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Realidade do crédito privado

Quando duas grandes empresas recorrem à reestruturação extrajudicial no mesmo dia, dificilmente se trata de coincidência. Os pedidos apresentados por Grupo Pão de Açúcar e Raízen indicam um movimento mais amplo: o mercado de crédito privado no Brasil entrou em uma fase mais cautelosa, com menor apetite a risco e menor confiança de que apenas os balanços corporativos sejam suficientes para avaliar a solidez financeira das empresas.

Nos dois casos, as companhias negociaram acordos temporários com credores que cobrem cerca de R$70 bilhões em obrigações enquanto reorganizam suas estruturas de dívida. Investidores já apontam outros potenciais pontos de pressão, incluindo Braskem, Companhia Siderúrgica Nacional e Oncoclínicas. Se essas preocupações se confirmarão ou não ainda é incerto. O fato relevante é que os credores passaram a demonstrar maior ceticismo.

A origem dessa mudança remonta à última década. Com a queda das taxas de juros e a expansão do mercado de capitais, o financiamento corporativo gradualmente migrou dos bancos para investidores institucionais. Debêntures, CRI, CRA e outros instrumentos dedicados ao crédito privado cresceram rapidamente. Hoje, o mercado de capitais responde por cerca de um terço do financiamento corporativo no Brasil — aproximadamente o dobro da participação registrada dez anos atrás.

Esse crescimento ampliou o acesso das empresas a recursos, mas também incentivou estruturas de capital mais agressivas. Enquanto o crescimento econômico se mantinha e o refinanciamento permanecia disponível, os riscos pareciam administráveis. No entanto, ciclos de crédito tendem a revelar fragilidades justamente quando as condições financeiras se tornam mais restritivas. O longo período de juros elevados no Brasil vem desempenhando esse papel.

O primeiro choque relevante ocorreu com o escândalo contábil da Americanas em 2023, que expôs falhas de governança e abalou a confiança nas demonstrações financeiras auditadas. Desde então, investidores passaram a examinar com maior rigor empresas com elevado nível de endividamento ou forte dependência de refinanciamento.

Com custos de financiamento mais altos, o ajuste começa a se tornar inevitável. Credores que antes esperavam refinanciamentos relativamente tranquilos agora enfrentam a perspectiva de reestruturações de dívida e eventuais perdas financeiras.

A gestora global Franklin Templeton afirmou recentemente ao Brazil Journal que passou a adotar critérios mais rigorosos em sua estratégia de crédito no Brasil após os episódios recentes de inadimplência e reestruturação. Segundo executivos da gestora, a análise de balanços já não é suficiente: fatores como governança corporativa, estrutura de controle e avaliação qualitativa de risco ganharam peso crescente nas decisões de investimento.

Esses episódios também reacendem o velho debate sobre o papel de auditores e agências de classificação de risco. Ambos dependem, em grande medida, das informações fornecidas pelas próprias empresas. Quando fragilidades só se tornam visíveis após uma crise pública, investidores inevitavelmente questionam por que sinais de alerta não foram identificados antes.

O mercado de crédito privado brasileiro não enfrenta um colapso. O que ocorre é um processo de pouso forçado. Spreads mais amplos, diligência mais rigorosa e maior atenção à governança devem marcar o próximo ciclo.

Espera-se que o Banco Central inicie um ciclo de queda de juros nos próximos meses, o que pode aliviar parte da pressão sobre empresas altamente alavancadas — ainda que a confiança dos investidores não se recupere imediatamente.

Agora, o risco é que um mercado de crédito mais seletivo acabe funcionando também como freio para a atividade econômica.


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