By Brazil Stock Guide — A eventual entrada de Advent International e Bain Capital na Amil tende a ser menos uma venda integral da operadora e mais uma parceria estratégica para preparar a companhia para uma volta à Bolsa, apurou o Brazil Stock Guide.
A existência das conversas entre Amil, Bain e Advent foi publicada primeiramente pelo Broadcast.
A estrutura mais provável, de acordo com fontes, seria a venda de uma participação minoritária relevante, possivelmente próxima de 30%, em uma operação que poderia movimentar cerca de R$ 10 bilhões. A conta embutiria uma tese de valuation superior a R$ 30 bilhões para a Amil em um IPO futuro, numa janela estimada entre 18 meses e dois anos, a depender das condições de mercado.
A leitura contrasta com a ideia de uma venda pura e simples da companhia por José Seripieri Filho, conhecido como Junior. Embora uma alienação total não esteja descartada em uma negociação desse porte, prevalece mais a lógica em um modelo de parceria financeira, no qual a Amil ganharia um sócio de peso, reforçaria governança, aceleraria crescimento e preservaria a possibilidade de capturar um valor maior no mercado de capitais.
O roteiro não seria novo para Junior. Na Qualicorp, companhia fundada por ele e levada à Bolsa em 2011, o empresário já havia recorrido a fundos globais em momentos decisivos de expansão e liquidez. A General Atlantic apoiou a empresa em uma fase acelerada de crescimento, e o Carlyle entrou antes do IPO, em uma operação que ajudou a consolidar a Qualicorp como uma das principais plataformas privadas de saúde suplementar do país. A Qualicorp foi vendida em 2019 à Rede D’Or.
A tese agora seria repetir, em escala maior, uma fórmula parecida: usar o capital e a chancela de grandes fundos internacionais para transformar uma companhia recuperada operacionalmente em uma empresa listada, com liquidez, governança e múltiplos mais próximos dos grandes ativos privados de saúde do Brasil.
A Amil voltou ao radar de investidores depois de uma recuperação acelerada desde que Junior recomprou a empresa da UnitedHealth. O negócio foi fechado no fim de 2023, e o empresário assumiu a operação em fevereiro de 2024. A aquisição envolveu desembolso direto de mais de R$ 2 bilhões e a assunção de dívidas e passivos relevantes, em uma transação avaliada em mais de R$ 10 bilhões.
Desde então, a companhia passou por uma reestruturação ampla. A Amil reduziu custos, reformulou sua grade de produtos, ajustou preços, reduziu riscos de contingências judiciais no balanço e voltou a crescer de forma agressiva, especialmente no eixo Rio-São Paulo. A expansão tem sido puxada por planos regionais e pelo segmento de pequenas e médias empresas, em um momento de fragilidade operacional e competitiva de grupos como Hapvida e parte do sistema Unimed.
A recuperação também passou por uma reorganização da presença hospitalar do grupo. Desde que assumiu a Amil, Junior articulou duas plataformas assistenciais relevantes: a Rede Américas, joint venture hospitalar com a Dasa, ligada à família Bueno, e a Rede Total Care, braço assistencial próprio do Grupo Amil. Juntas, as duas redes reúnem mais de 40 hospitais e unidades assistenciais, reforçando a atuação da Amil no segmento.
Múltiplos premium
Em 2025, a companhia reportou lucro líquido de R$ 5,4 bilhões, mas parte relevante desse número veio de efeitos contábeis e não recorrentes, incluindo créditos tributários de R$ 2,1 bilhões e cerca de R$ 1,4 bilhão em ganhos associados à reorganização hospitalar com a Dasa. Ajustados esses fatores, o lucro recorrente ficaria em torno de R$ 1,9 bilhão — ainda um avanço expressivo, mas bem diferente da leitura superficial do lucro contábil.
Uma avaliação superior a R$ 30 bilhões colocaria a Amil em uma faixa exigente de valuation. Considerando lucro recorrente próximo de R$ 1,9 bilhão, a companhia seria precificada a algo perto de 16 vezes lucro, múltiplo mais próximo de ativos premium de saúde, como Rede D’Or, do que de operadoras ainda pressionadas.
O desempenho reforçou a percepção de que o ativo, visto por parte do mercado durante anos como uma operação sem gestão suficientemente ativa sob o guarda-chuva da UnitedHealth, voltou a ter dono, direção estratégica e capacidade de execução.
A melhora também foi favorecida por um ambiente regulatório menos pressionado para o setor. Mudanças da ANS envolvendo ativos garantidores deram fôlego financeiro às operadoras, ao reduzir a pressão sobre reservas regulatórias e melhorar a liquidez em um segmento que ainda se recupera dos efeitos da pandemia, da inflação médica e da deterioração da sinistralidade.
Para Bain e Advent, a entrada na Amil daria exposição a uma das poucas plataformas de saúde suplementar com tamanho suficiente para disputar crescimento nacional e, ao mesmo tempo, capturar ganhos de eficiência depois de anos de subaproveitamento. A Bain tem histórico no setor por sua passagem pela NotreDame Intermédica, que posteriormente se combinou com a Hapvida. A Advent, por sua vez, tem experiência em ativos regulados e serviços no Brasil.
A Amil já foi uma empresa listada. Fundada pela família Godoy Bueno, abriu capital em 2007 e foi vendida em 2012 para a UnitedHealth, em uma transação de cerca de R$ 10 bilhões. A passagem da gigante americana pelo Brasil, porém, foi marcada por dificuldades operacionais, perda de dinamismo e questionamentos sobre a capacidade da companhia de competir em um mercado local, regulado e intensivo em relacionamento com médicos, hospitais, corretores e clientes corporativos.
Procurada pelo Brazil Stock Guide, a Amil afirmou que não comenta especulações. Ao Broadcast, Advent e Bain também não comentaram.







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