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Crédito consignado, renda comprometida

O crédito mais seguro do sistema avança sobre a renda — com baixo risco para o banco e custo persistente para o tomador.

O crédito consignado foi desenhado para ampliar o acesso ao crédito a taxas baixas, com risco praticamente zero — mas o efeito hoje tem sido outro. Instituído no início dos anos 2000, o modelo permitiu descontar parcelas diretamente da folha de pagamento ou do benefício previdenciário. Ao atrelar o pagamento à renda, o Brasil construiu uma das formas mais seguras de crédito do sistema financeiro. Mas essa segurança tem sido maior para o banco do que para o tomador.

Ao garantir o desconto automático, especialmente para aposentados, servidores públicos e trabalhadores formais, o consignado reduziu a inadimplência e abriu espaço para juros inferiores aos de outras modalidades. Funcionava como alternativa ao crédito mais caro. Com o tempo, porém, tornou-se algo diferente: um mecanismo de comprometimento permanente da renda.

Dados do Banco Central revelados nesta semana mostram o tamanho do problema. Cerca de 24 milhões de brasileiros utilizam crédito consignado, com saldo próximo de R$680 bilhões — algo em torno de 6% do PIB. Desse total, aproximadamente 14,5 milhões são beneficiários do INSS e cerca de 7,5 milhões são servidores públicos, evidenciando a concentração do crédito justamente onde a renda é mais previsível — e, portanto, mais facilmente capturada. O comprometimento médio da renda gira em torno de 35%, próximo ao limite regulatório de 45%. Mais relevante, o número de pessoas com mais de 40% da renda comprometida cresceu 170% nos últimos anos.

A lógica do produto ajuda a explicar essa dinâmica. As parcelas são descontadas automaticamente antes que o salário ou benefício esteja disponível. Isso reduz a fricção do pagamento — mas também elimina a percepção do custo. O crédito deixa de competir com outras despesas, pois ele se antecipa a elas.

Mesmo sendo considerado um crédito “mais barato”, o consignado ainda carrega taxas elevadas em termos absolutos. Em 2024, a taxa média girava em torno de 23,4% ao ano — um nível alto para um produto com risco extremamente baixo. A inadimplência nessa modalidade costuma ficar próxima de 2% a 3%, podendo ser ainda menor em operações com aposentados e servidores públicos.

Se o crédito rotativo é marcado pelo custo elevado e pela rápida deterioração da dívida, o consignado segue uma lógica distinta. As taxas são menores, mas os prazos são longos — frequentemente entre seis e oito anos. Para um trabalhador que se aposenta próximo à idade mínima, ao redor de 65 a 66 anos, isso significa carregar dívida por boa parte da aposentadoria. Juros moderados, aplicados por longos períodos, tornam-se estruturalmente elevados.

A distribuição desse risco tampouco é neutra. O consignado é mais utilizado por idosos, mulheres e pessoas de menor renda — grupos com menor capacidade de absorver choques financeiros. Ao mesmo tempo, é o produto financeiro com maior volume de reclamações no sistema.

Por que, então, o consignado gera esse efeito? Porque reduz o risco para o credor, mas não limita o comprometimento do tomador. A margem consignável define um teto, mas não impede que ele seja continuamente utilizado. Ao longo do tempo, ampliações desse limite aumentaram a capacidade de endividamento — e, com ela, a parcela da renda já comprometida antes mesmo de ser recebida.

Como melhorar o consignado? Exige rever o limite efetivo de comprometimento da renda, melhorar a transparência sobre o custo total ao longo do tempo e, sobretudo, reduzir a dependência do crédito como complemento permanente do orçamento. Sem isso, o consignado continuará funcionando como uma solução que se transforma em restrição.

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