companhia significava também participar da construção do país.

Essa cadeira permanece vazia.

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