Meta Pixel

Ultrapar e o Dilema das Holdings

Ultrapar estratégia holding e alocação de capital com Ipiranga e Rumo

Poucas empresas brasileiras mudaram de identidade tantas vezes quanto a Ultrapar. Fundada em 1937 pelo imigrante austríaco Ernesto Igel com a criação da Ultragaz, começou como distribuidora de gás de cozinha. Com o tempo, expandiu-se para petroquímica e até varejo — com a antiga rede Ultralar — antes de retornar ao seu núcleo energético. Ao abrir capital em 1999, listando também na NYSE, apresentou-se como uma holding de portfólio. Na prática, porém, a ambição era participar da consolidação da petroquímica brasileira em torno da Copene. A disputa acabou dominada pela Braskem, e a Ultrapar teve de procurar outro rumo.

Esse novo caminho surgiu em 2007, com a divisão dos ativos do grupo Ipiranga entre Petrobras, Braskem e Ultrapar. A companhia ficou com a distribuição de combustíveis e transformou-se em uma das maiores empresas de downstream do país. Durante mais de uma década, a Ipiranga tornou-se o principal motor de resultados, enquanto a Ultragaz consolidava sua posição no mercado de GLP.

Nos últimos anos, porém, o grupo iniciou outra reconfiguração de portfólio. Vendeu ativos que não entregaram retornos consistentes. As saídas simplificaram a estrutura e liberaram capital. Ao mesmo tempo, a margem da Ipiranga despencou e concorrentes regionais ganharam espaço, corroendo a confiança do mercado na capacidade de execução da companhia.

Mas o jogo parece mudar. A aquisição do controle da Hidrovias do Brasil abriu uma nova frente em infraestrutura logística. A recuperação da Ipiranga também ajudou. Hoje o grupo reúne combustíveis, GLP, terminais líquidos e transporte fluvial. A companhia passou a se descrever explicitamente como uma holding de alocação de capital, focada em reciclar recursos e reinvestir em negócios capazes de gerar retornos mais previsíveis ao longo do tempo.

Essa estratégia coloca a Ultrapar entre dois modelos brasileiros conhecidos. De um lado está a disciplina de holdings como a Itaúsa, que privilegia retornos previsíveis e dividendos, sustentados pela forte geração de caixa do Itaú Unibanco. Do outro está o estilo expansionista da Cosan, que construiu um portfólio complexo de energia e infraestrutura — mas cuja tentativa de ampliar influência sobre a Vale mostrou os custos de ambições excessivas.

No fundo, a Ultrapar tenta resolver um dilema clássico do capitalismo brasileiro: crescer sem perder disciplina de capital. A companhia parece buscar um espaço intermediário: crescer de forma seletiva, mantendo um balanço conservador e um fluxo de caixa robusto.

Por ora, os números sustentam essa ambição. Em 2025, a Ultrapar gerou cerca de R$ 5,5 bilhões de caixa operacional e registrou EBITDA recorrente de aproximadamente R$ 6,2 bilhões, desempenho sustentado principalmente pela Ipiranga e pela Ultragaz. Distribuiu R$ 1,4 bilhão em dividendos e manteve uma alavancagem moderada, em torno de 1,7 vez o EBITDA. Mesmo após a recuperação recente das ações, o valuation da Ultrapar gira em torno de seis vezes o EBITDA. É um múltiplo próximo ao da rival Vibra Energia. Em outras palavras, o mercado parece continuar pagando pelo desempenho operacional da Ipiranga, ainda não por uma nova tese de holding.

O desafio, porém, é bem conhecido. Holdings frequentemente negociam com desconto em relação à soma de suas partes — como mostra a experiência da Bradespar, cuja avaliação depende da participação na Vale. Para evitar esse destino, a Ultrapar precisará provar que faz mais do que apenas possuir participações: terá de demonstrar capacidade de comprar bem, melhorar operações e reciclar capital. Extrafarma é um exemplo de investimento que não funcionou como esperado. Hidrovias do Brasil, ao menos por enquanto, aponta na direção oposta.

Por enquanto, o paradoxo permanece. A nova estratégia depende justamente do sucesso do velho negócio. É o caixa da Ipiranga que financia dividendos, aquisições e a expansão logística. A eventual venda de uma fatia minoritária da Ipiranga poderia reforçar esse caixa. E a recente participação na Rumo, braço ferroviário da Cosan, sugere que a companhia não descarta investir também como acionista minoritária quando enxerga potencial de criação de valor.

Se essa nova reinvenção funcionar, a Ultrapar pretende fazer justamente o que boas holdings fazem: identificar setores com potencial de consolidação, adquirir participações a preços atrativos e aplicar disciplina operacional para extrair valor ao longo do tempo. Caso contrário, descobrirá o que muitas holdings aprendem tarde demais: o mercado raramente paga prêmio por conglomerados em busca de uma tese — especialmente quando o negócio que gera o caixa continua sendo o velho de sempre.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo