Meta Pixel

Latache rejeita termos da recuperação extrajudicial da Oncoclínicas e defende solução pela via judicial

Gestora considera condições negociadas excessivamente favoráveis aos credores, afirma não ter representantes no conselho e questiona os rumos da reestruturação financeira da companhia.

By Brazil Stock Guide — A Latache, uma das principais acionistas da Oncoclínicas, afirmou estar “completamente contra os termos da recuperação extrajudicial” negociados pelos credores da companhia, segundo nota enviada ao Brazil Stock Guide. A gestora considera as condições propostas excessivamente favoráveis aos credores e defende a recuperação judicial como alternativa, caso sejam mantidos os termos atualmente discutidos.

A proposta em negociação prevê um desconto (haircut) de aproximadamente 45% sobre parte das dívidas renegociadas, em um processo de reestruturação que envolve cerca de R$ 5,1 bilhões em obrigações financeiras. As condições definitivas, incluindo sua aplicação aos diferentes grupos de credores, ainda estão sujeitas às negociações.

Embora acionista, a Latache não possui representantes no conselho de administração da Oncoclínicas. Segundo a gestora, os candidatos por ela indicados não obtiveram votos suficientes para serem eleitos, conforme registrado em ata da assembleia de acionistas.

A manifestação ocorre em meio a uma disputa pela governança da rede de tratamento oncológico. A renúncia de Paulo Roberto Belém Junior, em 30 de setembro, tornou necessária uma nova eleição de todo o conselho de administração, uma vez que seus integrantes haviam sido escolhidos pelo sistema de voto múltiplo.

Pela Lei das Sociedades por Ações, a saída de um conselheiro eleito nesse sistema, sem suplente, exige uma nova eleição integral do colegiado. Até a escolha dos novos integrantes, os conselheiros remanescentes continuam exercendo suas funções em caráter transitório. A assembleia para a recomposição do conselho está convocada para 6 de novembro.

A mudança ocorre em um momento decisivo para a reestruturação financeira da companhia. Em 13 de outubro, a Oncoclínicas informou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que o plano de recuperação extrajudicial permanecia em negociação e poderia sofrer alterações antes de sua apresentação definitiva à Justiça.

O esclarecimento ocorreu após questionamento da autarquia sobre informações publicadas pelo Valor Econômico de que a companhia já teria obtido a adesão de aproximadamente 70% dos credores, percentual superior ao quórum legal necessário para a homologação do plano, desde que atendidos os requisitos de adesão por espécie de crédito.

Nesta quarta-feira (14 de outubro), a Justiça de São Paulo concedeu mais 15 dias para que a companhia comprove a adesão de credores que representem mais da metade dos créditos abrangidos pelo plano, conforme os requisitos legais. O prazo original havia terminado na terça-feira (13), sem a apresentação da documentação definitiva.

Acordo com a Oncoprod

Entre as negociações mais relevantes está a da Oncoprod, uma das principais fornecedoras de medicamentos da Oncoclínicas, que possui aproximadamente R$ 1,2 bilhão a receber da companhia. A distribuidora negociou condições específicas, sem desconto sobre seus créditos, com pagamentos previstos a partir de 2027.

O entendimento também contempla a retomada do fornecimento de medicamentos com prazo de pagamento de 90 dias, em operações que poderão alcançar R$ 600 milhões. O acordo é considerado estratégico para garantir a continuidade dos tratamentos, após dificuldades financeiras terem provocado restrições ao abastecimento da rede.

As condições negociadas com a Oncoprod ilustram a complexidade da reestruturação, que envolve credores com diferentes garantias, prazos e interesses. Há acordos específicos também com bancos. Enquanto alguns credores buscam assegurar o recebimento de seus créditos e a continuidade das operações comerciais, outros grupos discutem alternativas de pagamento, alongamento de vencimentos e eventuais descontos sobre as dívidas.

CRIs e a negociação com credores

A negociação com os detentores de certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) constitui outra frente da recuperação extrajudicial. Os investidores, representados pela Opea Securitizadora, contrataram o escritório Mattos Filho como assessor jurídico e a Journey Capital como assessora financeira. A primeira assembleia, convocada para 23 de setembro, não atingiu o quórum necessário para deliberar sobre o plano.

A dificuldade de reunir os titulares dos CRIs ocorreu enquanto a Oncoclínicas avançava nas negociações com outros credores, incluindo debenturistas e fornecedores. A companhia busca reunir as adesões necessárias à homologação da recuperação extrajudicial, mecanismo que pode vincular também credores abrangidos pelo plano que não tenham concordado individualmente com seus termos.

O Mattos Filho também atuou na representação do Goldman Sachs em discussões relacionadas à oferta pública de aquisição de ações (OPA) da Oncoclínicas. A atuação do escritório em diferentes frentes da crise evidencia a complexidade das relações entre investidores e credores envolvidos na reestruturação financeira e nas disputas societárias da companhia.

Disputa societária

A disputa pela OPA constitui outra fonte de tensão entre os acionistas. Em agosto, a CVM reconheceu a obrigação de realização de uma oferta pública de aquisição de ações pelo fundo Josephina III, ligado à Centaurus Capital, em consequência de uma reorganização societária envolvendo investimentos anteriormente vinculados ao Goldman Sachs. A decisão é contestada pela gestora americana em procedimento arbitral.

A Latache, que detém aproximadamente 14,6% do capital da Oncoclínicas, está entre os acionistas interessados na realização da oferta. A gestora também solicitou a convocação de uma assembleia para discutir a suspensão dos direitos de voto do Josephina III, ampliando a disputa sobre a governança da companhia.

A oposição da Latache aos termos da recuperação extrajudicial acrescenta uma nova frente de divergência à crise da Oncoclínicas. Além de buscar uma solução para seu endividamento, a companhia terá de conciliar os interesses de diferentes grupos de credores e enfrentar disputas societárias em meio à renovação de seu conselho de administração.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo