Meta Pixel

A Amazônia não precisa salvar a transição energética do mundo

A corrida pelos minerais críticos coloca o Brasil no centro de uma disputa geopolítica. A questão não é quanto o mundo precisa da Amazônia, mas o que o Brasil pretende fazer com essa vantagem.

Durante décadas, a Amazônia ocupou o debate internacional principalmente por causa da floresta. Agora, uma nova corrida global desloca parte desse foco para o que existe sob ela. Cobre, níquel, terras raras, potássio, grafita e outros minerais considerados estratégicos tornaram-se peças centrais da transição energética, da indústria de alta tecnologia e até da segurança nacional. De repente, o mundo descobriu que precisa desses recursos.

O diagnóstico divulgado pela Agência Nacional de Mineração mostra que a Amazônia Legal concentra quase metade dos processos brasileiros relacionados a minerais críticos e estratégicos. É um dado relevante, mas talvez a pergunta mais importante não seja quanto a região pode oferecer ao mercado global. A pergunta é outra: qual será a estratégia brasileira diante desse interesse crescente?

A pressa não é exatamente nossa. Ela vem das montadoras que eletrificam suas frotas, dos governos que tentam reduzir a dependência das cadeias controladas pela China e das economias que precisam cumprir metas de descarbonização. O risco é o Brasil enxergar essa demanda apenas como uma oportunidade de ampliar exportações de matérias-primas, repetindo um papel que conhece há séculos.

A história mostra que riqueza geológica, por si só, raramente garante desenvolvimento. O maior valor econômico costuma ficar com quem domina tecnologia, processamento, manufatura e inovação. Exportar minério pode gerar divisas importantes. Mas produzir materiais avançados, fertilizantes, componentes industriais e conhecimento gera muito mais renda, empregos qualificados e competitividade.

Isso não significa transformar a Amazônia em uma fronteira aberta à mineração, nem tratar a preservação ambiental como um entrave ao crescimento. Também seria um erro imaginar que qualquer projeto mineral deva ser automaticamente autorizado porque o mercado internacional precisa desses insumos. A discussão relevante é outra: quais empreendimentos fazem sentido para o país, sob quais critérios ambientais, sociais e econômicos, e quanto do valor criado permanecerá no Brasil.

A Amazônia não precisa salvar a transição energética do mundo. Ela faz parte do território brasileiro, e seus recursos, se explorados, devem servir antes de tudo aos interesses de longo prazo do Brasil. O verdadeiro teste não será medir quantas toneladas de minerais críticos o país consegue exportar, mas se conseguirá transformar essa vantagem geológica em uma estratégia de desenvolvimento sem abrir mão da soberania, da proteção ambiental e da geração de riqueza dentro de casa. O tempo está passando.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo