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El Niño, a Inflação que Vem do Céu

Com a meta apertada e os modelos no limite, o evento climático transforma a inflação em risco e pode prolongar a cautela do Banco Central.

A queda do petróleo deu algum alívio ao Banco Central antes do Copom. O El Niño, agora confirmado no Pacífico, devolveu a pergunta incômoda: quanto vale esse alívio quando a inflação brasileira passa a depender da chuva, do calor, dos reservatórios, da safra e das estradas?

A resposta honesta é que ninguém sabe direito.

Analistas já vinham tratando o El Niño como uma variável relevante para a inflação. A XP colocou o risco climático dentro de um quadro já desconfortável para o Copom: inflação corrente pressionada, núcleos resistentes, atividade doméstica reacelerando, câmbio deixando de ajudar e expectativas ainda acima da meta. Mesmo com o recuo do petróleo, a casa vê o ciclo de queda da Selic muito perto de uma pausa.

O problema é que o El Niño não entra nos modelos como uma linha limpa de planilha. O evento é conhecido mas a intensidade de seus efeitos, não.

O fenômeno costuma alterar o regime de chuvas no Brasil, com maior precipitação no Sul, estiagem em partes do Norte e do Nordeste, calor mais intenso e irregularidade hídrica no Centro-Oeste e no Sudeste. Para a economia, isso pode significar alimentos mais caros, volatilidade no atacado, pressão sobre fretes, risco logístico, queimadas, maior consumo de energia e dúvidas sobre reservatórios.

Mas a tradução disso em IPCA é tudo menos simples.

A inflação climática não respeita o calendário do Copom, não obedece à média nacional e não se distribui de forma simétrica entre regiões, lavouras e cadeias produtivas. Chuva demais pode ser tão inflacionária quanto chuva de menos. O choque pode aparecer primeiro em hortifruti, depois em grãos, carnes, frete ou energia. Pode ser temporário. Pode contaminar expectativas. Pode desaparecer antes de virar política monetária. Ou pode ser subestimado até ficar tarde demais.

O Banco Central já estudou a relação entre clima e inflação de alimentos, usando indicadores como o Oceanic Niño Index, o ONI, e variáveis de precipitação para capturar os efeitos de El Niño, La Niña e chuvas anormais sobre alimentação no domicílio.

A conclusão é útil, mas incômoda: a ordem de grandeza muda brutalmente conforme o episódio. No El Niño forte de 2015-16, a contribuição estimada para a inflação de alimentos foi expressiva. Em 2019, o impacto atribuído ao El Niño foi bem menor, enquanto a precipitação atípica respondeu por parte relevante da alta. A lição não é que o clima importa pouco. É o contrário. Importa tanto que não cabe em uma regra fixa.

Essa é a provocação para o Copom. O modelo de inflação pode seguir tecnicamente correto e, ainda assim, ficar pobre diante de um choque climático amplo. Não porque esteja errado, mas porque a variável decisiva não é uma variável só. El Niño é clima, safra, energia, logística, atacado, câmbio, expectativas e política fiscal ao mesmo tempo.

A grande questão brasileira, portanto, não é apenas se o Copom corta 0,25 ponto percentual nesta reunião ou se pausa na seguinte. É por que o país precisa manter juros tão altos para defender uma meta tão difícil de alcançar.

O Brasil poderia ter juros estruturalmente mais baixos. Mas, com expectativas frágeis, prêmio fiscal elevado, inflação de serviços resistente e uma meta ambiciosa, cada choque vira um teste de credibilidade. A Selic alta é menos uma escolha isolada do Banco Central do que o sintoma de um regime que exige demais da política monetária.

O El Niño torna essa escolha ainda menos confortável.

Se o choque climático pressionar alimentos, energia e logística, o Banco Central poderá até reconhecer que juros não fazem chover. Mas dificilmente poderá ignorar os efeitos de segunda rodada. A Selic não reduz enchentes, não enche reservatórios e não melhora a navegação fluvial. Mas atua sobre expectativas, salários, serviços, reajustes, crédito, demanda e câmbio.

Por isso, a incerteza climática não deveria ser tratada nem como motivo automático para juros mais altos nem como algo irrelevante. Se o impacto do El Niño é difícil de medir, também é difícil usá-lo como certeza para defender uma Selic mais alta por mais tempo.

O desafio do Banco Central é reconhecer os limites dos modelos e ampliar o monitoramento de alimentos, energia, logística e clima. Em momentos assim, a faixa de erro importa tanto quanto a projeção central.

O petróleo pode ter dado ao Copom espaço para mais um corte. O El Niño pode reduzir esse espaço logo adiante, ao expor os limites da política monetária diante de choques de oferta. No fim, o problema brasileiro vai além do clima: cada choque vira um teste de credibilidade — e cada teste tende a prolongar o período de juros elevados.

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