Durante décadas, a Cosan foi uma máquina de acumular ativos. Açúcar, etanol, distribuição de combustíveis, ferrovias, gás natural, lubrificantes e até uma participação bilionária na Vale foram reunidos em um dos conglomerados mais ambiciosos do Brasil. A lógica era simples: construir um grupo capaz de atravessar ciclos econômicos e capturar oportunidades em diferentes setores. Agora, pela primeira vez em muito tempo, diante do alto endividamento, a pergunta já não é o que comprar, mas o que conseguir manter.
A recuperação extrajudicial da Raízen oferece uma pista importante. O plano divulgado na semana passada prevê uma diluição quase total dos atuais acionistas. Credores podem ficar com cerca de 83% do capital da companhia, enquanto Shell e Cosan passariam a deter participações residuais. Quando um grupo enfrenta a possibilidade de perder a maior parte de sua exposição econômica a um ativo que já foi sua principal plataforma de crescimento, é preciso prestar atenção. O objetivo já não é maximizar a expansão, mas preservar liquidez.
Nesse contexto, os rumores envolvendo a Rumo, braço ferroviário da Cosan, ganham uma leitura diferente. A notícia sobre uma possível venda de controle da operadora chamou atenção porque atingiria o coração do grupo. A própria Cosan, porém, afirmou que não há, até o momento, qualquer definição que implique a venda de controle de qualquer empresa do grupo. Também reforçou que sua prioridade estratégica segue voltada à desalavancagem e à simplificação da estrutura.
A distinção importa. Vender uma participação minoritária na Rumo, monetizar ativos da Radar, usufruir do IPO da Compass ou negociar a Moove são movimentos compatíveis com uma estratégia de desalavancagem. Vender o controle da Rumo, porém, seria algo muito mais profundo. Seria admitir que ativos antes tratados como estratégicos deixaram de ser intocáveis.
A verdadeira história da Cosan não é uma liquidação. É uma hierarquização. O conglomerado construído por Rubens Ometto parece estar sendo reorganizado em torno de poucos ativos considerados essenciais, agora em um contexto no qual BTG Pactual e Perfin também se tornaram acionistas relevantes da holding. A Raízen, pressionada por dívida, execução operacional e condições difíceis de mercado, tornou-se o principal teste desse processo. Rumo e Compass, por outro lado, surgem como os ativos que o grupo ainda tenta proteger.
Conglomerados costumam ser avaliados por aquilo que conseguem comprar. Em momentos de estresse, porém, revelam seu caráter por aquilo que se recusam a vender. A próxima fase da Cosan será definida menos pelos ativos que decidir monetizar e mais por aqueles que escolher manter. O mercado finalmente descobrirá quais são as verdadeiras joias da coroa.







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