By Brazil Stock Guide – O PicPay (PICS) entra em sua fase mais importante desde o IPO: monetizar a base de clientes que construiu ao longo dos últimos anos. Para o BTG Pactual, a companhia deixou para trás o ciclo de crescimento baseado em cashback, marketing e aquisição acelerada de usuários, e agora entra em uma etapa em que poderá transformar escala em lucro recorrente.
O banco iniciou cobertura do PicPay, controlado pela J&F, grupo da família Batista, com recomendação de compra e preço-alvo de $20, cerca de 70% acima do preço de referência de $11,60 usado no relatório. A ação caiu cerca de 40% desde o IPO nos Estados Unidos, realizado em janeiro, quando a empresa levantou aproximadamente $400 milhões.
O relatório é assinado pelos analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale. A tese do BTG é que a queda deixou o papel barato para uma companhia que começa a mostrar aceleração de lucro. O banco estima que o PicPay negocie a 8 vezes o lucro esperado para 2026 e 4,3 vezes o lucro de 2027.
O principal ativo da empresa é sua base. O PicPay tem 67 milhões de clientes e 42,7 milhões de usuários ativos. Desse total, cerca de 15 milhões já usam a plataforma como conta principal. A oportunidade está apta vender ainda mais produtos financeiros para esses clientes, especialmente crédito, cartões, seguros e serviços dentro do aplicativo.
Crédito no centro
O crescimento esperado depende principalmente do crédito. O PicPay ainda tem participação baixa nos mercados em que atua: cerca de 1% em cartão de crédito, 1,8% em crédito pessoal e 3,8% em consignado privado. Para o BTG, isso abre espaço para aumentar a receita por cliente. Hoje, a companhia captura cerca de 5% da carteira potencial dos seus usuários em produtos de crédito. A meta é chegar a algo entre 10% e 15% nos próximos anos.
O modelo lembra parte da estratégia usada pelo Nubank. O PicPay começa com limites menores, observa o comportamento do cliente e aumenta a exposição ao longo do tempo. A diferença é que o PicPay ainda tem histórico mais curto de crédito no balanço e precisa provar que consegue crescer sem deteriorar demais a qualidade da carteira, dizem os analistas do BTG.
Lucro em alta

Os números recentes reforçam a tese de virada. A receita total do PicPay chegou a R$10,3 bilhões em 2025, alta de 84,5%. O lucro ajustado foi de cerca de R$502 milhões, praticamente o dobro do ano anterior.
A carteira bruta de crédito atingiu R$24,1 bilhões, alta de 127,7%, enquanto os depósitos chegaram a R$28,7 bilhões. A relação custo/receita caiu para 53,2%, sinal de ganho de escala operacional.
O BTG também vê possível upside na aquisição da KOVR, seguradora que ainda depende de aprovações regulatórias. O PicPay concordou em pagar cerca de R$620 milhões por 100% da empresa. A operação pode ampliar a oferta de seguros no aplicativo e melhorar a monetização da base.
Riscos no caminho
A recomendação positiva do BTG traz um alerta. O maior risco é a velocidade da expansão do crédito. O PicPay passou a reter risco relevante no próprio balanço há poucos anos, depois da incorporação do varejo do Banco Original, e ainda precisa atravessar ciclos mais duros para validar seus modelos.
A inadimplência acima de 90 dias chegou a 7,2% em 2025. Como a base de clientes é majoritariamente de baixa renda, a companhia fica mais exposta a juros altos, endividamento das famílias e piora do mercado de trabalho.
Outro ponto de atenção é o produto que permite financiar Pix com cartão de crédito de terceiros. Segundo o BTG, ele respondeu por cerca de 10% da receita e 15% do lucro bruto em 2025. Restrições de bancos emissores ou mudanças regulatórias poderiam reduzir essa contribuição.
Ainda assim, o BTG vê uma relação de risco e retorno atrativa. Para os analistas, o PicPay já construiu escala. O teste agora será transformar essa base em lucro recorrente sem perder o controle da inadimplência.






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