Meta Pixel

Quanto vale um Rubens Ometto?

Raízen oferece capital novo para preservar poder antigo, mas credores querem descontar governança da conta.

A Raízen tenta resolver uma crise de R$ 65 bilhões injetando dinheiro novo. Seus credores também querem colocar capital, mas exigem participação no equity e uma governança nova. Entre uma coisa e outra está Rubens Ometto, fundador da Cosan e presidente do conselho da Raízen. A pergunta que paira sobre a reestruturação da companhia não é mais apenas quanto capital entrará no negócio. Passou a ser quanto vale manter Ometto no comando — e quanto custaria retirá-lo.

Ometto não é um empresário substituível em uma planilha de credores. Aos 76 anos, ele carrega uma biografia empresarial rara. Construiu a Cosan a partir do açúcar e do etanol, levou uma companhia do interior paulista à Bolsa e expandiu o grupo para combustíveis, logística, gás, energia e infraestrutura. Com a Shell, montou a Raízen, uma das maiores empresas integradas de bioenergia do mundo.

O Brasil que produziu Rubens Ometto produz cada vez menos líderes parecidos. O país tem poucas lideranças capazes de transformar negócios familiares em grupos relevantes e sustentar visão de longo prazo em um ambiente de juros altos, regulação instável e política imprevisível. Empresas de dono costumam ter rumo. Controladores atravessam ciclos, sustentam investimentos contra a maré, tomam decisões corajosas e imprimem cultura empresarial. A Raízen talvez nunca tivesse existido sem esse tipo de liderança.

Ometto também cultivou uma narrativa à altura da própria obra. A biografia escrita por Aguinaldo Silva, autor conhecido por novelas, apresenta “o homem e as ideias” por trás de um “caso exemplar de sucesso corporativo”, um “inconformista” capaz de inspirar líderes no Brasil e no mundo. A linguagem importa. Ela mostra como a história da Cosan foi sendo contada como extensão da personalidade de seu fundador. Isso não é necessariamente um defeito. Grandes empresas de dono costumam nascer dessa mistura de visão, ego e execução. Mas a escassez de liderança torna Ometto importante para a Raízen — talvez mais importante do que os credores gostariam de admitir.

Raridade, contudo, não é infalibilidade. O risco aparece quando a narrativa do fundador passa a proteger decisões que deveriam ser testadas com mais rigor pelo conselho de administração. O problema não é ter dono. É quando o dono fica grande demais para ser corrigido. Conselho bom existe para limitar excessos: impedir que convicção vire vaidade — e que a vaidade comande a própria empresa.

O problema é que Ometto já não chega ao debate da Raízen com o mesmo poder absoluto de antes. A tentativa da Cosan de entrar de forma relevante na Vale mudou a percepção sobre seu apetite de risco. A aposta na mineradora pressionou o balanço, elevou a complexidade financeira do grupo e acabou abrindo espaço para uma reconfiguração de poder. Com BTG Pactual e Perfin mais próximos da estrutura de capital, o comando da Cosan deixou de ser uma construção puramente pessoal e passou a ser mais compartilhado. Ometto perdeu a exclusividade na Cosan.

É esse deslocamento que agora aparece na Raízen. Credores não pedem apenas capital. Querem equity, fiscalização e capacidade de interferir na alocação de recursos. A proposta fala em usar parte da venda de ativos na Argentina para reduzir dívida, reforçar a governança e retirar Ometto da liderança. Bondholders chegaram a defender uma injeção de R$ 8 bilhões, segundo a Bloomberg. A resposta da Raízen segue outra lógica: Shell e Ometto já prometeram R$ 4 bilhões, a empresa busca mais R$ 2,5 bilhões a R$ 5 bilhões e aceita algum monitoramento, mas resiste a mexer no centro do poder.

Essa resistência é compreensível — e problemática. Para a Raízen, afastar Ometto seria admitir que a crise não nasceu apenas de juros altos, capex pesado, safra ruim, incêndios, desalinhamento operacional ou atraso no retorno dos investimentos. Seria reconhecer que a governança também entrou na conta. Para os credores, manter a mesma arquitetura de comando pode parecer uma forma cara de preservar uma estrutura que eles já não querem financiar sem contrapesos.

O paradoxo é que Ometto vale muito justamente porque construiu muito. Sem ele, talvez não existisse a Raízen como ela é hoje. Com ele, os credores temem que a companhia continue presa à lógica que a levou à maior recuperação extrajudicial recente do país. A Raízen oferece capital para preservar a experiência de um capitão de indústria. Os credores querem aportar recursos, transformar dívida em equity e impor uma troca de comando. Entre uma coisa e outra está o preço de Rubens Ometto.

One response to “Quanto vale um Rubens Ometto?”

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading