O Brasil tentou domar o crédito rotativo do cartão — e, ainda assim, ele segue no centro do endividamento das famílias. Nos últimos anos, uma sequência de medidas buscou conter seus excessos: limite de uso a 30 dias, migração obrigatória para parcelamento, teto para encargos e mudanças na forma de apresentação das faturas. Nada disso foi trivial. Ainda assim, o diagnóstico mais recente do Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central é inequívoco: mais da metade dos usuários de cartão carrega dívida com juros — 52,8 milhões de pessoas. O principal instrumento de pagamento do país continua sendo, ao mesmo tempo, o principal canal de endividamento.
O ponto de partida ajuda a explicar o impasse. O rotativo não nasceu como um produto de longo prazo. Surgiu, nos anos 1990, como uma solução de curto prazo: permitir o pagamento mínimo da fatura para evitar inadimplência imediata, financiando o restante com juros. Funcionava como um amortecedor. Com o tempo, tornou-se um mecanismo recorrente de refinanciamento, especialmente quando combinado com parcelamentos sucessivos e novos gastos. A regulação a partir de 2017 tentou resgatar essa lógica original — limitar o uso e forçar a migração para linhas teoricamente mais baratas. Mas o fluxo que leva o consumidor até o rotativo permaneceu intacto.
Os dados mostram que esse fluxo é estrutural. O número de usuários de cartão cresceu rapidamente, com mais de 37 milhões de novos entrantes em quatro anos, muitos com pouca experiência em um produto complexo. Ao mesmo tempo, o peso do cartão no orçamento aumentou: o comprometimento médio de renda com gastos no cartão subiu de 38,5% para 54% entre 2020 e 2024. Mais relevante, o comprometimento com dívidas com juros dobrou no período. Mais gente entrou no sistema — e uma parcela crescente passou a operar nas modalidades mais caras.
A mecânica que sustenta esse processo é simples — e persistente. Quando o consumidor não paga o valor total da fatura, o saldo entra no rotativo, com juros frequentemente na casa de dois dígitos ao mês. Após 30 dias, como determina a regulação, essa dívida é convertida em parcelamento — ainda com custo elevado. O ponto crítico está no que acontece depois. O cartão continua ativo, novos gastos são feitos e, diante de uma nova fatura que não fecha, o processo se repete. O resultado não é permanência contínua no rotativo, mas retorno recorrente a ele.
Um exemplo simples ilustra o problema. Uma dívida de R$ 10 mil no rotativo, com juros próximos de 15% ao mês, pode chegar a cerca de R$ 11,5 mil em apenas 30 dias. Após esse período, o saldo é convertido em parcelamento — ainda com taxas elevadas. Se, no mês seguinte, o consumidor volta a utilizar o cartão e não consegue pagar a nova fatura integralmente, parte dessa dívida retorna ao rotativo. Uma sequência de ciclos contínuos.
A distribuição desse risco tampouco é neutra. Mulheres, jovens e pessoas de menor renda apresentam maior comprometimento de renda com dívidas no cartão, acima da média do sistema. Quem mais depende do crédito é, com frequência, quem paga as taxas mais altas. O rotativo, nesse contexto, funciona como amplificador de desigualdade social.
Por que, então, as medidas não resolveram o problema? Porque atuaram sobre o estoque da dívida, não sobre o fluxo que a gera. Limitar o tempo no rotativo ou o montante de juros reduz extremos, mas não impede que milhões de pessoas cheguem até ele todos os meses. A combinação de renda pressionada, uso intensivo do cartão e facilidade de acesso ao crédito mantém a engrenagem em funcionamento. O sistema corrigiu o excesso, mas preservou o mecanismo que gera o endividamento.
Há solução? Sim. Exige ampliar o acesso a linhas mais baratas antes que o consumidor entre no rotativo, repensar a arquitetura de escolha das faturas — tornando o pagamento integral o padrão efetivo, não apenas sugerido — e, sobretudo, reduzir a dependência do rotativo como complemento de renda. Sem isso, qualquer ajuste tende a ser parcial.







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