Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide
E lá veio ele, em pleno verão europeu, quase 40°C à sombra, de terno marrom completo, lenço no pescoço, atravessando a Fortezza da Basso sem desabotoar o paletó. A imagem é a cara da 110ª edição da Pitti Uomo, onde suar com elegância faz parte do contrato.
Desde 1972, a feira florentina funciona como termômetro do que os homens vão vestir dali a seis meses. Na superfície, é um evento de negócios sóbrio: cerca de 720 marcas de mais de 30 países, exibindo as coleções de primavera-verão 2027. “Pequenas empresas estão crescendo, e acho que a Pitti representa muitas delas”, resumiu Antonio De Matteis, presidente da Pitti Immagine e CEO da napolitana Kiton.
De Matteis é um dos executivos de verdade da feira. Mas a Pitti que chama a atenção e sai nas fotografias é outra: a dos peacocks. Os pavões de Florença se vestem para serem fotografados na calçada, em performances que vão do impecável ao delirante. É uma fauna particular que desfila meio sem rumo no entorno da feira, em busca de ser notada e tentando refletir as tendências que estão sendo decididas lá dentro.

Neste ano, o veredito da rua foi a alfaiataria marrom, nos tons terra, caramelo e chocolate, com silhueta deliberadamente amaciada. Ombro macio, linho e mais volume. Tudo maior, mais solto. E, como acontece sempre que as roupas incham, um acessório aproveita a carona. Aqui entra o herói discreto, mas tão evidente do guarda-roupa masculino: os óculos de sol.
Os homens em geral portam bem menos acessórios que as mulheres. Uma aliança, um relógio e, talvez, um chapéu de palha. Os óculos são, para muitos, o único objeto que carrega personalidade sem pedir licença. E eles andaram crescendo. A direção de 2027 é de óculos avantajados, maiores, de acetato grosso e presença robusta.
Tudo bem, maiores, mas, crucialmente, não excessivos. Não são os maxi-óculos de olho de inseto que sempre aparecem nas passarelas, são uma leitura sóbria e sartorial do volume, que dialoga com a jaqueta safari e a calça de prega larga. Um quadrado de acetato em havana pertence à paleta da estação em vez de brigar com ela.

No Brasil, os óculos mais avantajados ainda estão ganhando espaço discreto. Carol Waltrick, diretora de Design de Produto da EssilorLuxottica na América Latina, lembra que uma tendência leva, em média, “entre seis meses e um ano” para sair da passarela e virar prateleira. Ela aposta numa “nova definição de luxo ganhando força, mais personalizada e sofisticada”, com formatos mais arquitetônicos e a releitura dos aviadores, que acabam de completar 90 anos.
Há, claro, o capítulo dos wearables. Em 23 de junho, Meta e EssilorLuxottica lançaram a linha “Meta Glasses”, a partir de US$ 299, com 26 estilos e IA embutida. É mais barata que a Ray-Ban Meta (US$ 379), numa categoria em que a dupla detém cerca de 80% do mercado e cujas vendas saltaram 167% no primeiro trimestre de 2026.

O estilo, esse, ainda divide. O escritor Sam Anderson, da New York Times Magazine, narrou semanas com seus óculos de IA, que confundiram imagens e fizeram transeuntes recuar “como vampiros aspergidos com água benta”. Para o pavão de Florença, ainda há algo de heresia em pôr um chip no rosto.
Popular, luxo e a fronteira do artesanato
É bom aqui dar uma visão geral de como se enquadram os óculos de sol no mercado hoje. No andar popular, onde brilham Ray-Ban, Oakley e Carrera, um clássico fica, entre US$ 100 e US$ 200. O médio-luxo das grifes licenciadas (Prada, Gucci e a italianíssima Persol, um degrau acima por mérito de manufatura) corre de US$ 300 a US$ 700. O luxo de tiragem menor (Tom Ford, Saint Laurent, Dita) pede de US$ 800 a US$ 1.500.
E há o alto luxo artesanal, que começa onde a grife termina. Uma Jacques Marie Mage de acetato custa mais de US$ 1.500, sai em tiragens de poucas centenas de pares, numerada à mão, com cerca de 300 etapas de produção por peça. Acima dela, o bespoke da francesa Maison Bonnet em chifre de búfalo ou tartaruga, sob medida e feito depois de provas que podem levar meses e lembram a ida a um alfaiate. No fim, paga-se o preço de um carro popular.



O paralelo com a Pitti é quase perfeito. A imprensa descreveu a feira como uma tensão entre o artesão e a vanguarda: de um lado o ofício, o linho, o marrom; de outro, a ruptura conceitual da moda, simbolizada pelas estreias dos estilistas convidados Simone Rocha e Kei Ninomiya. No mercado de óculos, a fratura é idêntica: o ateliê numa ponta, a tecnologia de massa com IA na outra e, no meio, a grife que só aluga o nome.
E não há dúvida sobre quem manda no jogo: a EssilorLuxottica, dona de Ray-Ban, Oakley, Persol e da rede Sunglass Hut. O grupo fechou o primeiro trimestre de 2026 com € 7,127 bilhões de receita (+10,8%), seu terceiro trimestre seguido de crescimento de dois dígitos, sobre € 28,5 bilhões em 2025. O mesmo grupo fabrica os óculos da farmácia e licencia os óculos de maison.
De volta ao pavão
O que nos leva de volta à calçada de Florença, onde um pavão de armação havana volumosa jurava que seus óculos não eram “tendência”, eram “atemporais”. Mas ali estavam todos, de acetato grosso e linho amassado, convictos de que a escolha era personalíssima, quando meia Florença chegara à mesma conclusão na mesma semana.
É essa a graça secreta da moda masculina: ela nos convence de que a vaidade é dos outros. Os óculos cresceram, o terno amaciou, o marrom venceu. E cada um descobriu sozinho, com orgulho de connoisseur, exatamente o que 700 marcas haviam combinado seis meses antes. No fim, o pavão tinha razão num ponto: os óculos são mesmo a extensão da personalidade. Só que a personalidade era a mesma para quase todo mundo.






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