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A vaca se move

Vaca Muerta cresce rápido. O problema argentino agora é fazer o shale sair do lugar.

Vaca Muerta está bem viva. Em meio ao ajuste duro da economia argentina, petróleo e gás andam na direção oposta. A produção nacional de O&G da Argentina já alcança cerca de 1,8 milhão de boe/d, e o shale responde por aproximadamente dois terços do total. A piada é irresistível: a vaca não está morta. Está produzindo.

Os números mostram uma bacia saindo da promessa para a escala. A YPF produziu 568 mil boe/d no 1T26, com o core não convencional em 422 mil boe/d, alta de 30% em um ano e já equivalente a 74% da produção da companhia. A Vista chegou a 133,8 mil boe/d, crescimento de 66%. A Pampa Energía avançou em Rincón de Aranda, que saiu de cerca de 1 mil boe/d para quase 20 mil boe/d em um ano. A produção convencional perde espaço. Vaca Muerta virou o verdadeiro motor energético da Argentina — e um dos poucos setores capazes de gerar os dólares que o país cronicamente não tem.

Esse sucesso muda a pergunta. Durante anos, a Argentina tentou provar que Vaca Muerta podia produzir em escala. Agora precisa provar que essa produção consegue sair do lugar. O gargalo deixou de ser principalmente geológico. Passou a ser logístico, financeiro e institucional. Shale sem dutos, processamento, portos e contratos não é plano de salvação macroeconômica.

É por isso que o VMOS, o projeto Vaca Muerta Oil Sur, importa. O oleoduto de 437 quilômetros foi desenhado para levar o petróleo de Vaca Muerta até um porto no Atlântico, na província de Río Negro. Apoiado por YPF, Vista, Pampa Energía, Pan American Sur e outras companhias, o projeto já obteve um financiamento de $2 bilhões e deve começar transportando cerca de 180 mil barris por dia no fim deste ano, com capacidade prevista de 550 mil barris por dia em 2027. Se entregue, pode transformar Vaca Muerta de uma bacia doméstica em rápida expansão em uma plataforma relevante de exportação.

Mas infraestrutura é justamente o ponto em que o otimismo argentino costuma encontrar a realidade argentina. O presidente da YPF, Horacio Marín, disse que as obras do oleoduto estão mais da metade concluídas, enquanto porto, boias e trecho offshore ainda precisam ser finalizados. Esse detalhe importa. Em óleo e gás, duto em construção não é fluxo de caixa. Porto em apresentação de PPT não é exportação. O mercado pode precificar a promessa antes de o petróleo chegar ao navio, mas os barris só contam quando se movem.

Vaca Muerta avançou o suficiente para ganhar um problema mais difícil. A bacia pode ser geologicamente competitiva, mas ainda depende de regras estáveis, câmbio funcional, acesso a financiamento, contratos respeitados e infraestrutura entregue no prazo. A produtividade dos poços pode melhorar enquanto o desconto argentino continua cobrando pedágio. A história do shale argentino, portanto, já não é sobre saber se a vaca produz. Ela produz. A pergunta agora é se a Argentina consegue construir, com rapidez e credibilidade, o sistema ao redor dela. A vaca se move. Mas, em óleo e gás, volume sem saída não vira crescimento, mas sim estoque.

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