O Brasil está longe de ser um paraíso do livre-comércio. Mas tampouco permaneceu passivo diante da expansão da máquina exportadora chinesa. Uma base histórica de dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços analisada pelo Brazil Stock Guide mostra que o país construiu, desde o final dos anos 1980, uma extensa muralha de defesa comercial – erguida produto por produto e concentrada, cada vez mais, na China.
A base reúne 1.040 registros de investigações abertas entre 1988 e julho de 2026. Como um mesmo processo pode envolver diferentes países e aparecer em mais de uma linha, o número não representa 1.040 casos independentes. Ainda assim, a distribuição por origem é reveladora: a China aparece em 293 registros, quase três vezes os 98 dos Estados Unidos e cinco vezes os 60 da Índia.
A diferença não se limita à abertura de investigações. Cerca de 200 procedimentos envolvendo produtos chineses terminaram com aplicação de direito, compromisso de preço ou extensão da medida, ante 57 envolvendo mercadorias americanas. Atualmente, a China aparece em 59 registros de medidas em vigor, prorrogadas durante revisões, estendidas ou com cobrança suspensa, abrangendo 58 produtos. Os Estados Unidos aparecem em 13.
A concentração aumentou. Entre os aproximadamente 44 processos de defesa comercial em andamento identificados pelo BSG, 31 envolvem a China – cerca de 70% do total. Apenas quatro atingem produtos americanos. Das investigações originais em curso, sem contar revisões de medidas anteriores, 20 têm como alvo exportações chinesas.
O alcance dessas barreiras ajuda a medir sua importância. Na siderurgia, o Brasil impôs ou mantém medidas sobre laminados planos, chapas grossas, aço inoxidável, fios, tubos, cordoalhas, barras e aços pré-pintados chineses. Gerdau, ArcelorMittal, Usiminas, CSN, Aperam, Vallourec e Tenaris estão entre as empresas que recorreram ao sistema brasileiro de defesa comercial.
Na química e na petroquímica, a lista inclui resina PET, PVC, ácido adípico, ácido cítrico, etanolaminas, anidrido ftálico e pigmentos de dióxido de titânio. Braskem e Basf aparecem entre as peticionárias. Também há proteção para pneus de automóveis, caminhões, motocicletas e máquinas agrícolas, além de vidros planos e automotivos, seringas, agulhas, tubos para coleta de sangue, fios de náilon, fibras de poliéster, calçados, lápis, canetas, ventiladores e alto-falantes.
O resultado é uma espécie de firewall industrial. O Brasil não fechou completamente a porta para a China, seu maior parceiro comercial. Preferiu instalar barreiras em segmentos nos quais a indústria doméstica conseguiu demonstrar dumping, dano e relação causal, seguindo procedimentos previstos nas regras da Organização Mundial do Comércio.
Isso também significa que a política não é exclusivamente antichinesa. Produtos americanos como PVC, resina de polipropileno, polióis, chapas offset, cápsulas de gelatina e diferentes insumos químicos também estão sujeitos a medidas brasileiras. O sistema responde à pressão de setores específicos, não apenas ao alinhamento geopolítico do governo de turno.
Essa história complica a ofensiva de Donald Trump contra o Brasil. O governo americano afirma que tarifas e outras práticas brasileiras impedem trabalhadores e produtores dos Estados Unidos de acessar um mercado com mais de 210 milhões de consumidores. Em junho de 2026, o USTR concluiu que políticas relacionadas a tarifas preferenciais, comércio digital, serviços de pagamento, propriedade intelectual, etanol e outros temas restringiam o comércio americano.
O levantamento do BSG não elimina essa crítica. A tarifa média de nação mais favorecida aplicada pelo Brasil era de 12% em 2025, segundo a OMC, ante 3,4% nos Estados Unidos. Apenas 18,1% das linhas tarifárias brasileiras entravam com alíquota zero, em comparação com 47,5% das americanas. O Brasil continua sendo, por essa medida, uma economia relativamente protegida.
Mas a fotografia ficou menos confortável para Washington. Depois da nova ofensiva tarifária do governo americano, a OMC estimou que a tarifa efetiva dos Estados Unidos havia alcançado 10,5% em 24 de julho de 2026. A diferença em relação ao Brasil encolheu radicalmente, enquanto a Casa Branca passou a usar sobretaxas amplas não apenas para corrigir distorções comerciais, mas também como instrumento de pressão política.
É aí que a comparação se torna mais interessante. O Brasil protege setores específicos por meio de investigações administrativas que levam meses, exigem participação de importadores e exportadores e precisam demonstrar dano à indústria doméstica. Os Estados Unidos caminharam para tarifas horizontais, determinadas pelo Executivo e aplicadas a grandes grupos de produtos ou países.
Nenhum desses modelos transforma automaticamente uma economia em aberta ou fechada. Direitos antidumping também elevam preços, reduzem a concorrência e podem preservar produtores pouco eficientes. Em alguns casos, o próprio governo brasileiro suspendeu a cobrança por interesse público, reconhecendo que o custo para consumidores ou cadeias produtivas poderia superar o benefício concedido à indústria protegida.
Ainda assim, quase quatro décadas de investigações mostram que a narrativa de um Brasil ingênuo ou completamente exposto à concorrência chinesa não se sustenta. O país já possui uma política ativa de contenção às importações consideradas desleais – e a China é, de longe, seu principal alvo.
Washington pode argumentar que o mercado brasileiro deveria ser mais aberto. O que já não pode fazer com a mesma facilidade é apresentar os Estados Unidos como contraponto inequívoco de liberalização. O Brasil ergueu um muro seletivo contra a máquina exportadora chinesa. A diferença é que, enquanto Brasília construiu o seu tijolo por tijolo, os Estados Unidos agora parecem dispostos a levantar o próprio muro de uma só vez.







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