By Brazil Stock Guide — A Petrobras (PETR3, PETR4) está usando o Cade para tentar influenciar a estrutura competitiva do mercado de embarcações de apoio offshore, um elo pouco visível, mas crítico, da cadeia do pré-sal brasileiro.
O movimento apareceu em dois atos de concentração recentes. No primeiro, envolvendo a aquisição da Wilson Sons Ultratug pela Tidewater, a Petrobras tentou ingressar no processo como terceira interessada e recorreu da aprovação sem restrições da operação. O Cade rejeitou o pedido da estatal, não conheceu o recurso e confirmou a aprovação do negócio sem imposição de remédios. A transação foi concluída.
Agora, a Petrobras voltou ao Cade no ato de concentração entre OceanPact (OPCT3) e CBO, operação anunciada em fevereiro e notificada ao órgão antitruste em abril. Desta vez, a Superintendência-Geral do Cade admitiu a Petrobras como terceira interessada, e a estatal apresentou dados sobre licitações, embarcações estrangeiras bloqueadas e barreiras regulatórias à entrada no mercado brasileiro de apoio marítimo offshore.
A operação OceanPact-CBO combina duas empresas brasileiras de serviços offshore por meio da incorporação da CBO pela OceanPact. Segundo dados apresentados no processo do Cade, a companhia combinada teria 73 embarcações de apoio offshore, ou OSVs, no mercado mais amplo: 28 da OceanPact e 45 da CBO. Isso daria à empresa resultante participação de 15,4% no mercado total de OSVs considerado no processo.
O número agregado, porém, esconde segmentos mais sensíveis. As preocupações da Petrobras estão concentradas em tipos específicos de ativos essenciais à produção offshore. O mais importante deles é o segmento de RSVs, ou ROV Support Vessels, embarcações usadas em intervenções submarinas e operações com veículos operados remotamente.
Nesse recorte mais estreito, OceanPact e CBO teriam juntas 14 embarcações — nove da OceanPact e cinco da CBO — equivalentes a 40% de um mercado de 35 RSVs. Se consideradas apenas as embarcações de bandeira brasileira, a participação combinada subiria para 45%.
Esse é o centro da disputa. A Petrobras argumenta que o mercado não deve ser analisado de forma ampla demais. Na visão da estatal, OSV é uma categoria genérica, que reúne embarcações com funções muito diferentes. Uma plataforma de suprimento não é necessariamente substituta de uma embarcação submarina. Uma embarcação de resposta a derramamento de óleo exerce papel distinto de um navio desenhado para apoio a ROV. Para uma empresa que opera campos em águas profundas e no pré-sal, essas diferenças importam.
OceanPact e CBO rejeitam a leitura da Petrobras. Nos documentos entregues ao Cade, as empresas afirmam que a operação não gera preocupações concorrenciais, que o mercado de apoio offshore continua altamente competitivo e que a própria Petrobras detém poder de compra relevante. Elas também sustentam que os temas regulatórios citados pela estatal são anteriores à transação e não podem ser tratados como efeito da fusão.
Um dos pontos mais disputados é o papel das embarcações estrangeiras. A Petrobras argumenta que a concorrência externa é menos simples do que as empresas sugerem, porque a regulação brasileira dá preferência a embarcações de bandeira brasileira ou registradas no regime especial brasileiro. Antes que uma embarcação estrangeira possa ser afretada, o mercado precisa passar pelo chamado processo de circularização na Antaq, a agência reguladora do transporte aquaviário, para verificar se há embarcação brasileira adequada disponível.
OceanPact e CBO afirmam que isso não representa uma barreira permanente. Na visão das empresas, uma embarcação estrangeira bloqueada não está proibida de operar no Brasil; ela pode apenas ser impedida de atender um contrato específico caso exista embarcação brasileira ou equivalente disponível. As companhias também argumentam que embarcações estrangeiras podem entrar no Brasil por diferentes vias legais e que muitas já operam no país.
As empresas citam dados segundo os quais o Brasil tinha 473 embarcações de apoio offshore em operação em dezembro de 2025, incluindo 90 de bandeira estrangeira, ou 19% do total. Um relatório separado da Abeam, de fevereiro de 2026, apontava 481 embarcações de apoio no Brasil: 390 de bandeira brasileira e 91 de bandeira estrangeira.
Os dados do mercado mais amplo favorecem o argumento de OceanPact e CBO de que a empresa combinada não seria dominante na maioria das categorias. No mercado total de OSVs, a companhia resultante teria 15,4%. Em PSV/OSRV, teria 40 embarcações, ou 19,7% de um mercado de 203 embarcações. Em subsea, excluindo PLSV, teria 16 embarcações, ou 20,5%.
Mas o segmento de RSV continua sendo o ponto sensível. Na prática, a Petrobras está dizendo ao Cade que uma definição ampla de mercado pode subestimar riscos em embarcações especializadas. OceanPact e CBO rebatem que RSVs não devem ser tratados como um mercado fechado, porque outros tipos de embarcação podem ser adaptados para operações com ROV e a própria Petrobras define, em cada licitação, quais embarcações estão aptas a competir.
As empresas também usam dados de contratação da própria Petrobras para sustentar que há rivalidade forte. Segundo OceanPact e CBO, os dados da estatal mostram 64 procedimentos competitivos entre julho de 2021 e janeiro de 2026, com 39 empresas vencedoras diferentes e ao menos 11 grupos econômicos. A CBO venceu quatro dessas licitações e a OceanPact venceu outras quatro. Juntas, ganharam oito de 64 processos, ou 12,5% do total.
É nesse ponto que o caso deixa de ser apenas uma análise de fusão. A Petrobras não está simplesmente contestando a combinação de dois fornecedores. Ela tenta preservar poder de barganha e flexibilidade operacional em uma cadeia que sustenta seu sistema de produção offshore. A estatal desenha licitações, define especificações técnicas, estabelece prazos contratuais, organiza lotes e determina condições comerciais. Mas também depende de um universo relativamente pequeno de embarcações especializadas para manter o pré-sal operando.
Até a última movimentação analisada pelo Brazil Stock Guide, não havia decisão final no processo OceanPact-CBO. O passo mais recente registrado foi uma reunião em 15 de junho entre técnicos do Cade e advogados das empresas, após OceanPact e CBO apresentarem resposta aos argumentos da Petrobras.
A Petrobras não vê as embarcações de apoio offshore como fornecedores comuns. Ela as enxerga como parte da espinha dorsal operacional do pré-sal brasileiro — e quer ter voz sobre quem controla esses ativos.







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