By Brazil Stock Guide – O Brasil deixou de ser vítima da alta do petróleo — e passou a se beneficiar dela. Um novo relatório do BTG Pactual indica que o país atravessou uma mudança estrutural em suas contas externas, fazendo com que preços mais altos do Brent passem a melhorar, e não piorar, o saldo comercial e a conta corrente. Em 2026, um aumento de US$10 por barril é estimado em elevar o saldo comercial e a conta corrente em cerca de US$5,9 bilhões, enquanto uma alta de 10% no Brent gera um ganho de aproximadamente US$3,7 bilhões e reduz o déficit em conta corrente em cerca de 0,16 ponto percentual do PIB.
O ponto de inflexão remonta a 2016, quando o Brasil se tornou efetivamente um exportador líquido de petróleo, descoberto no pré-sal uma década antes. Antes disso, as contas externas eram estruturalmente expostas à alta dos preços, já que as importações de petróleo e derivados superavam as exportações. No início dos anos 2000, um aumento de US$10 no Brent piorava a conta corrente em cerca de US$1,2 bilhão. Hoje, o mesmo choque gera um efeito positivo próximo de US$5,9 bilhões — o maior da série histórica.
A mecânica é simples, mas decisiva. Na janela móvel de 12 meses até fevereiro de 2026, o impacto positivo é amplamente puxado pelas exportações de petróleo bruto, que sozinhas contribuem com cerca de US$7,5 bilhões em um cenário de choque de US$10 por barril. Esse efeito é parcialmente compensado por custos maiores de importação de derivados — especialmente diesel (−US$1,5 bilhão) e petróleo bruto (−US$1,0 bilhão) — mas o saldo líquido permanece fortemente positivo. A exposição do Brasil agora está mais concentrada na exportação de petróleo de alto valor do que na importação de combustíveis refinados.
De passivo a hedge
A análise do BTG mostra que a mudança não é cíclica, mas estrutural. No início dos anos 2000, um aumento de 10% no Brent ampliava o déficit em conta corrente do Brasil em cerca de 0,05 ponto percentual do PIB. Em 2026, o mesmo choque reduz o déficit em aproximadamente 0,16 ponto percentual, refletindo a transição do país para um exportador de commodities com forte alavancagem aos preços de energia. Estimativas históricas confirmam a tendência: a sensibilidade passou de −US$0,3 bilhão para +US$3,7 bilhões sob um choque de 10% ao longo do período.
Isso ajuda a explicar por que a recente alta do petróleo está reforçando a posição externa do Brasil na margem, mesmo elevando os custos domésticos de combustíveis. O saldo comercial já vem se fortalecendo desde o 4T25, impulsionado principalmente por maiores volumes de exportação — especialmente de petróleo bruto — e não apenas pelos preços. O crescimento da produção está agora amplificando o efeito dos preços.
Produção e volumes importam
A produção de petróleo do Brasil atingiu cerca de 4,1 milhões de barris por dia em fevereiro de 2026, um nível recorde. Esse avanço se traduz diretamente em maiores volumes exportados, reforçando o superávit comercial. Ao mesmo tempo, o aumento recente do Brent ainda não foi totalmente refletido nos dados de comércio, devido aos defasagens típicas de preços e ajustes contratuais. O BTG espera que os efeitos positivos se tornem mais visíveis nos próximos meses.
O banco projeta um superávit de US$48 bilhões na balança comercial de petróleo e derivados em 2026 — um novo recorde — com exportações próximas de US$78 bilhões e importações em torno de US$30 bilhões. Para 2027, o superávit deve permanecer elevado, em cerca de US$45 bilhões. A análise de cenários mostra a sensibilidade do quadro aos preços do petróleo: com o Brent a US$100, o superávit comercial total do Brasil pode atingir cerca de US$93 bilhões em 2026 e US$104 bilhões em 2027. Em um cenário mais extremo, com o Brent a US$150, o superávit pode chegar a US$114 bilhões e US$138 bilhões, respectivamente. Já uma queda para US$70 reduziria o saldo para aproximadamente US$80 bilhões e US$85 bilhões.
Não é ganho puro
Ainda assim, os ganhos não são lineares. Preços mais altos do petróleo também elevam a conta de importação de insumos-chave, como fertilizantes, além de pressionar custos globais de frete. O BTG estima que, embora o superávit de petróleo e derivados tenha sido revisado de US$36 bilhões para US$48 bilhões em 2026, parte desse ganho é compensada por cerca de US$1,5 bilhão em maiores importações de fertilizantes. Por outro lado, preços mais elevados de outras commodities exportadas adicionam cerca de US$4,5 bilhões, mantendo o saldo geral positivo.
Como resultado, o BTG revisou sua projeção para o superávit comercial total do Brasil para US$90 bilhões em 2026 (ante US$75 bilhões) e US$90 bilhões em 2027 (ante US$80 bilhões). O déficit em conta corrente agora deve recuar para 2,3% do PIB em ambos os anos, abaixo dos 3,0% registrados em 2025.







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