By Brazil Stock Guide – A Compass Gás e Energia, braço de gás e energia da Cosan (CSAN3; CSAN) e controladora da Comgás, avançou em uma oferta de ações que pode marcar a reabertura da janela de IPOs no Brasil. A operação será 100% secundária, sem emissão de ações novas pela Compass, e poderá movimentar até R$ 4,6 bilhões, considerando ações adicionais e suplementares, com base no ponto médio da faixa indicativa de preço.
A faixa indicativa da oferta foi definida entre R$ 28 e R$ 35 por ação. No ponto médio, de R$ 31,50, a oferta-base soma R$ 2,8 bilhões. O montante pode subir para R$ 4,2 bilhões com ações adicionais e chegar a R$ 4,6 bilhões com a colocação também do lote suplementar. A precificação está prevista para 7 de maio, segundo a apresentação de roadshow e o prospecto preliminar da operação.
IPO destravado
A operação resolve uma dúvida que vinha cercando a listagem. Em discussões anteriores, a oferta era vista como uma combinação de emissão primária e venda secundária. O problema é que, em uma oferta primária, os recursos iriam para a Compass. Para chegar à Cosan, teriam de ser distribuídos depois via dividendos, uma triangulação mais cara e menos direta para investidores.
Agora, a tese ficou mais simples. A Compass não está indo à Bolsa para levantar capital novo. A oferta é uma venda de ações já existentes por acionistas vendedores, incluindo a Cosan, veículos da Atmos, Bradesco, Brasil Capital, Bússola e Manaslu. Isso desloca o foco da necessidade de capital da Compass para a monetização de ativos pelos atuais acionistas.
Oferta mais limpa
O passo decisivo foi a cisão parcial e desproporcional da Cosan Dez Participações, veículo que concentrava a participação indireta da Cosan na Compass. Com a operação, a Cosan passou a deter diretamente parte da companhia e pôde aparecer como acionista vendedora na oferta.
Essa mudança não altera o capital social nem o patrimônio líquido da Cosan, mas tem efeito prático relevante: permite que a companhia venda ações da Compass diretamente ao mercado. No fato relevante, a Compass informou que a oferta inicial envolve 89,3 milhões de ações ordinárias e que a quantidade pode ser acrescida por ações adicionais e suplementares.
PASS3 na B3
A Compass pretende migrar para o Novo Mercado, segmento de maior governança da B3, e suas ações passarão a ser negociadas sob o ticker PASS3 a partir do segundo dia útil após a divulgação do anúncio de início da oferta. Para cumprir as regras do Novo Mercado, a companhia converteu suas ações preferenciais em ordinárias, deixando o capital social composto exclusivamente por ações ON.
A listagem é relevante porque o mercado brasileiro está há anos sem uma janela consistente de IPOs. Se a Compass conseguir precificar a oferta dentro da faixa e atrair demanda suficiente, a operação pode funcionar como referência para outras companhias que aguardam melhora de mercado.
Caixa para a Cosan
Para a Cosan, o IPO da Compass tem uma função financeira clara. O grupo vem tentando reduzir a pressão sobre sua estrutura de capital após a antiga aposta em Vale, cuja posição já foi vendida, mas cuja dívida ainda pesa no balanço. A monetização da Compass entra nesse processo de reorganização, ao lado de outras potenciais vendas de ativos.
O movimento também acontece enquanto a Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, passa por reestruturação extrajudicial. Isso torna mais sensível a leitura sobre o uso dos recursos levantados com a Compass. A operação pode aliviar a Cosan, mas também reforça a pergunta sobre quanto capital o grupo ainda precisará liberar para lidar com seus compromissos financeiros e com as pressões dentro do portfólio.
Teste de mercado
A Compass chega à Bolsa com um ativo considerado defensivo: gás natural, distribuição e infraestrutura energética. A companhia carrega a Comgás, maior distribuidora de gás canalizado do país, e tem uma história mais previsível do que empresas cíclicas ou dependentes de uma tese de crescimento distante.
Esse é justamente o teste. Se nem uma plataforma regulada de gás conseguir atrair demanda em bom preço, a volta dos IPOs no Brasil continuará restrita ao discurso. Se a oferta for bem-sucedida, a Compass pode abrir a primeira fresta real para novas listagens desde 2021.
Para a Cosan, o recado virá no preço. Uma demanda forte permitiria levantar recursos relevantes sem vender integralmente um dos ativos mais defensivos do grupo. Um desconto elevado, porém, mostraria que até uma companhia de gás saudável carrega o custo de capital do controlador.
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